Navegando em um barco pelos rios da Amazônia, Tereza (Denise Weinberg) e Cadu (Rodrigo Santoro) avistam dezenas de pneus abandonados na faixa de areia. Todos descartados após intenso uso. Não precisa ser nenhum gênio para compreender o paralelo daqueles materiais com a protagonista de “O Último Azul”. Aquela senhora busca evitar de qualquer maneira ser despachada para um local desconhecido onde idosos ficam após ‘terem prestado sua contribuição para a sociedade’.  

Diretor dos provocativos “Boi Neon” e “Divino Amor”, Gabriel Mascaro parte desta premissa para debater as lógicas do modo de vida a que estamos presos como sociedade. Lá estão questionamentos sobre os saberes e encantos da floresta assim como o pragmatismo das nossas ações, mas, a principal delas, claro, reside na cultura da produtividade. Os idosos são um peso em “O Último Azul”: caçados como bichos, impedidos de comprar passagens de avião, ônibus ou barco sem a autorização do responsável, alvos de dedos-duros, quem os ajuda comete graves crimes com risco até de ter a casa interditada. Tudo isso para não atrapalhar a classe economicamente ativa com preocupações “vãs” com aqueles que vieram antes. Este caráter dispensável do ser humano mirando a eficiência para gerar mais e mais riqueza faz com que o Brasil do filme não seja tão distópico assim.  

Para desafiar esta lógica, a ideia de “O Último Azul” ser um boat movie faz todo sentido. Com seus cabelos brancos e rugas no rosto, Tereza é uma personagem em movimento. Esqueçam as vovózinhas tricotando, sentadas na cadeira de embalo escutando rádio ou vendo a novelinha das seis: a personagem de Denise Weinberg desce e sobe barrancos, circula longas trajetórias de barco ou a pé. O cansaço natural é proveniente mais do sol a pino do nosso calor amazônico de 35 graus na sombra do que pela idade. 

Mascaro tem uma tese a provar e aquele corpo é seu objeto de estudo, o que acaba sendo, ao mesmo tempo, um mérito e demérito de “O Último Azul”. De um lado, pode-se exaltar que o longa jamais caia na tentação de vitimizar Tereza como um pobre coitada perseguida pelo próprio país e suas leis. A inquietude e não aceitação são a marca da composição de Denise, a qual ainda oferece pitadas de ironia ao se manter firme graças a sua teimosia de não aceitar o destino imposto aos idosos. A fortaleza física que a atriz fluminense se coloca é digno de aplausos de pé.  

Estas opções, entretanto, afastam o componente emocional da trama ao não desenvolver mais os dilemas e os contextos da protagonista. Nada ilustra melhor isso do que a mal-acabada relação com a filha Joana (Clarissa Pinheiro): a insistência dela em mandar a mãe de qualquer maneira para o exílio deixa a sensação de que falta alguma peça para entender melhor a dinâmica daquela sociedade e como isso se entranha de forma tão natural nas famílias. O encontro de Tereza com Cadu e a mudança de chave dele após a experiência com a babaçu azul até chega próximo disso, mas, não encontra mais tempo para se desenvolver. É como se o cinema de Mascaro, tão bem elaborado em suas propostas e ideias, se recusasse a cair na tentação de ser mais melodramático, mantendo uma certa distância analítica.  

Se a emoção não é abraçada totalmente, “O Último Azul” possui méritos suficientes que fazem este ser um problema (quase) menor. A montagem capaz de convergir a rapidez e dinamismo do filme de aventura com momentos de pura lisergia e contemplação, a fotografia que se mostra sim encantada pela Amazônia e ao mesmo tempo intimista em momentos chaves, Rodrigo Santoro excelente, as presenças dos artistas amazonenses em participações quase easter-eggs, o Mascaroverso ligando este filme com “Divino Amor” a partir do universo evangélico dos barcos com seus pregadores e Bíblias em tablets…  

Mais pop e fluído filme de Gabriel Mascaro com impressionantes 1h25 para tanta coisa que acontece na tela, “O Último Azul” inquieta tanto quanto “Divino Amor” nas suas provocações distópicas tão próximas da realidade, ainda que não consiga possuir a poesia e encantamento da estranheza de “Boi Neon”.

Autor

  • Editor-chefe do Cine Set. Exerce o cargo de diretor de programas na TV Ufam. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas com curso de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

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