Chega a ser sintomático como a violência de Manaus ganha protagonismo nas telas neste grande ano do cinema amazonense. Na brutalidade do marido contra a esposa em “O Buraco”, de Zeudi Souza, passando pela fúria surrealista de “Graves e Agudos em Construção”, de Walter Fernandes Jr., ao policial noir de personagens sem muitos escrúpulos de “À Beira do Gatilho”, de Lucas Martins, o clima de uma cidade agressiva no âmbito das relações sociais permeia muitas das produções lançadas em 2021. Justo em um ano de ondas de violências múltiplas – da física promovida pelas longas e permanentes guerras do tráfico até da dignidade humana pela inação do Estado, em todas as suas instâncias, em propiciar o básico aos seus cidadãos.  

Esta mesma Manaus é aquela de seus bolsões de riqueza que, se antes mirava Paris, hoje, busca ostentar uma Miami do terceiro mundo. Primeiro curta-metragem do grupo teatral Ateliê 23, “A Bela é Poc” transita neste universo ao acompanhar Belinho (Taciano Soares), rapaz com o sonho de viver da arte, realizar uma turnê mundial com um show solo no palco do Teatro Amazonas – local símbolo do auge da cidade na época da Belle Époque. Sem esconder a homossexualidade, enfrenta com personalidade diariamente as violências advindas do preconceito e intolerância promovidos, claro, por cidadãos de bem.  

“A Bela é Poc” carrega em sua veia traços almodovarianos – ainda que não o abrace por completo – de excessos, cores, histórias pessoais e boas doses de melodrama. Se a linha tênue oferecida por este tipo de proposta passa do ponto em certos momentos com uma trilha por vezes didática e diálogos demais em outros, Eric Lima, diretor estreante nos cinemas, demonstra atenção total na elaboração de uma identidade visual e sonora forte como elemento de construção desta resistência de Belinho a um mundo que o abomina.   

O brinco esmeralda, o amarrador laranja, o cabelo louro e, depois, vermelho e a camisa rosa com os dizeres ‘Dieu Loves Poc” são achados no figurino do protagonista por já oferecer não apenas o caráter de resistência, mas, também de bom humor necessários para encarar a Via Crúcis diária de homofobia. A entrada triunfal de Isabela Catão, a direção de arte lúdica do único lugar onde Belinho pode se refugiar da violência – o próprio quarto -, a trilha das mais diversas vertentes, referências e o desfecho apoteótico no Teatro Amazonas criam momentos marcantes durante o curta. 

Mas, isso nada seria sem um grande ator a nos conduzir e sentir aquela história como pretendido por “A Bela é Poc”. Taciano Soares traz uma composição completa como Belinho. Sentimos a vivacidade repleta de rapidez no humor nas divertidas conversas com a personagem de Catão, a fúria de quem não aceita ser maltratado, a dor intensa com a perda de alguém querido e a poesia daquilo que almeja ainda que como um sonho distante. Parece impossível quando pensamos que estamos diante de um curta, mas, Taciano alcança isso em um trabalho com potencial de ser premiado festivais Brasil afora.  

Parte de um projeto audiovisual que inclui o ótimo (e polêmico – dá uma olhada nos comentários no YouTube) clipe “Gloriaw” e da videodança “Azul”, “A Bela é Poc” deixa claro como o Ateliê 23 chega com potencial de se tornar um dos principais players do audiovisual amazonense em breve. E demonstra que somente o afeto pode ser resposta à cultura da violência, especialmente, em uma cidade como Manaus. 

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