Jon Favreau, Joe Johnston, Alan Taylor, Peyton Reed, Jon Watts, Cate Shortland, Destin Daniel Cratton, Joss Whedon, David F. Sandberg, Cathy Yan, Angel Manuel Soto, Shawn Levy, Julius Onah, Jake Schreier… Não faltam nomes medíocres por trás dos filmes da DC e Marvel desde que ambas passaram a dominar as bilheterias mundiais ali no final dos anos 2000. Trata-se de um nível tão ruim que os irmãos Russo passam a ser sinônimo de qualidade a ponto de querer comprar briga com Martin Scorsese (risos de gargalhada). Raramente surgiam bons – Chloé Zhao, James Wan – e até ótimos cineastas – Sam Raimi – nestas produções, mas, incapazes de imprimir um pingo de personalidade a obras moldadas por modelo industrial.
O surgimento de James Gunn neste cenário após “Guardiões da Galáxia”, uma produção Marvel menor em comparação aos filmes da turma dos Vingadores e com uma cara própria capaz de tornar personagens totalmente desconhecidos em figuras queridas do grande público, representou um escape ao formato tão conhecido da Marvel/DC. E a receita nem era inovadora; bastou pitadas de rock, piadas inteligentes se misturando com bobagens, visual mais colorido abraçando a fantasia, uma dose possível de anarquia e absurdo na condução da história e no destino dos personagens e pronto. Isso permitiu a ele criar algumas das melhores obras do gênero com as duas continuações do Senhor das Estrelas e o excelente “Esquadrão Suicida”, além da divertida série “O Pacificador”.
“Superman” é a premiação desta trajetória até aqui, afinal, junto com Homem-Aranha e Batman, o Homem de Aço forma a trinca dos super-heróis mais populares, logo, há uma dose de responsabilidade para quem os assume e, consequentemente, limites. Com isso, Gunn não pode se permitir certas ousadias como sair matando seus heróis em menos de cinco minutos de filme ou ser tão desbocado.
Isso não significa, entretanto, que o diretor/roteirista esteja totalmente preso e não possa mexer com certos conceitos: logo, de cara, por exemplo, em vez de abrirmos com o protagonista triunfante nos céus e possante com seus músculos no traje perfeito, o coitado aparece destroçado, recuperando o ar após ser derrotado pela primeira vez. Temos ali uma fragilidade tão bem-vinda a uma figura considerada indestrutível. Também não precisamos ficar com aquele mistério todo sobre a identidade de Clark Kent nem vermos o início do romance dele com Lois Lane; está tudo lá logo de cara – se um dia isso chegar a Peter Parker e Bruce Wayne, o público, Thomas e Martha Wayne e Tio Ben agradecem.
Sem precisar ensinar o bé-a-bá pela milésima vez, James Gunn se permite entregar logo a ação. E como ele faz bem! Deixando de lado o tom soturno de Nolan e Snyder, o diretor cria um filme solar, de cores quentes, explorando os cenários para colocar os heróis e adversários em confrontos na cidade, na neve ou até em uma dimensão de um universo paralelo. Quando isso se junta a um David Corenswet competente mesmo longe do brilhante, uma Rachel Brosnahan encantadora para variar e um doguinho fofo roubando a cena, fica fácil embarcar na aventura.
Dentro da autonomia conquistada por James Gunn, “Superman” ainda se permite aventurar mais por contextos políticos fora da caixinha típica dos filmes de baseados em HQs, mas, ainda assim, dentro novamente de um limite possível que permite este tipo de blockbuster. Logo, há de se reconhecer sim toda a analogia sobre imigração feita a partir do protagonista, uma figura externa que, de repente, se vê perseguido naquele mundo onde resolveu morar e ainda se posiciona contra a invasão de um país vulnerável por outro mais poderoso por se reconhecer diante do fato. O maior acerto neste sentido do roteiro, entretanto, está em um diálogo interessante entre Lois e Clark logo na parte inicial sobre a responsabilidade do herói e todas as graves consequências desencadeadas por ações tomadas por impulso; uma cutucada certeira para aqueles que pensam que a vida real é igual a ficção com soluções simplistas para problemas complexos, o que fica deliciosamente ilustrado com os tweets cheios de hates dos macaquinhos.
Quanto ao restante, entretanto, vejo um mais do mesmo nas críticas aos milionários e suas megalomanias pelo poder ao colocar Lex Luthor como o vilão de um complexo tecnológico, algo mais do que explorado recentemente por obras como “Succession”, “Billions”, “Silicon Valley” “Mountainhead” e por aí vai. Apesar das alegações pertinentes apontando para uma associação ao conflito entre Israel-Palestina no duelo das duas nações fictícias de “Superman”, enxergo mais paralelos no conflito entre Rússia e Ucrânia, seja pelo presidente caricato do país invasor na linha de tantos russos estereotipados em suspenses dos anos 1980 e 1990, seja pela resolução do duelo no melhor estilo ‘EUA xerife e salvadores do planeta’ e, por fim, na própria configuração de Hollywood, a qual não vejo ter coragem suficiente para comprar um ataque tão incisivo e influente a um aliado histórico do país e da própria indústria do cinema para uma produção deste tipo.
De qualquer maneira, independente de alegorias políticas, “Superman” funciona pela diversão, a qual entrega sem maiores dificuldades. Não é a obra-prima do cinema como emocionados tentarão vender por aí e nem sequer é o melhor trabalho do diretor. Uma coisa, porém, é certa: James Gunn faz valer o ditado de que em terra de cego quem tem um olho é rei. No mar da mediocridade, que bom tê-lo no universo das adaptações das HQs.














