“Os irmãos não morrem, se multiplicam”.

A questão racial é uma das fortes pautas atuais e o cinema como manifestação artística tem muito a dizer sobre isso. Utilizando abordagens distintas, vários diretores discutem essa mazela social: Ava Duvernay (“Selma” e “A 13ª Emenda”), por exemplo, resgata recortes históricos para mostrar como o racismo estrutural possui raízes profundas, enquanto Barry Jenkins (“Moonlight” e “Se a Rua Beale Falasse”) constrói uma filmografia pautada no poético e simbólico. No entanto, certas coisas precisam ser ditas de forma mais incisiva e expositiva e cabe a Spike Lee assumir essa postura.

Responsável por obras ácidas como “Faça a Coisa Certa”, “A Hora do Show” e “Infiltrado na Klan”, Lee assina a direção de “Destacamento Blood” – longa disponível na Netflix – trazendo a discussão racial para a guerra do Vietnã. A produção mostra um lado pouco visto na historiografia norte-americana: a participação dos soldados afro-americanos no conflito. Estima-se que eles formavam 1/3 do contingente enviado ao país asiático, o que corresponde a uma quantidade proporcionalmente maior do que a população negra dos Estados Unidos. Em outras palavras, eles foram preferencialmente selecionados para servir a uma guerra sem sentido e fracassada.

As estratégias para contar a história

Para discutir esse tema, “Destacamento Blood” acompanha quatro veteranos de guerra que retornam ao Vietnã, depois de 50 anos, em busca dos restos mortais do líder de seu antigo esquadrão, Norman (Chadwick Boseman), e de um tesouro que se perdeu junto com ele. Os primeiros instantes nos situam no contexto a qual a obra se insere, apresentando o posicionamento de ícones da luta antirracista contra o conflito no Vietnã e a política racial norte-americana. Figuras essenciais como Muhammad Ali, Angela Davis, Malcolm X e Martin Luther King são homenageadas e referenciadas.

A partir disso, é possível perceber o viés documental a qual a obra bebe. “Destacamento Blood” é construído como uma mistura de ficção acoplada à brutal realidade da condição social norte-americana, e a estratégia que torna possível esse vislumbre é a montagem flexível e resoluta que consegue mesclar vários elementos de forma compreensível e interessante.  

Nesse processo, destaca-se as referências presentes e que atestam, por um lado, as mudanças decorridas desde o período da Guerra do Vietnã, e, por outro, a reverência aos heróis e irmãos negros. Enquanto vemos um diálogo com filmes que abordam o conflito como “Apocalypse Now” (1979) e “Rambo” (1982), há também menções a personagens apagados pela história, homenageados e imortalizados com a lembrança e inserção de imagens no decorrer da narrativa.

Saltos temporais

A montagem de Adam Gough (“Roma” (2018)), no entanto, também é responsável por nos situar entre os períodos que o roteiro aborda. Por meio de saltos temporais, acompanhamos os ex-soldados no momento atual, em busca do corpo de Norm e do ouro, e em meados dos anos 60, enquanto faziam parte do esquadrão Blood. O trabalho de Gough demarca margens e colorações diferenciadas para situar os variados tempos. A produção opta por não rejuvenescer os atores, seja com um elenco mais jovem ou uso de maquiagem, para distinguir os dois momentos.

Tal escolha dá força ao personagem de Boseman, que tem uma mística em torno de si, tanto por ter partido cedo demais quanto por sua presença marcante a ponto de ser considerado como King e Malcolm do grupo. O diretor de fotografia Newton Thomas Sigel (“Drive”, “Bohemian Rhapsody”) também se destaca ao conseguir tornar cada frame uma obra de arte com cores vivas e explosivas e carrega um simbolismo determinante em cada enquadramento. No entanto, a maior característica de seu trabalho é a diferenciação temporal quando varia da imagem digital para algo semelhante à película.

Sem Nuances

Essa variação é importante para aprofundar o esquadrão, confirmando os traumas deixados pela guerra. Lee apresenta personagens dúbios e complexos. Enquanto afirmam estar fazendo isso pela memória do companheiro de equipe, há sempre no ar um movimento em direção a ganância do tesouro que se perdera com ele. Os conflitos estão presentes em pequenos detalhes, mas as denúncias do cineasta parecem gritar em tela.

O diretor não se preocupa em criar nuances para discutir o racismo: ele o escancara apoiando-se em questões mais profundas como o militarismo e imperialismo. E traz isso, especialmente, no personagem de Paul (Delroy Lindo), eleitor assumido de Trump e usando o boné com o slogan “Make America Great Again” (Faça a América grande de novo). Curiosamente, seu comportamento é problemático e o personagem carrega elementos que denotam o quão prejudicial é a política imperialista dos EUA.

Apesar de todas essas discussões, no entanto, “Destacamento Blood” é um filme sobre traumas de guerra, luto e respeito à memória. Surpreendentemente, ele surge em um momento oportuno em que pode oferecer mais substância ao debate e a luta racial. Afinal, estrategicamente Spike Lee grita em alto e em bom som o quanto a política bélica norte-americana prejudica aos seus e cada frame mostra isso.

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