Encontrar seu lugar no mundo é dureza, mas fazer isso sendo uma garota do tradicional povo indígena Mohawk, no Canadá dos anos 1990, requer nervos de aço. “Beans”, primeiro longa-metragem de Tracey Deer, aborda a identidade e os direitos indígenas através das lentes de um drama adolescente. O filme, que estreou no último Festival de Toronto e foi exibido na mostra Generation da Berlinale esse ano, conta uma história delicada – ainda que convencional – que tem potencial para se sair bem no circuito de arte. 
 
“Beans” (“Feijões” em inglês) é o apelido que o personagem-título, interpretada pela adolescente Kiawentiio, usa no lugar de Tekehentahkhwa – seu nome verdadeiro. No limiar da adolescência e cheia de questões identitárias por ser birracial, ela está dividida sobre se deveria deixar a reserva Mohawk para continuar seus estudos. Repentinamente, ela é envolvida em um impasse armado entre os indígenas e as comunidades brancas vizinhas sobre o controle da reserva. O incidente, que ficou conhecido como Crise Oka, acabou levando ao isolamento e hostilidade aos habitantes da reserva, bem como a uma luta por sobrevivência. 
 
A performance de Kiawentiio como a protagonista é a força emocional do filme, mesmo nos momentos em que seu papel tem uma função didática. Em suas mãos, Beans é uma garota carismática e educada tentando se encaixar em um mundo violento.O roteiro, escrito por Deer e Meredith Vuchnichl, não perde tempo em estabelecê-la como alguém que tem dificuldade em se manter firme e se defender. Com isso em mente, o fato dela ter de suportar uma situação de cerco ganha um contorno simbólico, mas também um pouco superficial. 

UNIÃO FEMININA 

 
A sensibilidade de Deer como alguém que, como Beans, viveu a Crise Oka no início da adolescência, ganha vida em cenas poderosas e continua sendo uma das maiores qualidades do longa. O ataque dos manifestantes ao carro da mãe da protagonista, por exemplo, é um exercício de pavor e brutalidade. Outro momento, no qual Beans descobre o prazer de falar palavrões – é mais sutil, mas não menos impactante. 
 
Como o filme é centrado no ponto de vista do personagem-título, o conflito armado entre brancos e indígenas serve mais como um pano de fundo temático do que qualquer outra coisa. Essa decisão narrativa sacrifica um pouco de profundidade histórica, mas permite uma perspectiva energicamente feminina. 
 
O relacionamento de Beans com a durona April (Paulina Alexis), nascido do desejo de se adaptar a um ambiente hostil, é um excelente retrato de união feminina. A relação que ela tem com a mãe, que simboliza a luta em querer ser abraçado mantendo intacta a sua essência, também é bem explorada. Meninos eventualmente se tornam um tópico – como seria de se esperar – mas parece narrativamente honesto e não ameaça os resultados do teste de Bechdel deste filme. 
 
Em um certo ponto, April começa a espancar Beans para endurecê-la. No entanto, o foco da filme de Tracey Deer é a violência psicológica pela qual uma pessoa passa ao crescer como parte de uma minoria e a superação que a permite tornar-se quem ela realmente é.  

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