O que A Noiva!, A Empregada e Casamento Sangrento 2: A Viúva têm em comum? Todos foram lançados em 2026 e, cada um à sua maneira, giram em torno da violência contra a mulher. É um tema dolorosamente atual e que Hollywood vem transformando cada vez mais em matéria-prima para thrillers, dramas e filmes de ação. Em O Jogo do Predador, Charlize Theron entra justamente nesse território, tendo que se transformar em uma heroína de ação para sobreviver. O filme usa sua protagonista ferida para falar sobre luto, sobrevivência e o peso psicológico de viver constantemente em estado de alerta.

Quando a Netflix lança um filme, geralmente já tendemos a torcer o nariz por conta da enorme quantidade de produções genéricas que dominam o catálogo. E, sinceramente, O Jogo do Predador começou me passando exatamente essa sensação. Os cenários claramente artificiais e a estética meio plastificada já me fizeram entrar no filme com certo preconceito. Só que tudo muda quando somos apresentados ao verdadeiro destaque da história: Ben, vivido por Taron Egerton, em uma das atuações mais impactantes de toda sua carreira. O ator consegue transformar o personagem em uma figura genuinamente desconfortável, trazendo uma tensão que o filme sozinho talvez não conseguisse sustentar.

Em Atômica, Charlize Theron já mostrava ser uma ótima protagonista, principalmente nas cenas de ação. Já em Mad Max: Estrada da Fúria, nem preciso entrar em muitos detalhes para lembrar o quanto ela arrebentou em um dos papéis mais emblemáticos de sua carreira. Mas existe algo na atuação da atriz que sempre me incomodou um pouco e que volta a aparecer em O Jogo do Predador: essa postura excessivamente fria, quase indiferente, baseada em olhares vazios e poucas expressões. Em alguns momentos funciona, principalmente quando o roteiro exige uma personagem emocionalmente desgastada, mas aqui isso acaba tirando parte do impacto dramático. E é justamente por isso que Taron Egerton se torna tão importante para o filme. Sua presença traz energia, tensão e personalidade suficientes para impedir que a produção caia na armadilha de virar apenas mais um thriller genérico perdido no catálogo da Netflix.

O Ben de O Jogo do Predador carrega muito da essência de serial killers clássicos do cinema, principalmente Buffalo Bill, de O Silêncio dos Inocentes. Existe aquele mesmo prazer desconfortável em transformar a perseguição em espetáculo, como alguém que dança, escuta música e mergulha completamente na própria insanidade antes de atacar. Mas o filme acerta ao atualizar esse tipo de ameaça para algo muito mais próximo da realidade atual. Se Buffalo Bill era fruto de uma visão bastante ultrapassada dos anos 1990, que tratava questões de identidade de gênero de maneira problemática, aqui o terror nasce de algo infelizmente mais reconhecível: o homem frustrado, ressentido e incapaz de aceitar a própria insignificância. Ben é praticamente o retrato de um incel consumido pela raiva e pela necessidade de culpar os outros pelo vazio da própria vida. Taron Egeron não interpreta um monstro distante da realidade, mas alguém assustadoramente possível.

Então, por mais que eu tenha apontado os problemas na atuação de Charlize Theron, que claramente parece estar no automático em vários momentos de O Jogo do Predador, é impossível não torcer pela sua protagonista. Porque, no fim das contas, ela deixa de ser apenas uma personagem de thriller e passa a representar mais uma mulher tentando sobreviver em um mundo constantemente violento. Cada soco que ela dá em Ben funciona quase como uma catarse para o público, uma sensação de justiça rara diante de alguém tão cruel e perturbador. E talvez seja justamente isso que torne o filme interessante além de suas limitações técnicas e narrativas. A violência retratada aqui não parece distante ou fantasiosa demais; ela conversa diretamente com uma realidade tão brutal que até um thriller aparentemente genérico ganha peso por tocar em algo dolorosamente verdadeiro.