Há 53 anos, Jane Fonda era inevitável. Filha de Henry Fonda, um dos maiores titãs de Hollywood, a atriz já vinha trilhando seu próprio caminho há um tempo, mas foi em Klute, com um Oscar e uma guerra na bolsa, que ela atingiu seu ápice midiático.

Dirigido por Alan J. Pakula, “Klute” integra informalmente a “Trilogia da Paranoia”, juntamente com “The Parallax View” (1974) e “Todos os Homens do Presidente” (1976), O suspense conta a história de Bree Daniels (Jane Fonda), uma garota de programa perseguida por um perigoso stalker, ao mesmo tempo em que se relaciona com o investigador do caso, John Klute (Donald Sutherland).

Klute é um thriller de alto nível, seja em atuação, roteiro, direção e fotografia. Sutherland chegou a dizer que o filme não trabalhava com muita coisa que “fazia sentido” no cinema da época. Pakula e Gordon Willis (lendário diretor de fotografia de “O Poderoso Chefão”) brincam com as fórmulas tradicionais e trazem para o longa aquela efervescência cultural que flutuava no ar no fim da década de 60 e início dos anos 70. São tomadas amplas de uma Nova York fria e assombrosa, mas que, ao mesmo tempo, parece extremamente convidativa. Como Bree diz à Klute em uma das cenas: “Nós impressionamos você um pouco? O pessoal da cidade? O pecado, o brilho, a perversão?”. E isso resume bem a vida de Bree: o perigo parece estar sempre à sua espreita, e ele não necessariamente é o seu stalker. A montagem inspirada pela New Wave, é brusca, escura e guia o tom policial da história.

O roteiro, creditado aos irmãos Andy e Dave Lewis, mantém o filme em uma linha tênue entre o suspense e a introspecção que guiam a vida de Bree. Se por um lado há uma falha em revelar o stalker de garotas de programa faltando mais de uma hora para o fim, Klute recompensa com diálogos de alto quilate. As cenas em que a personagem de Fonda se consulta com uma psicóloga são de uma profunda sinceridade, em que vemos a realidade nua e crua, sentimentalista de um grupo marginalizado pela sociedade. O suspense se perde um pouco sim e chega esvaziado ao final, mas o seu texto nunca.

Com tudo isso, Jane Fonda ainda é o verdadeiro trunfo de Klute. É até curioso que o título seja esse – o sobrenome do detetive – e não se chame, sei lá, Bree. Donald Sutherland não era uma estrela maior e nem sequer tem o primeiro crédito; a história não gira em torno dele, mas enfim, voltemos à Jane Fonda. A atriz já vinha de uma performance aclamada em “A Noite dos Desesperados” (1969) e uma estatueta do Oscar era questão de tempo. Em Klute ela brilha do início ao fim, numa atuação ousada de uma personagem controversa para a época. Se anos depois tivemos Julia Roberts indicada por “Uma Linda Mulher” (1990)  e Mikey Madison vencendo por “Anora” (2024), elas devem agradecer a Fonda. Bree Daniels é um retrato da mulher dos anos 70. Com as maravilhosas botas e minissaias da época, Jane transforma sua personagem em uma convicta feminista, assim como ela é. Bree é independente e sabe que, apesar de trabalhar com o seu corpo, ela é quem está no controle, e deixa seus parceiros – e até seu cafetão – saberem disso. Ela pode até comprar suas próprias flores (duh). Mas nem por isso não há uma carga dramática pesada. 

Assim que vê uma antiga colega rendida pelas drogas, Bree tem uma recaída e retorna a esse mundo, sendo resgatada por Klute. Um pouco de romance não faz mal a ninguém. O filme ainda tem um quê de “Janela Indiscreta” (1954), com o casal buscando solucionar um possível crime e principalmente na cena final, em que o mocinho salva sua donzela em perigo no alto da torre. É, o final é meio piegas e destoa bastante até do primeira metade mais dark do filme, mas nada que comprometa o resultado final.

Na cerimônia de 1972 do Oscar, Klute recebeu duas indicações, sendo uma para seu elogiado roteiro e outra, obviamente pelo trabalho de Fonda. Jane era a Elizabeth Taylor do momento, você simplesmente não  podia escapar. Por esse papel, ela recebeu seu primeiro Globo de Ouro e o prêmio da crítica de Nova York, sendo seu Oscar mais que certo. A surpresa, no entanto, não seria se ela ganharia ou não, mas sim o que ela falaria em seu discurso. Fortemente engajada na luta contra a Guerra do Vietnã e com um embate público com os políticos da época, Jane era mal quista pelo público e chegou a atrair propagando negativa ao ser noticiada como a protagonista (no final, Klute fez quase seis vezes seu orçamento nas bilheterias). A apreensão resultou no que, para mim, é um dos melhores discursos de todos os tempos. Ela simplesmente diz que tem muito a ser dito, mas que não o iria dizer. Um ato de segurança, mas também, uma leve bofetada com luva de pelica. 

Klute permanece como uma peça ousada da frutífera década de 70. Toda a efervescência e liberalismo cultural da época são documentados com o olhar urbano de Pakula e a potência de Fonda. Seu título brasileiro “O Passado Condena” soa até incorreto depois disso. Ele não condena, e sim, brilha, imerso em pecado e perversão.

Autor

  • Graduado em jornalismo, mas verdadeiramente apaixonado pelo audiovisual e a arte de contar histórias. Detentor de uma modesta, mas rara coleção particular de Blu-rays e DVDs, iniciada em 2016 com um filme polêmico, mas um dos favoritos: “E o Vento Levou”.

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