Ao começar a escrever sobre “The Green Knight”, dirigido por David Lowery (“A Ghost Story”), tive a ideia de analisar o filme como um road movie medieval. Na jornada de Sir Gauvain (Dev Patel), após aceitar o desafio proposto pelo misterioso Cavaleiro Verde, ele precisa partir em uma viagem em busca da Capela Verde, onde supostamente seu desafiante iria reencontrá-lo, após um ano, e devolver ao nobre o golpe que o mesmo o desferiu.

O paralelo com um road movie seria justamente por acompanharmos a trajetória desse personagem durante sua viagem por estradas e bosques. Mas há ainda outro aspecto tão definidor quanto para o gênero que seria a transgressão contra as normas sociais e aqui começam minhas dúvidas sobre o quanto o paralelo que fiz poderia estar correto.

ESTRANHEZA CHAMATIVA

Acredito que inevitavelmente quem assistir à “The Green Knight” se perguntará em algum momento sobre o que mesmo se trata. Não concordo que filmes devam ter explicações ou absolutamente sempre contar uma história. A gosto pessoal, creio que essas sejam necessidades secundárias em uma obra audiovisual, devendo-nos o filme primeiramente nos encantar em seu aspecto sensorial, a partir de suas imagens e sons. Entretanto, o que ocorre na maioria das obras é que esses dois aspectos se entrelaçam e se determinam.

A estranheza a qual Sir Gauvain é apresentado durante sua jornada, com personagens dúbios, gigantes, animais falantes, espíritos perdidos, chegaram a mim com um gosto de dúvida, atiçando curiosidade e certo medo de descobrir aquele universo.

Orquestrada por Andrew Droz Palermo, a fotografia enevoada contribui para um ar de fábula, onde há possibilidade daqueles eventos estarem acontecendo em outra realidade ou até mesmo em alguma alucinação. E quanto mais distante o protagonista fica de casa, mais estranho se torna seu entorno: há, inclusive, uma dificuldade para entendermos o tempo que se passa durante seu trajeto, às vezes, parecendo alguns dias e outras vezes anos.

Mas é claro, e isso a própria obra faz questão de ressaltar, que há um aspecto moral, narrativo, por trás das imagens: Sir Gauvain parte para cumprir seu desafio sem tantas certezas. Aprende a responder que busca honra, mas sabemos que sua escolha partiu mais de uma certa prepotência, uma necessidade de agradar a seu rei e a seu ego.

CONTRADIÇÃO ENTRE A ESSÊNCIA E SEU PROTAGONISTA

Ao longo de seu trajeto, encontramos personagens cujas necessidades são mais imediatas: um jovem ladrão sobrevivendo em meio a guerra, uma donzela abandonada à própria sorte. Desses encontros, não só a jornada de Gauvain parece se tornar fantasiosa, mas seus próprios desejos parecem não apresentar profundidade. Ele não sabe aonde vai e nem porquê. Enquanto as pessoas que encontra pelo caminho apenas respondem a seus desesperos, mas parecem mais “vivas” que ele.

Seu encontro com gigantes parece ser definidor nesse sentido. Ao se ver perante criaturas cuja grandeza não é um sentimento abstrato, referente a uma ordem social, nobreza ou trono, mas sim, um aspecto concreto em suas vidas, Gauvain apenas pensa em atravessar o vale. Aqui, “The Green Knight” desperdiça uma grande chance de imputar ao personagem um encontro mais sensível, como o filme parece buscar dentro de sua abordagem mais visual.

Temos apenas um Gauvain que, ao observar seres extraordinários à sua frente, reage de forma lógica  – dentro do possível para a situação. A intromissão da raposa que o faz companhia e evita que ele siga com os gigantes perde sentido desse modo, já que a mesma funciona como uma voz da razão para Gauvain, mas ele nunca chega próximo de se entregar aos eventos extraordinários que presencia.

Voltando ao ponto sobre o paralelo com um road movie, “The Green Knight” parece entrar em contradição ao propor uma quebra de paradigma sensorial, ao passo que o filme se transforma em algo surrealista conforme mais próximo Sir Gauvain fica de seu objetivo. A produção, entretanto, nos mantém preso a um personagem polido, sereno, que não nos entrega uma possibilidade concreta de embarcamos em uma experiência transformadora como a que ele supostamente passa.

Na realidade, há um receio em “The Green Knight” – um receio de soar mais “estranho” do que seria aceitável, aceitando apenas o lado mais cômodo da fábula que nos propõe.

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