Algumas das melhores atrações da Netflix são as suas produções sobre crimes da vida real e serial killers. Ora, Making a Murderer é um clássico da Netflix tanto quanto Orange is the New Black ou Stranger Things. Nos últimos anos, documentários sobre assassinos em série famosos se tornaram um filão que o maior serviço de streaming do mundo adora explorar porque o público se interessa: assinantes que nem sonhavam em nascer quando os crimes foram cometidos, hoje podem conhecer as trajetórias assustadoras de figuras como Ted Bundy (em Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy), Richard Ramirez (Night Stalker) ou Peter Sutcliffe (O Estripador), entre outros. Todas são produções envolventes e viciantes, aliando linguagem documental e suspense típico de narrativas ficcionais para prender o público. Se você nunca as assistiu, leitor, está perdendo.

Agora chega para se juntar a essa safra o documentário britânico Arquivos de um Serial Killer (no original, “Memories of a Murderer: The Nilsen Tapes”), dirigido por Michael Harte e produzido por Dimitri Doganis – os mesmos de outra atração bizarra e marcante da Netflix, a minissérie documental Don’t F*ck with Cats (2019). Arquivos de um Serial Killer é um longa-metragem sobre os terríveis crimes cometidos por Dennis Nilsen na Inglaterra do começo dos anos 1980.

É outra história impressionante sobre o lado mais sombrio do ser humano, temperada pelo coquetel social da época. Um belo dia em 1983, moradores do bairro londrino de Cranley Gardens reclamaram de um bueiro entupido. É a deixa para a polícia (e os espectadores), descobrirem os crimes do escocês Nilsen, que vinha matando homens – vários deles homossexuais, embora nem todos – e escondendo seus corpos há anos. Vemos como o caso repercutiu perante a Inglaterra homofóbica da época, também assolada por problemas econômicos e sociais. E ainda ouvimos da boca do próprio Nilsen, que na prisão gravou várias horas de fitas recontando seus crimes. A voz melodiosa do assassino necrófilo só deixa sua narração ainda mais fria e assustadora.

OBJETIVIDADE CERTEIRA

Com 1h25 minutos de duração, Arquivos de um Serial Killer é curto e direto ao ponto. A abordagem de Harte na direção e na montagem se caracteriza pela total ausência de enrolação. Já começamos sentindo o impacto da descoberta das atrocidades de Nilsen, depois passamos para a investigação, vemos um pouco sobre alguns sobreviventes e pessoas que cruzaram o caminho do assassino, uma exploração sobre o contexto nefasto da Inglaterra da época – na qual homossexualidade era crime, punida com prisão – e o julgamento do criminoso.

Claro, em meio a tudo isso, há algumas intervenções do próprio Nilsen, que fala um pouco sobre a própria vida e sua infância – ocasionalmente ele se revela narcisista e patético, jogando a culpa dos seus atos sobre outras pessoas. O ritmo do documentário é envolvente e a montagem é precisa: simplesmente não há um minuto desperdiçado ao longo de todo o filme.

Também não deixa de ser um documentário convencional, com pessoas dando depoimentos em frente à câmera. Mas, em alguns momentos aqui e ali, a direção encontra espaço para umas cenas estilizadas: o close assustador no armário dentro da casa de Nilsen, que parece saído de um filme de terror do James Wan; ou planos subjetivos que mostram a avó do assassino, bem como o seu possível abuso nas mãos do avô.

Nesses momentos, o documentário parece querer mergulhar na mente de Nilsen ou busca um impacto emocional sobre o espectador para tornar a experiência ainda mais rica e, porque não, mais perturbadora também.

IMPACTO LIMITADO

É interessante notar ainda como o suspense é construído dentro da experiência do documentário. Harte demora a nos revelar o rosto do assassino e, quando o faz, atiça a nossa curiosidade. E apesar de dar voz ao assassino desde o começo, é muito bom observar como Arquivos de um Serial Killer reverte esse processo ao longo da sua duração, minimizando a glamourização da figura do psicopata – uma armadilha na qual algumas produções semelhantes acabam caindo.

Verdade também que, como narrativa, a história de Dennis Nilsen é menos interessante do que a de um Richard Ramirez ou Ted Bundy, portanto, Arquivos de um Serial Killer acaba tendo um impacto limitado. E embora a concisão do filme seja elogiável, não dá para não pensar que a produção poderia ter se aprofundado um pouco mais em alguns aspectos. Mas no geral, esta nova adição ao catálogo de psicopatas e assassinos da Netflix não decepciona.

Arquivos de um Serial Killer é sério, atmosférico e envolvente, e mais um lembrete de que monstros como Nilsen não surgem do nada nem atuam inteiramente sozinhos: afinal, se não fosse um problema comezinho do dia-a-dia, talvez a sociedade ao seu redor tivesse fechado os olhos para muitos mais assassinatos por anos à frente.

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