*AVISO: o texto contém SPOILERS

Eu não costumo criar expectativas para filmes. Não costumo assistir trailers e nem mesmo ler sinopses e, embora tenha alguns artistas favoritos e outros nem tanto, assim como todo mundo, sempre assisto qualquer filme partindo do ponto zero – ou o mais próximo possível disso. Infelizmente, não consegui fugir de algumas análises sobre “Annette”, musical dirigido por Leos Carax (“Holy Motors”), que estreou no Festival de Cannes este ano, onde o francês inclusive venceu o prêmio de melhor direção.

As opiniões que chegaram até mim eram de que “Annette”, devido a sua estranheza, seria um filme estilo ame ou odeie. Embora qualquer produção possa se encaixar nessa definição, de alguma forma, estabelecemos parâmetros que costumeiramente aparecem em obras com essa definição: uma história fora dos padrões tradicionais dos três atos, atuações caricatas, imagens chocantes, final abrupto, etc. Não que o filme se afaste totalmente destes pontos, mas encontrei em “Annette” uma narrativa até bem-comportada, em um gênero que por si só já se encaixa em “amar ou odiar”. E a meu ver, o casamento foi perfeito.

O ENCONTRO DO ROCK COM A ÓPERA

Carax se aproveita das possibilidades do musical para extravasar quando assim é necessário. Desta forma, ele traz mudanças drásticas entre o tom de uma cena e outra com naturalidade, como na apresentação do casal protagonista: Henry McHenry (Adam Driver), um comediante, e Ann Desfranoux (Marion Cottilard), uma cantora de ópera. Ambos em ótimas atuações.

É inegável que o personagem de Adam Driver tem mais espaço dentro do filme. Sua aparição desde o primeiro momento é mais apoteótica: ele age como uma força imparável da natureza, representada inclusive pelo nome do seu show de comédia, “The Ape of God” (O Macaco de Deus).

Sua primeira apresentação é fixadora, levando um stand-up à catarse de um show de rock, ou como é colocado no filme, de uma ópera. Feita por Nelly Quettier (“Feliz como Lázaro”), a montagem de “Annette” nos insere neste jogo para abruptamente nos tirar da primeira apresentação de Henry e conduzir ao espetáculo de Ann, numa decupagem que coloca a reação das duas plateias em sintonia: Henry pede que seu público cale a boca, e ao mesmo tempo, somos levados à silenciosa apresentação de sua companheira.

Esse padrão se repete em outros momentos, como na apresentação da música mais bonita do filme, “We Love Each Other So Much”. Aqui, temos as mãos de Henry perseguindo Ann (um prelúdio aos acontecimentos conturbados que futuramente surgem em seu relacionamento), porém, pousando tranquilamente em seus ombros. Eles caminham por um bosque enquanto cantam seu amor um pelo outro, em uma das poucas cenas em que Henry não traz em seu figurino algum adereço verde, a cor que acompanha o personagem durante a obra. Ele usa o vermelho nesse momento. Os dois adentram na imensidão verde do bosque e, subitamente, temos uma transição para eles andando de moto. A música ainda é a mesma, mas em outro arranjo, mais agressiva, o tom do cena é mais forte, e Henry já está de volta ao seu verde, a cor da sua jaqueta. Estamos no mundo dele.

CONSTANTE LUGAR DE ESTRANHEZA

Nesse ritmo, “Annette” transita entre o subversivo e o formal, pendendo a dar “vitória” ao subversivo. O musical parte quase sempre de uma estrutura dramática tradicional para, com alguns pontos, relembrar sua subversão. Como por psicologia reversa, o musical nos coloca nesse lugar de estranheza, de enxergar algo que nos é familiar, mas que, através de pequenas mudanças, soa desagradável.

Filha dos protagonistas, a pequena Annette simboliza o que há de mais subversivo no longa. Carax e equipe optam por não utilizar uma atriz real, mas sim uma boneca um tanto bizarra. E é dela que curiosamente temos os momentos mais sensíveis da obra. Annette vem para realmente trazer uma beleza infantil, acolhedora, mas que se torna difícil de aceitar justo por sua estranheza estética.

Este jogo relativo à aparência se faz presente desde a primeira cena quando o próprio Carax surge comandando a banda Sparks que compôs as músicas para o filme assim como como os atores principais de “Annette” se preparando para entrar nos personagens. Neste exercício de metalinguagem, fica a sedutora pergunta: a cena faz parte da obra, mas não faz parte da história?

Diria que ela funciona como a boneca que não é uma criança de verdade, mas que para o filme não há diferença. O diretor nos prepara desde o início para viver esse momento de aceitação e certa perturbação entre o que é real ou performático.

Na cena final em que Henry volta a usar vermelho, temos sua tentativa de redenção. E é quando brilhantemente, o filme, enfim, apresenta uma Annette de carne e osso, e sem dizer nada, nos pede para calar a boca, enquanto acompanhamos em catarse a última música da obra: o embate entre Annette e seu pai. Estamos no mundo dela.

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Autor

  • Gabriel Bravo de Lima

    Estudante de jornalismo na Universidade Federal do Amazonas, e diretor de cinema. Pelo seu primeiro curta-metragem, “No dia seguinte ninguém morreu”, recebeu o prêmio de melhor roteiro na terceira edição do festival de cinema Olhar do Norte. Desenvolve pesquisa de iniciação científica sobre a estética do cinema contemporâneo Manauara.

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