A política brasileira se tornou um prato cheio para qualquer roda de fofoca e o Twitter, palanque dos nossos governantes, a rede padrão para discursos vazios e  polêmicos. Uma dessas colocações veio da ministra Damares Alves em referência ao filme de Maïmouna Doucouré, “Lindinhas”, disponível na Netflix. 

Damares acusou o projeto de sexualização infantil, sendo apoiada por outros políticos da ala conservadora. Em todo caso, devo dizer que compreendo a fala de Damares. Apesar de ser comum ao atual governo utilizar argumentos sensacionalistas e deslocados, numa primeira leitura do filme, a conotação sexual – seja por meio das atitudes, vestuários e escolhas – é o que fala mais alto. A própria divulgação na Netflix desperta atenção para esse lado. No entanto, como disse, essa é a camada mais superficial da produção. 

É preciso observar que a erotização está ali, mas como forma de crítica a visão que a sociedade (incluindo os mais conservadores) têm sobre a mulher e seu corpo. Doucouré toma esse fato para construir um filme sobre o encontro da identidade e da liberdade feminina sob o viés da descoberta da sexualidade, o que realmente pode chocar os famosos ‘cidadãos de bem’.  

Acompanhamos Amy (Fathia Youssouf), uma menina de origem senegalesa que precisa lidar com certos dilemas familiares: de um lado, o casamento do pai com a segunda esposa e, do outro, o controle que a islamismo impõe sobre as mulheres. A protagonista vê-se então num limbo, no qual a religiosidade lhe é estranha e o sofrimento velado da mãe a envolve tanto a ponto de afetar a sua relação com o mundo. Tais conflitos partem de tabus sociais e causam angústia à personagem que agarra-se a idealização do primeiro indivíduo igual a ela que encontra pelo caminho, representada por Angélica (Medina El Aidi). 

CRÍTICA CERTEIRA

Interessante perceber o quanto a independência da amiga atrai Amy a ponto de mergulhar em um espiral de similaridades que, na verdade, só a afundam. Afinal, para além de dilemas ideológicos e geracionais, Doucoré também suscita conflitos culturais interpostos pela imigração e o aglomerado de cosmovisões tão distantes em espaços tão pequenos. E isso torna seu filme universal. 

Quantas adolescentes não passam pelos mesmos dilemas de Amy? Sentem-se perdidas, fragilizadas em meio ao seio familiar e buscam nas companhias de mesma idade os espelhos para quem querem se tornar? Neste processo, o papel que a mulher desempenha na sociedade assume contornos mais amplos e profundos, no qual o senso de pertencimento e a construção de identidade são elementos fundamentais, e, tanto quanto eles, a quebra de tabus em relação à educação, especialmente, a sexual. 

O discurso que preponderou nas polêmicas que envolvem “Lindinhas” é apenas um subtópico das discussões que abarcam a obra e o universo feminino na adolescência. O roteiro acerta em mostrar o quanto a imaturidade e inconsequência nessa faixa etária leva-nos a cometer tolices, ao mesmo tempo, em que joga na cara o resultado de uma formação sem diálogos e repleta de proibições. Amy se afunda no conteúdo libidinoso, porque é o que precisa ser feito para ser aceita. Ela consome esse tipo de produto porque nunca recebeu a devida informação e educação sobre ele. E, apesar de toda sua precocidade, suas ações são reações ao mundo que a cerca e sua própria inocência, mesmo quando recorre aos roubos e a cena de nude no banheiro. 

Por isso, o argumento de sexualização infantil propagado pelos detratores do filme é, na verdade, um grito de liberdade de alguém que quer ser visto como indivíduo. Doucoré pauta-se em mostrar uma adolescência palpável, real com personagens que vem de núcleos familiares problemáticos. Isso se reflete em suas visões deturpadas do mundo e do que a sociedade pode lhes oferecer. Prova disso é a reação do público ao número musical delas e o entendimento que as meninas tem sobre isso. 

“Lindinhas” é um filme que propõe muitos debates, mas bem diferentes do que os deflagrados no Twitter e pelo público mais conservador. Seu olhar está voltado a compreender o quanto a construção social contemporânea afeta desde cedo o comportamento e as reações das mulheres, principalmente, sua opinião sobre o próprio corpo. Nesse caso, a crítica de Doucoré é certeira. A de Damares, como sempre, nem tanto.

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Autor

  • Pâmela Eurídice

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (2018), integrante do Coletivo Elviras de Mulheres na Crítica Cinematográfica. Participou de duas edições do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (2018 e 2020), escreve para o Cine Set e produz conteúdo para internet.

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