Se Machado de Assis dizia que o trunfo de seus contos era o fato de, ao menos, serem curtos, em outras situações a pouca duração também pode ser um empecilho. Com pouco mais de 13 minutos, “Nhandê” parece apressado demais. O que nos mostra que há uma diferença sutil, mas crucial entre a economia narrativa e a pressa.

É lá pros três minutos que o filme nos introduz o que realmente pretende discutir, isto é, o abuso infantil. Quando o monstro sai do armário, a trilha sonora sombria vem com tudo — o que não deixa de soar um pouco pueril: será que realmente precisamos de uma indicação de como nos sentir diante disso? Ou estamos apenas usando um tema cabeludo como pretexto para efeitos melodramáticos fáceis?

Poderia até ser o caso de cineastas jovens testando as águas da forma cinematográfica, se se tratasse aqui de realizadores inexperientes. Mas os diretores Begê Muniz e Elisa Telles parecem estar nessa já há algum tempo. Talvez eles simplesmente tenham atração pelas táticas mais baratas do audiovisual, como o jump scare descabido logo nos primeiros minutos de projeção, quando nossa protagonista Sara é acossada por uma de suas amiguinhas.

Curioso notar que o recente longa-metragem “Manas” apresentou problemas similares: a saber, o embate entre a gravidade do tema e a fragilidade das suas técnicas de retórica. São filmes que parecem cantar vitória muito antes da hora; como se a seriedade do assunto que tratam prescrevesse uma única reação ao espectador: a reverência.

Sara, já dissemos, é o nome da nossa personagem central, menina que não deve ter mais de 12 anos e que vive embrenhada na mata com sua avó, uma benzedeira local. É justamente um dos pacientes espirituais da mulher que tenta seus avanços nojentos contra Sara. “Nhandê” então se utiliza de uma montagem paralela onde, por um lado, o sujeito, em seu tratamento à base de ervas, parece prestes a vomitar toda sua vileza, e por outro, Sara dá seus primeiros passos em direção à autodescoberta adolescente. 

Mas o que exatamente está sendo articulado com esse paralelismo? Só mesmo as entidades espirituais podem responder. Há uma sugestão interessante nas cenas seguintes, que mostram uma espécie de epifania espiritual de Sara. A pergunta-motriz nesse caso parece ser: como uma pré-pubescente busca no insólito os meios para lidar com os males bastante concretos que a afligem? 

É interessante — mas, de novo, há o problema da curta duração… Motivo pelo qual os realizadores talvez se vejam obrigados a fazer uso de uma mão pesada, como na supracitada trilha, ou no histrionismo dos amiguinhos de Sara. O que falta a “Nhandê” é, por um lado, mais delicadeza, e por outro, mais profundidade.