A segunda semana em Cannes começou bombando com estreia do brasileiro “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho no tapete vermelho e, logo em seguida, pelo esperado “O Esquema Fenício”, novo filme do diretor pop Wes Anderson.
E, de certa forma, esta nova empreitada segue o “esquema” Andersiano de ser: é divertido, tem personagens carismáticos do seu universo e apresenta diversos momentos espirituosos ao contar a história de Zsa-Zsa Korda (Benicio Del Toro, ótimo), um empresário rico que depois de escapar de outra tentativa de assassinato, decide entregar os negócios da família para a filha Liesl (Mia Threapleton, adorável), uma jovem prestes a entrar para o sacerdócio.
A grande sacada de Anderson é utilizar o thriller de ação de espionagem, um tema pouco comum na sua filmografia, a favor do seu cinema das relações familiares. Em “O Esquema Fenício”, ele brinca com as engrenagens, situações e clichês do cinema de espionagem para fazer sua DR familiar. No fundo, os dilemas e conflitos dos espiões do filme estão dentro do seio familiar.
A cena de abertura no avião – a melhor do filme – inicia com uma música digna do gênero, seguindo a partir daí com as maluquices e humores melancólicos do cineasta.
Particularmente, a impressão é de que “O Esquema Fenício” busca ser um “O Grande Hotel Budapeste” parte dois e não digo isso apenas pela estética visualmente requintada, mas também pela ideia de criar cenários fictícios – aqui presente no reino da Fenícia – e trabalhar os conceitos das screwballs clássicas alinhado ao humor intelectual dos trabalhos de Jacques Tati.
Infelizmente, diferente do filme de 2014, Anderson não consegue atingir a mesma proporção. A trama em si, com seus momentos irreverentes, aos poucos perde o fôlego dentro do próprio enredo – difícil de assimilar em certas situações -, independente, das estripulias de espionagem criadas pelo caminho. Falta uma textura melhor para incorporar as questões existenciais do cineasta dentro do formato satírico, ficando nítido lá pela metade do longa-metragem, que a fórmula andersiana se esgota.
Felizmente, a dupla Benicio Del Toro e Mia Threapleton consegue fazer a gente desfrutar destas circunstâncias engessadas ao deixar que a relação entre pai e filha seja o grande atrativo emocional do filme ao lado das brincadeiras espiônicas desenvolvidas pelo roteiro.
O ator se entrega de corpo e alma e demonstra a habilidade em impor a performance rígida e mesclá-la com estilo humano exigido no universo do cineasta, se encaixando muito bem aos ritmos dos diálogos de Anderson. Já a jovem atriz (filha de Kate Winslet) é um achado, extraindo do jeito sério, belas nuances que demonstram o seu fascínio e dúvidas em relação ao pai.
Depois de um trabalho mais poético, profundo e emotivo como “Asteroid City”, Anderson surpreende e retorna em “O Esquema Fenício” a um filme mais ágil e descontraído para homenagear os thrillers de ação e espionagem à la Hitchcock por meio do cinema familiar/humanista e que se conecta com os interesses pessoais refletidos nos conflitos familiares, a ganância individualista do ser humano e até mesmo em discutir o ambientalismo no mundo moderno.
Se o início promissor não se concretiza durante o desenrolar do longa-metragem, pelo menos, consegue requentar os melhores momentos emocionais da filmografia do cineasta (“Os Excêntricos Tenenbaums”, “Três é Demais” e o citado “O Grande Hotel Budapeste”) e divertir os fãs e espectadores dentro do cinema satírico.
A sensação é que faltou uma melhor comunicação entre a identidade visual e as referências estabelecidas pelo texto, deixando a criatividade lúdica do projeto sacrificada durante o processo.













