A velhinha é um fenômeno: aos 95 anos, June Squibb vive o auge da sua carreira como atriz. Existe algum caso parecido? Depois de anos fazendo pequenos papéis, ela virou de fato estrela na terceira idade com Nebraska (2013) de Alexander Payne, onde roubou a cena e foi indicada ao Oscar. De lá para cá, ela não diminuiu o ritmo, e ano passado até foi protagonista pela primeira vez, vivendo uma “heroína de ação” na divertida comédia Thelma (2024). Agora, ela recebe outro ótimo papel de presente em Eleanor The Great, projeto que marca a estreia da atriz Scarlett Johansson na direção.

O filme conta a história da personagem-título, vivida por Squibb, uma senhora nonagenária solitária após a morte da companheira de muitos anos, Bessie (Rita Zohar). Ela vai morar por uns tempos com a filha e a família dela em Nova York, e começa a frequentar um centro comunitário judaico. Um dia, acaba participando de uma reunião do grupo de apoio de sobreviventes do Holocausto. Comovida, começa a compartilhar, como se fosse sua, a história de vida de Bessie. Uma estudante de jornalismo (Erin Kellyman) passa a investigar o relato e as repercussões vão sacudir a vida da senhora e daqueles ao redor.

Johansson faz um bom trabalho de direção aqui: neutro e sem floreios, dando destaque aos seus atores. Mas é Squibb mesmo quem sai como dona do filme: ela tem um desempenho vivaz e engraçado, especialmente no começo da história, e de novo a atriz conquista o público com facilidade. A jovem Kellyman também se sai bem, com uma atuação sensível e madura, e sua personagem ainda se conecta com o tema do luto, trabalhado dentro da narrativa.

Dito isso, Eleanor The Great tem alguns problemas narrativos: é muito forçada a coincidência de o jornalista televisivo admirado por Eleanor e Bessie, vivido por Chiwetel Ejiofor, ser justamente o pai da jovem que investiga a história. E, por mais que Squibb e principalmente Zohar se esforcem, o drama do Holocausto acaba assumindo controle da narrativa e o filme aos poucos vai assumindo ares de uma daquelas “iscas de Oscar” que tanto exploraram o tema nos últimos tempos. Essa transição de comédia leve, em alguns momentos lembrando quase uma sitcom, para um drama pesado sobre culpa e luto, não é inteiramente bem administrada pelo roteiro e pela direção.

Apesar desses pesares, é mais um filme no qual June Squibb brilha. Numa nota pessoal, talvez eu já esteja um pouco cansado de filmes sobre Holocausto. Por isso, os melhores momentos de Eleanor the Great sejam os que destacam a atriz e seu tipo de velhinha sagaz e sem papas na língua. Felizmente, até mesmo em meio ao drama, lampejos dessa personagem permanecem, graças a uma atriz que se encontra em estado de graça.