Cultura do cancelamento, realidade virtual, Tinder, OnlyFans… Estes termos e marcas tornaram-se pauta da contemporaneidade com a expansão das redes sociais a partir do início dos anos 2000. O audiovisual retrata essas mudanças e todas as angústias e incertezas trazidas por esses processos, incluindo o já clássico A Rede Social, de David Fincher, passando por documentários como O Dilema das Redes até o muitas vezes profético Black Mirror.

Destaque do elenco do hit teatral amazonense Cabaré Chinelo e com passagens pelo cinema local em curtas como Graves e Agudos em Construção e A Hespanhola, Julia Kahane está à frente de Encontros, projeto que busca refletir sobre as redes sociais a partir de histórias ambientadas na região metropolitana de Manaus. A proposta da série, no formato antológico com episódios de 20 a 25 minutos, conta com o consultor Pedro Riguetti, roteirista de séries como Sob Pressão e Os Outros.

Pedro Riguetti, Daphne Pompeu, Priscila Conserva e Rafael Ramos (sentido horário): time que está ao lado de Julia Kahane no projeto da série.

Com roteiros de Rafael Ramos (Manaus Hot City), Priscila Conserva e Dafne Pompeu, Encontros traz termos e marcas conhecidos do mundo online como temas dos episódios. O primeiro capítulo, chamado Paricatuba, aborda a cultura do cancelamento, enquanto o segundo trata sobre OnlyFans. O Tinder é o tema do terceiro episódio, seguido pela realidade virtual e, fechando a temporada, a Inteligência Artificial.

“Minha intenção era dar o direcionamento para os roteiristas, que ficaram à vontade para escrever os episódios. O foco principal era sempre falar sobre as relações e as adaptações dentro desse contexto virtual”, disse a atriz em conversa durante o Matapi – Mercado Audiovisual do Norte, realizado em Manaus no fim de novembro.

MODO DE SEGUIR EM FRENTE NA PANDEMIA

Julia Kahane atuou nos curtas amazonenses “A Hespanhola”, “Ensaio de Despedida” e “Graves e Agudos em Construção”, além da peça “Cabaré Chinelo”. Foto: Alícia Cast

Engana-se quem pensa que a série surgiu recentemente: Encontros é uma proposta que surgiu em um momento delicado para todos. No meio do isolamento social, Julia decidiu que precisava se manter ativa e passou a pensar em uma alternativa capaz de mesclar teatro com audiovisual de uma forma prática — leia-se, fazer com o celular. “A primeira temporada trazia cinco episódios que eram uma simulação de videochamadas entre dois personagens. Chamei amigos do teatro, o pessoal do Ateliê 23, atores locais”, disse a atriz.

Meses depois, Kahane conseguiu ser aprovada na Lei Aldir Blanc para realizar a segunda temporada da websérie, com cinco episódios, atualmente disponíveis no YouTube. Com a vida voltando ao normal e os compromissos profissionais, ela deixou o projeto guardado, mas sem esquecê-lo, sendo resgatado em 2023 em uma proposta mais ambiciosa.

Tendo ao lado a Artrupe, produtora amazonense responsável pelo Festival Olhar do Norte e curtas premiados como Terra Nova, Julia Kahane resolveu aproveitar o edital do Governo do Amazonas com recursos da Lei Paulo Gustavo para inscrever a proposta de Encontros no desenvolvimento de roteiro da série. Para tanto, precisou abrir um CNPJ, surgindo assim a Kahane Company.

CHUTANDO OS MEDOS

Como deu para perceber, Encontros não é o projeto mais simples para sair do papel. Afinal, como a própria Julia Kahane admite: “Pode ficar meio Frankenstein? Um pouco” — são praticamente cinco curtas-metragens conectados pelo tema, com atores diferentes em cada episódio. Ainda que revele certa ansiedade e preocupação sobre se tudo dará certo, a atriz se mostra feliz por ter deixado o medo para trás e conseguido tomar as rédeas de processos que tinha medo de assumir.

“Passei muito tempo guardando as coisas que queria fazer. Amo fazer parte dos projetos dos meus amigos e parceiros, mas minhas ideias estavam virando fantasmas. Comecei alguns e não continuei, guardei outros. Tenho ideias para teatro, audiovisual e até um talk show. Daí, tomei a decisão: ‘ou eu faço agora ou não faço’. Estou mais cara de pau: o ‘não’ eu já tinha, agora, estou correndo atrás dos meus ‘sins’.” revelou Julia.

O Matapi 2024 foi uma das buscas pelos ‘sins’: segundo a atriz, ela se preparou o ano inteiro para apresentar o projeto da melhor forma possível, tornando-o mais interessante para ser adquirido por uma produtora. Na rodada de negócios, Julia conversou com representantes das produtoras Maria Farinha e Stenna Group. Antes dessas respostas, agora, na Lei Aldir Blanc, ela inseriu a proposta de realizar o piloto de Encontros com o episódio Paricatuba.

Reunião do time de roteiristas de “Encontros”. Foto: Hamyle Nobre

Enquanto a série vai dando os primeiros passos, Julia se prepara para realizar uma participação especial em Obeso Mórbido, longa-metragem a ser dirigido por Diego Bauer e Ricardo Manjaro. As gravações estão previstas para o início de 2025 e marcam um retorno dela aos sets após uma pequena participação no sucesso Pés de Peixe e no curta Tarde Dentro da Tarde, de Rafael Ramos.

“De modo geral, o pessoal do audiovisual não se aproxima do teatro. Faço menos filmes do que gostaria. Tem uma coisa do perfil de não ter a cara amazônica. É uma pena”, admitiu Julia. Nada melhor, então, do que trilhar os próprios e promissores caminhos…

Autor

  • Editor-chefe do Cine Set. Exerce o cargo de diretor de programas na TV Ufam. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas com curso de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

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