Que me perdoem os zumbis, mas, em “The Last of Us”, os verdadeiros vilões são os próprios seres humanos. Estes sujeitos pretensamente racionais e não transformados em monstros fisicamente deformados são os mesmos capazes de atrocidades das mais desumanas.
Ellie (Bella Ramsey) já havia sentido isso no penúltimo episódio da primeira temporada ao quase ser estuprada e morta por líder de uma seita religiosa. Abby (Kaitlyn Dever) mostrou isso ao torturar e matar sem qualquer tipo de piedade Joel (Pedro Pascal), o qual, diga-se, também executou dezenas de pessoas ao longo de toda a série.
O novo capítulo da adaptação do game comprova esta tese: quanto mais Ellie e Dina (Isabela Merced) avançam por Seattle na caçada a Abby, a carnificina se amplifica dos modos mais atrozes possíveis. Os corpos espalhados nas ruas são fichinhas para o que as duas heroínas se deparam com um prédio onde pobres coitados pertencentes à temida Frente de Libertação de Washington (WLF) estão pendurados com as tripas expostas após serem executados por integrantes de uma seita. A comunidade no Wyoming parecia um verdadeiro paraíso diante do que a grande cidade enfrenta.
A personificação da barbárie ganha identificação com a chegada de Isaac Dixon: logo na primeira cena, ele mata uma tropa inteira da Fedra, agência governamental que oprime os cidadãos após o início do apocalipse zumbi. De bondade, pelo menos, salva o novato da turma. Fofo, não? A aparição seguinte, entretanto, deixa claro que “The Last of Us” ganha um senhor vilão com Dixon ao mostrá-lo torturando com extrema crueldade um prisioneiro nu e em estado praticamente cadavérico. Uma grande estreia de Jeffrey Wright, ator de elegância extrema capaz de fazer as maiores barbaridade com um toque de sofisticação que o torna malignamente sedutor – isso mesmo quando precisa fazer um monólogo dispensável sobre panelas.
Vinda de “Sex Education” e “Loki”, a diretora Kate Herron não poupa a mão e cria sequências tensas de ação, justamente o ponto alto de “The Last of Us”. Toda a perseguição dos zumbis dentro do vagão de trem a Ellie e Dana tira o fôlego e mantém a tensão em alta. Já o romance entre as duas continua fofinho como um casal de comédia romântica adolescente, acontece aquilo que se adiou no último episódio, mas, longe de acrescentar algo realmente relevante à história. Ainda assim, só de pensar a raivinha dos incels e babacas machistas, incapazes de serem minimamente interessantes para atraírem alguma garota, já vale o momento.
Depois de um episódio morno, o quarto episódio da segunda temporada recoloca “The Last of Us” nos trilhos. Afinal, não busca inventar a roda, foca naquilo que interessa e, eventualmente, oferece um ou outro momento fora da curva – aqui, a atuação de Jeffrey Wright e o singelo momento de Ellie cantando “Take on Me”, do A-ha. Um breve e bonito respiro antes do mergulho no caos.













