Caio Pimenta aponta o que pode favorecer “O Agente Secreto” na disputa de Melhor Filme Internacional do Oscar 2026 contra “Valor Sentimental”.
RESULTADO ESPERADO NO BAFTA
Não deu para “O Agente Secreto”: o filme brasileiro perdeu para “Valor Sentimental” na categoria de Melhor Filme Internacional. O resultado já era previsível: dificilmente o longa do Kleber Mendonça Filho superaria o candidato da Noruega.
O Bafta tradicionalmente premia produções europeias: dos últimos 10 ganhadores de Filme Internacional, cinco são do Velho Continente.
A Coreia do Sul quebrou este predomínio duas vezes com “A Criada” e “Parasita”, o Japão com “Drive my Car”, enquanto a América Latina venceu com o mexicano “Roma” e o argentino “Relatos Selvagens”, este uma coprodução com a Espanha. O Brasil venceu o prêmio em duas ocasiões: “Central do Brasil” em 1999 e “Diários de Motocicleta” em 2005.
Logo, não chega a ser uma novidade que o drama do Kleber Mendonça Filho tenha sido derrotado. As oito indicações de “Valor Sentimental”, incluindo, presenças em Melhor Filme, Direção com Joachim Trier e as três de atuação já apontavam que seria uma batalha muito árdua.
O resultado deste domingo equilibra a corrida rumo ao Oscar 2026 de Melhor Filme Internacional.
Se “Valor Sentimental” conquistou o Bafta, “O Agente Secreto” venceu todos os prêmios nos EUA, incluindo, o Critics Choice, Globo de Ouro e Spirit Awards.
Aqui, claro, vale a ponderação de que justamente o Bafta é único evento com votantes no Oscar. Logo, acaba por ser uma vantagem para o drama norueguês. Ainda assim, não tira a força de “O Agente Secreto”.
FATOR 1: CORAÇÃO DE MÃE DA ACADEMIA
Uma marca das últimas edições do Oscar está na generosidade da Academia em distribuir prêmios para muitos filmes. Em 2025, dos 10 indicados a Melhor Filme, apenas “Um Completo Desconhecido” e “Nickel Boys” saíram de mãos vazias. No ano anterior, foram sete indicados na categoria máxima premiados com alguma estatueta.
Ainda que “Uma Batalha Após a Outra” e “Pecadores” sejam amplos favoritos, este ‘coração de mãe’ do Oscar permite acreditar que a cerimônia deverá ter uma distribuição maior na premiação aos filmes da temporada.
Se “Marty Supreme” deve ganhar Melhor Ator com Timothée Chalamet, “Hamnet” garante seu prêmio com Melhor Atriz com a Jessie Buckley. “F1” tem tudo para levar Melhor Som, “Frankenstein” será consagrado, pelo menos, em Design de Produção e Maquiagem e Penteado e “Sonhos de Trem” possui grandes possibilidades de ver o Adolpho Veloso ganhador de Fotografia.
“Valor Sentimental” traz Melhor Ator Coadjuvante como maior possibilidade para além de Filme Internacional.
Stellan Skarsgard traz o peso da história a seu favor: um veterano da indústria, querido dos pares, encontrando o grande personagem da carreira no drama do Joachim Trier. Seria ainda uma maneira de prestigiar um elenco fortíssimo com quatro atuações indicadas ao Oscar.
O maior risco para o sueco é ser atropelado pelo Benicio Del Toro ou até pelo Jacob Elordi. A vitória no Bafta ajudou Skarsgard, mas, a última imagem do Actors Awards, onde ele foi esnobado, a quatro dias do fim da votação do Oscar, pode afetá-lo.
Digamos, porém, que Skarsgard vença Ator Coadjuvante, logo, “Valor Sentimental” estaria contemplado, abrindo uma possibilidade para “O Agente Secreto” também ser premiado.
FATOR 2: ACLAMAÇÃO DE ‘O AGENTE SECRETO’ NOS EUA
Vale lembrar como o filme brasileiro conseguiu uma aclamação nos EUA que nem mesmo “Ainda Estou Aqui” obteve. “O Agente Secreto” conquistou a Trifecta, as principais associações de críticos de cinema dos EUA. Levou dois Globos de Ouro para casa e ainda o Critics Choice. A imprensa norte-americano não cansa de produzir artigos e artigos rendendo todos os tipos de elogios para o drama do Kleber Mendonça.
Fora que a presença de “O Agente Secreto” na recém-criada categoria de Seleção de Elenco mostrou como o filme foi querido ao superar adversários pesadíssimos como “Wicked – Parte 2” e o próprio “Valor Sentimental”. Kleber Mendonça e Wagner Moura também fazem uma campanha pesada, participando de cada evento sempre muito solícitos e sendo bastante bem recebidos.
Aqui vale destacar não apenas o trabalho da Neon, a qual pode até priorizar “Valor Sentimental”, mas, não renunciou a “O Agente Secreto”, e, principalmente, da Emilie Lescaux, uma produtora que faz milagres antes, durante e após as filmagens.
FATOR 3: O GRANDE MOMENTO DO BRASIL
Também é preciso levar em consideração a força brasileira: goste ou não, acredite ou não, o nosso país vive uma fase de prestígio mundo afora em um período complicado dos EUA e de uma Europa encurralada. Isso se soma ao nosso engajamento nas redes sociais, capaz de criar ondas altamente positivas para os nossos filmes, diretores e atores.
FATOR 4: DISCURSO POLÍTICO NECESSÁRIO
Para fechar, a clara estratégia de reforçar a importância política de “O Agente Secreto” pode ser um ganho para o filme brasileiro. A má imagem passada no Festival de Berlim de artistas se esquivando de se posicionar politicamente sobre Donald Trump, ICE, a guerra em Gaza e outros conflitos mundiais pode criar um fortalecimento nos membros da Academia de que é preciso escolher obras políticas que dialoguem com os dilemas dos nossos tempos.
Wagner e Kleber não fogem do embate, alertando que o universo de medo e perseguição do filme brasileiro encontra ecos nos Estados Unidos atuais. Por isso, tão importante não esquecer e sempre preservar a memória para não repetir erros do passado. Para Melhor Filme Internacional, categoria sempre mais politizada que a média do Oscar, pode ser uma estratégia interessante contra um drama familiar ambientado no mundo do cinema.
















