O que fazer depois do ápice? Este era o dilema da quarta temporada de “Hacks” após o encerramento brilhante do último ano. Ali, a série da HBO atingira o auge com uma reviravolta surgida de forma brilhante nos minutos finais do último capítulo colocando em xeque a parceria entre Deborah Vance (Jean Smart) e Ava Daniels (Hannah Einbinder). Tudo isso justo quando ambas finalmente tinham conseguido o que tanto sonhavam: um talk-show noturno para todos os EUA. 

Diante deste desafio, o novo ano de “Hacks”, a melhor série de comédia da TV/streaming norte-americana dos últimos anos, se mostra hesitante e demora a se encontrar. Os primeiros capítulos desta quarta temporada focam nos atritos entre as duas e aposta no melhor estilo Tom & Jerry com ambas se cutucando de todas as formas possíveis.  

Apesar de ser uma delícia ver o joguinho de trapaça entre personagens tão inteligentes, defendidas por atrizes tão cínicas em cena e com uma sintonia azeitada ao longo do tempo, não deixa de ter uma sensação de que pouco coisa realmente está em risco entre as duas. Deborah pode até tentar tirar Ava a qualquer custo por orgulho, enquanto esta se segura da maneira que dá pela grande oportunidade da carreira, mas, são raros os trechos em que se nota como aquela treta de fato representa algo para além de birra.  

A discussão entre as duas na sessão de fotos mostra como aquele embate poderia escalar, mas, a showrunner Lucia Aniello opta por um caminho mais seguro a ponto de investir na entrada desnecessária de uma profissional da emissora responsável para mediar a relação das protagonistas com uma série de situações bobinhas. 

Se juntas não soam tão interessantes como antes na parte inicial desta temporada, Deborah e Ava encontram sozinhas dilemas mais interessantes, dialogando com perspectivas atuais do showbusiness. A comediante, por exemplo, sente a pressão absurda de ser a primeira mulher no comando de um late show na história da televisão norte-americana com todas as imposições comerciais, editoriais e de padrões, o que a torna esta figura em constante estado de alerta para que nada dê errado.   

De maneira muito sensível e singela, “Hacks” homenageia lendas femininas da cultura pop dos EUA como Carol Burnett para cutucar o feito daquilo que a ficção propõe como transgressora enquanto a realidade se mostra irredutivelmente machista. Para isso funcionar, somente uma atriz da grandeza como Jean Smart simplesmente no auge da carreira. 

Já a mais amada roteirista da televisão/streaming mundial ilustra como certos discursos defendidos como mais inclusivos e humanistas dentro das relações de trabalho, muitas vezes, não passam de discursos. Na busca por criar o melhor ambiente colaborativo e de grande escuta, Ava usa seus post-its coloridos, prepara balões de festinhas de aniversário, saídas para descomprimir, fortalecer elos e amizades. Tudo para quê? Ter um surto, quebrar a cancela do estacionamento e fugir desesperada após mais uma atitude folgada da equipe. 

Sequências à parte como a ida de Deborah a uma boate gay, “Hacks” somente vai ganhar mais força a partir da metade quando Ava e Deborah novamente unem forças para encarar os desafios do programa. Ali, as discussões entre ambas se tornam mais interessantes ao trazer visões opostas sobre quais os rumos da atração – mais intelectualizada para a roteirista, mais popular para a comediante -, reforçando este diálogo da série em trazer um tom crítico e cômico sobre os bastidores da televisão e do mundo dos negócios do entretenimento dos EUA. Mesmo com subtramas dispensáveis como a mãe dançarina e da personagem de Helen Hunt (triste ver uma atriz tão talentosa, ganhadora do Oscar, escanteada desta forma), a reta final cresce ao mostrar a autonomia e o processo artístico sendo subjugados perante os interesses comerciais e os contratos leoninos impostos a quem venda a alma a estúdios e emissoras. 

“Hacks” se empolga tanto com este universo que chega a esquecer os coadjuvantes tão fundamentais para o sucesso da série até aqui. Com Marcus (Carl Clemons-Hopkins) afastado dos negócios, o simpático Damien (Mark Indelicato) consegue breves momentos no início da temporada, mas, depois some. A maravilhosa Kayla (Megan Stalter) e Jimmy (Paul W. Downs, excelente) começam muito bem com a hilária sequência no avião, mas, fica sem função a ponto de criar um interesse do pai dela para que acabe a sociedade com o amigo, algo que, diga-se, fica pelo caminho. 

Verdade que não é a melhor temporada de “Hacks” pelas muitas irregularidades e um roteiro que, por vezes, se mostra incapaz de coordenar tantos focos, mas, ainda assim, compensa estas falhas pela inteligência da sátira ao showbusiness norte-americano e, acima de tudo, os shows anuais de Jean Smart e Hannah Einbinder. Brigando ou em pazes, as duas são a razão de ser da série da HBO. 

Autor

  • Editor-chefe do Cine Set. Exerce o cargo de diretor de programas na TV Ufam. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas com curso de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

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