A Leste de Wall respira o tradicional indie americano em sua cerne narrativa: permeado por uma paisagem melancólica, a ficção se confunde com a realidade e as imagens naturalistas acentuam as simbologias da jornada emocional sobre resiliência e superação focada em uma extensa família composta, em sua grande maioria, por mulheres no meio-oeste americano. Dirigido, produzido e roteirizado por Kate Beecroft, o trabalho foi lançado no Festival de Sundance deste ano. É uma experiência no mínima estranha e inusitada. Tem um quê de documentário, mas não chega a ser.
É interessante como o filme guarda boas semelhanças com Domando o Destino de Chloé Zhao (vencedora do Oscar de direção por Nomadland em 2021), já que ambos apresentam histórias intimistas e reflexivas em suas propostas e que tem na ideia central, unir a ficção com a realidade, mostrando que a arte imita a vida e vice-versa.
A direção de Beecroft estreita esta linha ao utilizar atores amadores e profissionais no seu longa-metragem de estreia. Ele é “estrelado” por Tabatha Zimiga e Porshia Zimiga, pessoas reais cujas vidas a cineasta teve contato em um rancho de cavalos na Dakota do Sul. Tabatha é a matriarca da fazenda, Porshia é sua filha mais velha, e juntas elas fazem parte de uma família eclética com muitas crianças, algumas adotadas e outras que vivem a partir das relações informais que elas tem. Tabatha é responsável em domar cavalos selvagens e vendê-los em leilão. Após a morte do marido, a família passa a enfrentar dificuldades financeiras para manter o rancho.
A partir desta premissa, A Leste de Wall mergulha fundo pela árida região rural americana para expor as fragilidades emocionais de uma família frente aos infortúnios da vida. Ao mesclar o tom documental com a narrativa ficcional, Beecroft estabelece uma ligação afetiva forte com o espectador, proporcionado uma experiência ao mesmo tempo desconfortável e comovente pela autenticidade em pontuar os momentos sensiveis que as Zimigas precisam confrontar a própria vulnerabilidade emocional dos lutos e das perdas simbólicas entre si.
Um dos grandes trunfos da produção é trabalhar a linha entre ficção e realidade de um jeito tão tênue que o público não consegue separar se está assistindo a um drama roteirizado ou não. Junte-se a isso a importância da sonoridade feminina, evidenciada em belos planos intimistas que dimensionam essa questão.
Tanto que a melhor cena que sintetiza esse âmago matriarcal é justamente aquela da roda de mulheres, um desabafo poderoso ao redor da fogueira, que inicialmente começa descontraído até se transformar em uma confissão amarga de sentimentos – raiva, anseio e desespero – que trazem, nas entrelinhas, histórias de sobrevivência e sofrimento.
Gosto também da forma que o filme abraça a América moderna, por meio de um protagonismo bem feminino sobre mulheres que vivem em meio à desolação e às dificuldades financeiras em um ambiente rural duro e tradicionalmente masculino. A própria paisagem do Meio-Oeste americano caracterizada pelos penhascos Badlands que simbolizam principalmente a resiliência da natureza e a passagem do tempo funcionam como ótimas alegorias sobre a persistência feminina de buscar a qualquer custo a sobrevivência em um cenário que a insegurança econômica e social predomina.
Se de um lado esse “novo oeste” masculinizado é desconstruído habilmente – a seleção de músicas contemporâneas, incluindo duas de Shaboozey, é outro elemento que reforça isso – pelo outro senti que a história contada por Beecroft divaga mais do que o necessário, sendo redundante em certos momentos. Faltou focar mais no contexto familiar das Zimigas que merecia um melhor tratamento em relação aos seus dilemas pessoais. Até reconheço a mão firme da diretora na condução da narrativa, contudo, apesar da naturalidade, a trama vagueia demais, falta tensão nas cenas mais dramáticas e o ritmo fica irregular.
As atuações de Tabatha Zimiga e Porshia Zimiga, marujas de primeira viagem no campo da atuação, não comprometem. Interpretam a si mesmas de forma bastante convincente, principalmente a primeira, que consegue transmitir a sua ousadia e independência na tela. É claro que os atores profissionais conhecidos como Jennifer Ehle (de O Discurso do Rei e Saint Maud) que interpreta a mãe de Tabatha e o competente Scoot McNairy (visto recentemente em Um Completo Desconhecido e Não Fale o Mal) no papel de um texano rico que tenta convencer Tabatha a vender sua fazenda para ele, são os que se sobressaem melhor na perfomance.
Ao explorar de maneira simples e direta temas universais caracterizados pelos conflitos de gerações, o comic of age juvenil e os laços afetivos de uma família no cotidiano rural do oeste americano, Beecroft filma A Leste de Wall com uma intimidade singela para dar veracidade ao poder feminino da sua história. Sabe explorar a materialidade daquele espaço vibrante (lama, barro, rodeios, superfícies, cavalos) para retratar o impacto emocional da precariedade gerada pelos problemas econômicos americanos desta década.
É uma obra, que mesmo com suas imperfeições, revela o lado poético daquelas pessoas à margem da sociedade, que por debaixo da vida áspera, são seres humanos movidos pelas contradições humanas e que através delas buscam o seu próprio lugar ao sol. Um filme que revela a beleza do seu discurso ao mostrar a generosidade, resistência e comunhão como únicos recursos para combater o esquecimento social.














