“It’s a free world…”.

A máxima do liberalismo entoada no título original anuncia já de cara o propósito de Ken Loach. Com argumento de Paul Laverty, parceiro de longa data do diretor inglês, temas como exploração do trabalho e globalização são colocados em pauta e impulsionam “Mundo Livre” (2007) que, mesmo focado nos dramas da sua personagem principal, não deixa de reproduzir com firmeza sua mensagem final.

Após ser demitida – sem nenhuma justificativa, diga-se – do seu cargo como recruta em uma agência de empregos para imigrantes, Angie (KIerston Wareing), frustrada com o mercado de trabalho e as constantes demissões, decide com a ajuda de uma amiga empreender abrindo seu próprio negócio: uma agência de recrutamento de trabalhadores imigrantes.

Sob a ótica do opressor, a narrativa é apresentada e desenvolvida. A protagonista na tentativa de superar um mercado que também a despreza, acaba reproduzindo o papel de opressora e, por diversas vezes, igualmente o de oprimida. Nesse paradoxo vivido pela personagem, embora algumas situações exploradas no filme possam soar como vitimização – momentos em que Angie sofre consequências dos seus atos, posição que não lhe cabe -, as intenções por trás dessa escolha parecem ser bem claras: dar luz a uma lógica de mercado baseada na exploração.

Ela é partícipe ativa e responsável pelo abuso de dezenas de pessoas e deliberadamente entra no jogo, mas também é empurrada para ele. Esses indivíduos, em níveis diferentes, são colocados em um espiral vicioso onde um explora o outro e assim por diante, alimentando um sistema alicerçado nessa dinâmica abusiva e doente.

 COMO MANTER A ÉTICA EM MEIO À EXPLORAÇÃO?

Mesmo em segundo plano, a busca dos imigrantes ilegais em subsistir ao ponto de se tornarem não mais indivíduos dotados de direitos e deveres, mas apenas mão de obra barata, é o motor de “Mundo Livre”. Observado de longe, é a trama que justifica o enredo da protagonista e, sobretudo, garante força à narrativa.

É nesse ponto que a mensagem de Loach ecoa e gera os questionamentos: até que ponto é possível viver e sobreviver com ética nesse sistema? Ou não se beneficiar, direta ou indiretamente, da precarização da mão de obra? Como não ser cúmplice de uma estrutura fundada na exploração do homem pelo homem? “Mundo Livre” não oferece as respostas, mas instiga o espectador a fazer tais questões.

Ainda que sem a maestria da sua grande obra-prima, “Kes”, ou a afinação dos trabalhos mais recentes que tocam abertamente no tema, como a Palma de Ouro “Eu, Daniel Blake” e sua última realização “Você Não Estava Aqui”, ambos também com roteiro de Laverty, Ken Loach não deixa de traçar bem os contornos naquilo que faz seu trabalho tão relevante.

A mensagem do cineasta por vezes é enfraquecida pela insistente atenção dada a certos aspectos pouco pertinentes da vida da personagem principal. Ainda assim, esse pequeno drama social feito para televisão inglesa, entrega o que muitos enlatados disfarçados de crítica social fingem oferecer. Sem caricaturar os agentes e as situações, “Neste Mundo Livre” mais de uma década depois continua indispensável e a tocar numa ferida ainda aberta.

‘Medley’: mergulho não tão fundo de amadurecimento e memória

“Medley” tem seus melhores momentos quando a personagem precisa lidar com a ausência paterna e as eventuais revelações do roteiro para essa falta.

‘Elsinore’: Andrew Scott é a razão de ser de drama biográfico clássico

“Elsinore” é um drama competente que consegue abordar um tema pesado com leveza e, como no teatro, dá amplo espaço para o seu elenco brilhar.

‘Razão e Sensibilidade’ (2026): a linda e difícil conquista de uma mulher por seu amor e espaço

Adaptação delicada de Jane Austen explora a condição feminina, as diferenças entre razão e emoção e a busca das mulheres por autonomia, amor e pertencimento.

‘100 Dias’: a imensidão do oceano e os limites de uma travessia

100 Dias impressiona pela grandiosidade da travessia ainda que falte investigar melhor para além da conquista épica de Amyr Klink.

‘Drácula de Bram Stoker’: o espetáculo barroco de Francis Ford Coppola

Clássico de Francis Ford Coppola é uma ópera barroca misturada com carnaval e terror, sendo uma demonstração da criatividade do seu diretor.

‘Buddy’: a inocência por trás do terror

Buddy demonstra compreensão afiada do potencial macabro escondido nas imagens da cultura infantil ainda que não conecte bem todas as ideias.

‘Tenzing’: positividade excessiva tira peso de feito histórico

Comprometido na reparação histórica, Tenzing tem uma mensagem otimista para se orgulhar.

‘O Bosque Selvagem’: carta de amor ao stop-motion em animação corajosa

O Bosque Selvagem entrega uma história familiar o suficiente para o público mais novo, mas cheia de ricos detalhes para o mais velho.

‘A Fabulosa Máquina do Tempo’ e a potência do sonhar

Filme de Eliza Capai se torna uma cápsula do tempo capaz de lançar reflexões sobre a sociedade que as cerca e suas próprias transformações e desejos.

‘NAZA’: um olhar sobre um genocídio em andamento

NAZA é uma leitura eficaz sobre as contradições que estão na base desse conflito e um alerta sobre os perigos que ainda podem estar por vir.