Ah, o Oscar…
Desde quando foi criado em 1929, o Oscar é, inegavelmente, o prêmio mais prestigiado da indústria cinematográfica mundial. Isso decorre não apenas por toda a relevância que possui em Hollywood, mas também pela pompa construída acerca da premiação com suas suntuosas formalidades, o fator midiático fortíssimo e da elevação quase olímpica dada aos vencedores com a entrega das estatuetas douradas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Nessa conjuntura, existem inúmeros realizadores e artistas que mesmo a terem carreiras consolidadas, não alcançaram os louros de uma vitória na estimada premiação. No que compete aos diretores, a edição de 2026 possibilita uma forte chance de o aclamado cineasta Paul Thomas Anderson apanhar sua primeira conquista em um total de 14 indicações (a contar as categorias de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro) até o momento. Posto isto, tamanha “injustiça” não se reduz a tal caso, a qual outros consagrados da direção estiveram em mesma posição do nosso querido P.T.A levando tardiamente os seus “homenzinhos dourados”, tendo este texto, a tarefa de mencioná-los.
Tendo em vista esse panorama, a compreensão do reconhecimento tardio da Academia é muito presente e, nesse século, há casos emblemáticos de realizadores mais populares como Martin Scorsese e Christopher Nolan vindo a receber seus prêmios após muito tempo, logo, para além desses, vale considerar que outros nomes já sentiram dessa “maldição”.
Carol Reed, por exemplo, diretor britânico que se notabilizou por seus filmes do gênero suspense, obteve três indicações antes de finalmente vencer em sua quarta com o musical Oliver!, já em 1969. Reed chegou a ser indicado em dobradinha 1950-51 em Melhor Direção, porém sofreu com a forte concorrência de obras-primas como A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz (tendo perdido as duas seguidas para ele, inclusive). Nesse sentido, é válido pensar que um diretor para ser premiado no Oscar pode ter feito um trabalho da vida, mas a concorrência de outros realizadores também conta muito na balança.
Cenário este que foi o caso do querido diretor Spike Lee, onde fez em 1989, Faça a Coisa Certa, um soco em forma de filme que retrata as tensões e conflitos de comunidades negras e de imigrantes em uma Nova York oitentista, e teve neste, sua primeira indicação em Melhor Roteiro Original perdendo para Tom Schulman, de Sociedade dos Poetas Mortos. Entre esnobes da Academia e a indicação a Melhor Documentário por Quatro Meninas, Lee recebeu um Oscar Honorário pelo conjunto da obra só em 2015, não entregue na cerimônia principal. Na edição de 2019, o cineasta foi indicado novamente em três categorias: Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado por Infiltrado na Klan, a qual venceu essa última e criando um grande momento na noite. Hoje, Spike Lee é detentor de dois Óscares, mas fica o discurso aberto pela relevância e força que o seu cinema traz de que houve uma demora pela sua consideração.
James Ivory foi outro realizador que necessitou de quatro indicações para sua vitória em 2018. Indicado pela primeira vez em 1988 com Quarto Com a Vista Sobre Cidade em Melhor Direção, o estadunidense que também é roteirista, apenas com 90 anos conseguiu sua vitória em Roteiro Adaptado por Me Chame Pelo Seu Nome.
O realizador e artista norte-irlandês Kenneth Branagh é um caso à parte em contextos de Oscars. Temos aqui alguém que fora indicado em diversas categorias, a citar Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Curta-Metragem, assim, sete indicações no total e sendo o recordista atual de indicações individuais. Desde Henrique V, em 1989, filme que teve indicações como Ator e Direção, mesmo sendo multipremiado, o cineasta só alcançou a sua vitória dourada na Academia em 2022 com Melhor Roteiro Original por Belfast (inclusive em cima de PTA e seu Licorice Pizza), produção de cunho um tanto autobiográfico sobre a infância de Branagh durante os conflitos Grã-Bretanha-Irlanda do Norte. A perspectiva da vitória de Kenneth Branagh reluz uma conquista tardia vinda da Academia que decide premiar o cineasta em uma produção pessoal e de menor escala – se trouxermos os épicos e dramas shakesperianos de Branagh em jogo – como uma espécie de consideração aos anos de indicação em tantas categorias.
Dados esses episódios, ao voltarmos ao dilema do favoritismo de Paul Thomas Anderson, assumimos a questão de qual caminho será trilhado. O espetacular Sangue Negro, o envolvente Trama Fantasma, o espirituoso Licorice Pizza e o emocionante Uma Batalha Após a Outra… só para contar as indicações a Melhor Direção. 14 indicações, no total, é coisa demais. De Magnólia para cá, o cineasta construiu uma carreira invejável e lúcida, tornando-se um dos maiores de sua geração (para muitos, o maior), e tudo isso sem uma estatueta para chamar de sua. Poderia muito bem entrar no sentido de questionar a valorização sem precisar da premiação, mas seria empáfia demais de minha parte, e temos um Oscar 2026 domingo, não?
A grande validação de Paul Thomas Anderson não se trata de uma premiação como Oscar, tudo indica que o terá agora – a temporada de premiações pede e suplica por isso -, mas sim de como este momento preparou para uma consolidação simbólica e elementar de sua carreira. A verdade é que cada um desses citados acima atingiu a vitória aguardada mesmo após muito esperar, e nosso caro diretor enfim deverá receber a glória máxima, não por vaidade, não por reflexo, mas por aclamação definitiva de sua importância.















