Caio Pimenta apresenta os filmes brasileiros que podem buscar a vaga brasileira no Oscar 2026, entre eles, os aguardados “O Agente Secreto” e “O Último Azul”.

CORRENDO POR FORA

Muitos filmes devem surfar ao longo de 2025 na onda de valorização do cinema brasileiro após as ótimas bilheteiras de “O Auto da Compadecida 2” e “Ainda Estou Aqui”. Há obras para todos os gêneros e públicos de grandes nomes do nosso audiovisual.

Mirando o Oscar, entretanto, acho que a maioria deles não terá grandes chances.

“Deus Ainda é Brasileiro” é um deles. A comédia é uma continuação do grande sucesso estrelado por Antonio Fagundes de 2003, um filme que circulou muito mais no mercado interno do que internacional. A única chance de ser o escolhido do Brasil seria se fosse uma homenagem ao Cacá Diegues, cineasta com o maior número de produções que representaram o Brasil no Oscar.

Situação improvável, porém, visto que seria praticamente jogar fora as chances do Brasil voltar ao Oscar em uma temporada importante, visto que o país “defenderá o título” da categoria e há todo um clamor em torno do público.

Apontado como o possível último filme de Fernanda Montenegro, “Velhos Bandidos” é uma comédia sobre um casal de idosos planejando roubar um banco com o apoio de um casal mais jovem. O elenco ainda conta com Ary Fontoura, Vladimir Brichta, Lázaro Ramos e Bruna Marquezine, com direção de Cláudio Torres, conhecido por “Redentor” e “O Homem do Futuro”.

A única chance de ser o nosso representante seria ser um fenômeno de bilheteira, mas, ainda assim, pelo perfil mais leve, não me parece ser o filme escolhido pelo Brasil, muito pelo ponto de vista estratégico.

“Homem com H” traz a história de Ney Matogrosso em um filme que promete uma grande atuação de Jesuíta Barbosa, a partir de uma direção de Esmir Filho, que deve tirar as cinebiografias do marasmo de sempre. Se estivéssemos nos anos 2000, quando “2 Filhos de Francisco”, “Olga” e “Lula – O Filho do Brasil” foram nossos escolhidos, a produção teria alguma chance. Porém, em uma temporada com favoritos claros, me parece uma escolha quase impossível.

Já “A Batalha da Rua Maria Antônia” pode se beneficiar de abordar a temática da ditadura militar, assunto em alta e bastante conhecido da Academia após “Ainda Estou Aqui”. Através de 21 cenas sequenciais, o drama mostra a tensão crescente entre o movimento estudantil de esquerda e os ataques do Comando de Caça aos Comunistas.

A carreira tímida no circuito internacional não apenas deste filme, mas de muitos dos que estou citando, joga para baixo as pretensões rumo ao Oscar.

“Oeste Outra Vez” sofre com isso também. Elogiado pela imprensa brasileira desde sua passagem consagradora pelo Festival de Gramado, o western de Érico Rassi praticamente não circulou por grandes festivais ao redor do planeta. Acredito que possa até ficar entre os semifinalistas da seletiva brasileira, mas não vejo indo adiante.

“Enterre seus Mortos”, por outro lado, passou pelos festivais de Londres, Tóquio e Índia, sendo sempre bem-recebido. Ter Selton Mello, fortalecido em Hollywood após “Ainda Estou Aqui”, ajuda bastante.

A distribuição norte-americana de “Enterre Seus Mortos”, porém, está nas mãos da Dark Star Productions, uma empresa importante para a circulação de muitas obras de alto nível produzidas ao redor do planeta no mercado dos EUA, mas sem força para bancar uma campanha de Oscar forte. Claro que há tempo para uma negociação com alguma distribuidora mais forte, caso seja o escolhido, porém, sinto que corre muito por fora.

“A Melhor Mãe do Mundo” é o novo filme de Anna Muylaert, diretora de “Que Horas Ela Volta?”. Como o nome deixa claro, a cineasta volta a abordar a maternidade, agora trazendo a temática da violência doméstica como foco.

Ainda que bem-recebido com boas críticas e aplausos entusiasmados após a sessão, a passagem pelo Festival de Berlim, em uma exibição fora de competição, não provocou clamor suficiente para transformá-lo em um fenômeno capaz de ameaçar os favoritos à vaga do Brasil. Dessa forma, vejo correndo por fora.

E tem “Baby”: o grande filme de Marcelo Caetano estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2024. Dali em diante, circulou bem, incluindo festivais de Chicago, Biarritz, Bangkok, Florença e San Sebastián, onde ganhou o prêmio de Melhor Filme Latino-Americano.

Elogios também não faltaram da crítica e o público, ainda que nichado na cinefilia, recebeu muito bem o filme. A questão em “Baby” é que ele teria mais força quando fez sua carreira de festivais no ano passado, mas como o duelo era com “Ainda Estou Aqui” e “Motel Destino”, ele não teria a menor chance. Hoje, já chegando no streaming, a sensação é que fez toda a trajetória. De qualquer maneira, seria interessante se “Baby”, pelo menos, ficasse entre os semifinalistas, pois daria uma visibilidade importante, capaz de alcançar mais público.

CANDIDATOS FORTES

Agora, vamos falar dos três filmes que têm chances de ser o nosso representante. O primeiro deles corre bem por fora.

“Vitória” estreou fazendo bonito nos cinemas brasileiros, ao tirar “Capitão América” do topo das bilheteiras. Um resultado impressionante para um drama nacional contra uma superprodução da Marvel. O drama de Andrucha Waddington pode jogar com o fato de ter a distribuição internacional garantida da Sony Pictures Classics, a mesma de “Ainda Estou Aqui”.

Na esteira do atual ganhador de Melhor Filme Internacional, “Vitória” pode se beneficiar do hype em torno de Fernanda Torres para puxar o marketing sobre Fernanda Montenegro, que brilha como protagonista em mais uma grande atuação, em um raro papel de destaque para uma atriz acima dos 90 anos de idade.

Lembra o que falei da falta de uma carreira internacional forte nos festivais? “Vitória” passou longe de conseguir esse pré-requisito fundamental. Seria como tentar se inserir no mercado internacional praticamente do zero, sem chancela nenhuma ao redor do planeta. Até acho que pode ser o nosso representante pela força dos nomes envolvidos no projeto, mas, diante deste cenário, seria um grande erro, como foram os casos de “O Grande Circo Místico” e “Pequeno Segredo”.

Chegamos, então, aos dois reais favoritos para a vaga brasileira no Oscar 2026. O primeiro deles já começou a temporada muito bem, obrigado.

“O Último Azul” teve uma estreia arrasadora no Festival de Berlim: foi o mais elogiado pela crítica internacional e levou o Urso de Prata, o segundo prêmio mais importante do evento. A produção, dirigida por Gabriel Mascaro, traz duas temáticas chamativas na atualidade: a Amazônia e o etarismo. Contar com um astro conhecido em Hollywood como Rodrigo Santoro e já ter uma distribuição garantida na Europa com a Lucky Number também ajudam bastante.

Apesar da nova direção artística, que busca uma pegada mais pop, a Berlinale não é tão visada para a temporada de premiações como Cannes ou Veneza, até por uma questão de calendário, embora tenhamos visto “Vidas Passadas” e “Um Homem Diferente” saindo de lá. Para conseguir a vaga, “O Último Azul” precisa que nenhum outro filme ao longo do ano consiga se destacar tanto quanto ele. E aí mora o problema.

O FAVORITO

Afinal, “O Agente Secreto” é praticamente nome certo na disputa pela Palma de Ouro do Festival de Cannes. Kleber Mendonça Filho é um nome muito querido no evento francês: “Aquarius” e “Bacurau” concorreram ao prêmio, “Retratos Fantasmas” fez a estreia lá, o diretor foi jurado em 2021 e fez “Críticos” na Riviera Francesa. Você soma isso com a presença de Wagner Moura, hoje, o astro brasileiro com os trabalhos mais interessantes em Hollywood.

Como se não bastasse, o Brasil será o país de honra do festival e há todo o hype em torno do nosso cinema após a vitória histórica de “Ainda Estou Aqui” no Oscar.

Diante disso, a não ser que decepcione bastante, acredito que “O Agente Secreto” irá ganhar alguma coisa. Apostar nele após o domínio de Cannes no último Oscar com “Emilia Pérez”, “Flow” e “A Garota da Agulha” saindo de lá para Melhor Filme Internacional seria natural.

Caso realmente aconteça, ele se torna o candidato inevitável do Brasil para o prêmio da Academia.