Caio Pimenta analisa as chances de um número recorde de produções internacionais indicadas a Melhor Filme no Oscar 2026.
HISTÓRICO PROBLEMÁTICO DOS FILMES INTERNACIONAIS
O espaço de produções de língua não inglesa no Oscar de Melhor Filme sempre foi de intruso, no máximo, um convidado simpático que se deu a benevolência de ser aceito entre os longas norte-americanos e britânicos. O histórico traz isso de forma muito clara.
A primeira vez aconteceu com o francês “A Grande Ilusão” na edição de 1939 conquistada por “Do Mundo Nada se Leva”. Somente 31 anos depois que uma obra de língua não-inglesa concorreu novamente a Melhor Filme com “Z”, clássico de Costa-Gavras. Em 1970, o vencedor foi “Perdidos na Noite”.
Três anos depois foi a vez do sueco “Os Emigrantes” concorrer, mas, sem qualquer chance de vitória no duelo entre “Cabaret” e o ganhador “O Poderoso Chefão”. Já em 1974, o genial Ingmar Bergman emplacou o clássico “Gritos e Sussurros”, mas, perdeu para o simpático “Golpe de Mestre”.
Curioso falar do Bergman porque a Academia deve grandes oportunidades de dar espaço para mestres do cinema europeu como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Federico Fellini, Roberto Rossellini, gigantes que foram fundamentais para movimentos como a Nouvelle Vague e o Neorrealismo Italiano. Imagina se o Oscar tivesse sido mais generoso com os filmes internacionais?
Demorou mais 22 anos para uma obra de língua não inglesa a disputar Melhor Filme: o responsável foi o italiano “O Carteiro e o Poeta”. Em 1996, o ganhador foi “Coração Valente”. A Itália reapareceu três anos depois com “A Vida é Bela”, superado por “Shakespeare Apaixonado”.
“O Tigre e o Dragão” abriu um maior espaço para os filmes internacionais no século XXI brigando para valer pelo Oscar 2001. No fim, deu “Gladiador”. Apesar da direção de Clint Eastwood, “Cartas de Iwo Jima” era todo falado em japonês com atores do país em uma versão oriental do conflito. Disputou a temporada de 2007 perdendo para “Os Infiltrados”.
“Amor” esteve no Oscar 2013 após vencer a Palma de Ouro. Apesar da indicação do Michael Haneke a Melhor Direção e da Emmanuelle Riva em Melhor Atriz, não foi páreo a “Argo” em Melhor Filme. “Roma” bateu na trave seis anos, mas, foi superado por “Green Book” em um dos resultados mais contestados dos últimos anos.
Os anos 2020 mudaram totalmente a relação do Oscar com as produções de língua não-inglesa. Vitórias históricas e indicações em números recordes a Melhor Filme foram alguns dos feitos. Fruto das mudanças no corpo votante da Academia, mais abrangente para aquilo que ocorre fora de Hollywood, e da crescente importância dos mercados europeus, latinos, asiáticos e africanos nas bilheterias e nos streamings.
Mesmo duelando contra sucessos de Martin Scorsese, Quentin Tarantino, Sam Mendes, Greta Gerwig e um ícone da cultura pop dos EUA, o sul-coreano “Parasita” fez história ao vencer Melhor Filme, além de Direção e Roteiro Original para Bong Joon-Ho.
Na edição da pandemia, em 2021, “Minari”, apesar de ambientado nos EUA e com financiamento do país, concorreu na categoria máxima com parte significativa dos diálogos falados em coreano. Acabou superado por “Nomadland”.
O japonês “Drive My Car” foi uma grande surpresa na edição seguinte em Melhor Filme em uma temporada vencida por “Coda”. Já em 2023, o alemão “Nada de Novo no Front” foi quem mais ameaçou o grande ganhador daquela temporada “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo“.
Na temporada dominada por “Oppenheimer”, o Oscar 2024 teve pela primeira vez duas produções de língua não-inglesa em Melhor Filme: o francês “Anatomia de uma Queda” e o alemão “Zona de Interesse”. Por fim, neste ano, a França apareceu novamente com “Emilia Pérez”, enquanto o Brasil chegou com “Ainda Estou Aqui”. A categoria máxima, porém, ficou com “Anora”.
Colocando uma divisão por “Parasita”, antes do premiado longa sul-coreano, tivemos 10 produções de língua não-inglesa em 92 edições contra 7 filmes nos últimos cinco anos.
Claro que não é uma situação que agrada totalmente os estúdios de Hollywood, mas, cada vez mais impossível de voltar atrás.
A FORÇA NORUEGUESA COM ‘VALOR SENTIMENTAL’
No pior dos cenários, o Oscar 2026 de Melhor Filme terá uma produção internacional. Esta vaga, aliás, já tem dono.
“Valor Sentimental” chega com grandes possibilidades para vencer a categoria máxima. A produção mandou muito bem no Festival de Cannes, levando o Grande Prêmio do Júri, troféu já vencido anteriormente por “A Vida é Bela”, “Infiltrado na Klan” e “Zona de Interesse”.
Em Telluride, a Variety avaliou a estreia na América do Norte como arrebatadora e que será impossível a Academia ignorar a produção. A exibição no festival no Colorado, aliás, praticamente sacramentou o caminho para Joachim Trier em Direção, Renate Reinsve em Atriz principal, Stellan Skarsgard em Ator Coadjuvante e Roteiro Original. Ainda há possibilidade de indicação dupla em Atriz Coadjuvante com a Elle Fanning e a Inga Ibsdotter Lilleaas.
Confirmado ainda nos festivais de Toronto e Nova York, “Valor Sentimental” chega com uma missão parecida de “Ainda Estou Aqui” com o Brasil na temporada passada: a Noruega soma seis indicações sem nenhuma vitória em Melhor Filme Internacional. Bateu na trave com “A Pior Pessoa do Mundo” em 2022. Até hoje, a única estatueta do país é em Melhor Documentário com “Kon-Tiki” na edição de 1952.
Este cenário para um país com tradição na Academia somado à aclamação de uma história que dialoga com a vida artística e o mundo do cinema mais a presença de atores prestigiados ao lado de um diretor/roteirista em ascensão criam um cenário perfeito para “Valor Sentimental” chegar forte até para vencer Melhor Filme.
A PALMA DE OURO E O PRESTÍGIO DE PANAHI COM ‘IT WAS JUST AN ACCIDENT’
Também da safra de Cannes “It Was Just An Accident”, ganhador da Palma de Ouro. A honraria máxima do evento francês, aliás, vem dando sorte no Oscar: 4 dos 5 últimos vencedores foram indicados a Melhor Filme – “Parasita”, “O Triângulo da Tristeza”, “Anatomia de uma Queda” e “Anora”. Os longas do Bong Joon-Ho e do Sean Baker fizeram a dobradinha dos dois prêmios mais cobiçados do mundo do cinema.
A Palma de Ouro fez Jafar Panahi se juntar a um seleto grupo de diretores que conseguiram vencer os três principais festivais europeus: o iraniano está ao lado de Henri-Georges Clouzot, Michelangelo Antonioni e Robert Altman como ganhadores dos festivais de Cannes, Veneza e Berlim. Logo, falta ao Oscar, finalmente, reconhecê-lo também.
Esta falta de indicação na Academia pode ser suprimida caso o Panahi seja indicado a Melhor Direção, algo que considero bastante provável. A presença de “It Was Just An Accident” em Melhor Filme não seria uma surpresa tanto pelo histórico recente da Palma de Ouro no Oscar como também por ser uma homenagem ao cinema iraniano, país de gigantes como Abbas Kiarostami e Asghar Farhadi.
Prestigiar “It Was Just An Accident” seria ainda uma escolha da Academia que sinalizaria apoio à classe artística do Irã, alvo de uma repressão feroz do regime do país. O fato do Panahi ser um símbolo disso, alguém que chegou a ser preso três vezes, fazer greve de fome em uma luta histórica contra os aitolás ameniza possíveis resistências aos posicionamentos recentes polêmicos dos EUA no conflito no Oriente Médio em parceria com Israel.
O longa ainda pode se beneficiar de ser o candidato da França, país sempre forte na Academia. O duelo tende a ser com “Nouvelle Vague”, filme da Netflix dirigido pelo americano Richard Linklater, o que poderia render uma enorme polêmica no país.
Escolher o ganhador do maior festival de cinema do país em um modelo parecido com o que a Alemanha fez com “A Semente do Fruto Sagrado” seria algo mais palatável para os franceses.
WAGNER MOURA PUXA ‘O AGENTE SECRETO’
“O Agente Secreto” chega forte ao segundo semestre após os dois prêmios no Festival de Cannes. A exibição em Telluride foi sucesso, o que eleva a expectativa para Nova York e Toronto, próximas paradas do thriller de Kleber Mendonça Filho.
O Wagner Moura é a principal esperança nas categorias principais: o baiano está forte na corrida por Melhor Ator e a tendência é que cresça ainda mais perante os críticos norte-americanos nas projeções com as exibições na América do Norte.
Parece bobagem, mas, quanto mais o Wagner crescer nas apostas para Melhor Ator, melhor para “O Agente Secreto” que ganha mais visibilidade. Com isso, a produção brasileira pode subir e ganhar espaço em Melhor Filme e o Kleber Mendonça Filho em Direção. O apoio da nossa torcida e o clima de paranoia e perseguição política do Brasil dos anos 1970 encontra eco com o momento tenso dos EUA podem favorecer uma narrativa favorável ao longa.
‘NO OTHER CHOICE’: A VEZ DE PARK CHAN-WOOK
Já “No Other Choice” estreou no Festival de Veneza sendo uma das sensações. A BBC comparou com “Parasita”, enquanto críticos da imprensa mundial aplaudem como o filme concilia a violência gráfico beirando o terror com humor sombrio a partir do universalismo do temor da perda do emprego.
A Academia está em dívida com o diretor de “No Other Choice”: apesar de comandar clássicos como “Oldboy”, “A Criada” e “Decisão de Partir”, o Park Chan-Wook nunca teve os filmes indicados ao Oscar muito menos ele sequer apareceu próximo de indicações. Desta vez, porém, pode ser diferente: a vaga em Melhor Filme Internacional parece bastante encaminhada e há possibilidades em Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado e ainda para o elenco.
Um problema passado do Park Chan-Wook pode atrapalhá-lo: o sul-coreano foi expulso do Sindicato dos Roteiristas dos EUA por suspeitar de furar a greve da categoria ao trabalhar na minissérie “O Simpatizante”. Certamente isso será usado na campanha contra ele no Oscar.
Agora, falando em campanha, o estranho disso tudo é que os quatro filmes são distribuídos pela Neon. Como o estúdio fará para determinar prioridades, quem vai brigar por vaga na categoria máxima será algo insano.
Em Melhor Filme, além de “Valor Sentimental”, “No Other Choice” seguido por “O Agente Secreto” me parecem com potencial para chegarem pelo apelo pop que possuem, enquanto “It Was Just An Accident” pode repetir o que aconteceu com o Pawel Pawlikowski, de “Guerra Fria”, e o Thomas Vinterberg, de “Druk”, com o Jafar Panahi em Direção, mas, fora de Melhor Filme.
O máximo que acredito ser possível são 3 indicados. Quatro internacionais em Melhor Filme não me parece algo que a Academia nem Hollywood estariam preparados. A tendência, entretanto, é que fique em dois em uma briga pesada entre “It Was Just An Accident”, “O Agente Secreto” e “No Other Choice”. Certo mesmo apenas “Valor Sentimental”.





















