Caio Pimenta analisa os problemas da vitória de Michael B. Jordan, por “Pecadores”, no Oscar 2026 de Melhor Ator.

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Michael B. Jordan levou o Oscar 2026 de Melhor Ator por Pecadores. Após toda a celebração pela conquista dele, chegou a hora de colocar o dedo na ferida: na minha visão, este será um prêmio que vai envelhecer bem mal.

GRANDE CARREIRA ATÉ O OSCAR

Antes de mais nada, preciso aqui exaltar o Michael B. Jordan, um dos grandes atores da atual geração de Hollywood.

O californiano possui uma das carreiras mais regulares do cinema dos EUA. Começou na TV logo com a elogiada série da HBO, “The Wire”. Nos cinemas, mostrou força em Fruitvale Station, primeira parceria com Ryan Coogler. O tropeço de Quarteto Fantástico foi logo esquecido pelo excelente Creed. Pantera Negra o consolidou no hall dos grandes de Hollywood, em uma atuação como Killmonger que já poderia ter rendido indicação ao Oscar.

Nos regulares como Luta por Justiça e Sem Remorso, Jordan é o melhor que ambos os filmes têm a oferecer. O astro ainda se arriscou na direção em Creed III, movimento sempre exaltado por seus pares.

“Pecadores” é, de fato, o ápice deste processo. Interpretar gêmeos, com todas as nuances que isso implica, e com a qualidade que Jordan faz, é para poucos. Torcemos e vibramos pelo personagem dele. Carismático, o astro merecia demais a primeira indicação como uma forma de reconhecimento, inclusive, por toda essa trajetória.

Isso, porém, não quer dizer que concordo com a vitória dele no Oscar 2026.

O terror de Ryan Coogler traz o elenco como força principal. É o conjunto de atores das mais diversas gerações — do novato Miles Caton ao experiente Delroy Lindo, passando por talentos como Wunmi Mosaku, Jack O’Connell, Hailee Steinfeld e, claro, o próprio Jordan — que marca o ponto alto de “Pecadores”.

Dizer isso não significa que sou contrário a alguém do elenco vencer uma categoria individual. Delroy Lindo, por exemplo, trazia o combo da atuação brilhante e da narrativa do veterano nunca antes premiado. Poderia ter vencido Melhor Ator Coadjuvante sem problemas.

Ainda assim, o Oscar justo para “Pecadores” era, sem dúvida, Seleção de Elenco. Claro que havia a torcida por “O Agente Secreto”, mas a capacidade de Francine Maisler em encontrar aquele time tão eclético de atores contemplaria a todos ali.

OS MELHORES DE MELHOR ATOR

Para piorar, Michael B. Jordan estava longe de ser, na minha visão, a melhor atuação entre todos os indicados. Exceto por Leonardo DiCaprio, em Uma Batalha Após a Outra, os demais finalistas tiveram desempenho superior.

Diferentemente de Michael B. Jordan, Timothée Chalamet, Ethan Hawke e Wagner Moura possuem atuações mais contundentes e centrais em seus respectivos filmes. Todos eles estão em produções com grandes elencos, coadjuvantes excelentes, mas o destaque maior está sempre sobre eles.

O astro de “Marty Supreme”, por exemplo, cria um personagem absolutamente fascinante. Imoral, ambicioso, disposto a passar por cima de tudo e todos, repleto de energia, o protagonista de Chalamet hipnotiza o público com seus pequenos golpes. A relação de amor e ódio ao longo do filme deve-se muito ao astro.

Infelizmente, Chalamet colocou tudo a perder com uma campanha absolutamente excessiva. Foi zoado, aliás, excessivamente no Oscar, mas não dá para dizer que também não pediu.

Já Ethan Hawke está fabuloso como Lorenz Hart em “Blue Moon”. A princípio, poderia ser um prêmio que cairia no lugar comum de prestigiar um grande nome de Hollywood interpretando uma figura histórica. O veterano ator, porém, dribla isso ao trazer uma versão absolutamente fascinante de um sujeito amargurado, mas feliz pelo sucesso do amigo. Triste pelos rumos da arte, mas compreendendo as engrenagens dela. Cheio de ideias, mas temeroso de que o fim da linha está próximo.

Pena o drama de Linklater ter ficado fora do radar pela ausência em Melhor Filme. Hawke poderia ter ido longe na temporada.

Wagner Moura é o coração de “O Agente Secreto”. O baiano carrega o peso do mundo, pressionado por todos os lados em um Brasil sufocado pela ditadura militar. O medo de o pior acontecer a cada instante e a urgência do perseguido trazem um contraponto na beleza da relação daquele protagonista com a família e os amigos que faz pelo caminho. De longe, o maior trabalho da carreira de Wagner nos cinemas.

Jamais vou dizer que é um Oscar absurdo este conquistado por Michael B. Jordan. O tempo pode, inclusive, mostrar que foi o começo de uma trajetória grandiosa no Oscar, tal qual ocorre com Denzel Washington. Ainda assim, pela força brilhante deste trio de atuações de Chalamet, Moura e Hawke, a tendência é uma vitória que envelheça mal.