De Kleber Mendonça Filho a Paul Thomas Anderson, Caio Pimenta traz as previsões iniciais para o Oscar 2026 de Melhor Direção.

POUCAS CHANCES

Abro a turma dos candidatos com poucas chances em Melhor Direção no Oscar 2026 com um gigante de Hollywood. 

James Cameron busca a terceira indicação na categoria após a vitória com “Titanic” e quase ganhar com o primeiro “Avatar”. “Fogo e Cinzas” deve, mais uma vez, mostrar a capacidade impressionante do cineasta em elaborar um universo espetacular do zero e ser brilhante no cinema de ação.  

Ainda assim, uma nova indicação para o Cameron somente se o terceiro capítulo de “Avatar” for uma obra-prima, se tornar a maior bilheteria da história, ou seja, um fenômeno sem precedentes. A tendência é ser esnobado e a Academia deixá-lo em ponto de espera até o último longa da série. 

O Noah Baumbach tenta a primeira indicação para o Oscar de Melhor Direção com “Jay Kelly”. Novamente ele chega em uma temporada para lá de disputada – em 2020 com “História de um Casamento”, o novaiorquino encarou gigantes como Martin Scorsese, Quentin Tarantino e ainda Bong Joon-Ho em estado de glória com “Parasita”. E a concorrência fortíssima neste ano deve escanteá-lo ainda mais por um trabalho que segue não se firmando na corrida ao Oscar. 

Apesar da vitória em Veneza, o Benny Safdie está com poucas chances em Melhor Direção. A passagem pelos festivais da América do Norte até ajudou o Dwayne Johnson para Melhor Ator com bastante elogios, mas “Coração de Lutador” ficou no meio do caminho. Fato confirmado pela estreia nada empolgante nos EUA.  

“Coração de Lutador” passa longe de ser ruim, mas traz um Benny Safdie em uma trilha não muito diferente do convencional. Para piorar, há muito mais expectativa pelo novo filme do irmão dele Josh Safdie, “Marty Supreme”, também distribuído pela A24. 

O Scott Cooper sonha com a vaga que no ano passado ficou com James Mangold. O espaço do diretor de cinebiografia convencional, mas que lança uma produção redonda que agrada aos mais diversos públicos. “Springsteen” pode fazer o repeteco do que ocorreu em “Um Completo Desconhecido”. A questão é fazer isso em uma temporada tão forte com tantos trabalhos autorais e marcantes. Tomara que a Academia não abra este espaço. 

Duas mulheres também aparecem com poucas chances de indicação: a primeira é a Kaouther Ben Hania. O trabalho da tunisiana em “Era uma vez em Gaza” traz como principal mérito apresentar uma tragédia humanitária com tamanha urgência e de maneira comovente. Ainda assim, o fato do longa não ter distribuição até o momento dos EUA joga contra as chances dela. Fora que o possível fim do conflito no Oriente Médio deve fazer o assunto ficar menos em evidência.  

A Mona Fastvold teve uma boa notícia nos últimos dias com a Searchlight Pictures entrando para fazer a distribuição de “The Testament of Ann Lee” nos EUA. Este acordo deve mudar a configuração para o filme e, consequentemente, para ela nas próximas semanas. O desafio maior para ela será a comparação com o Brady Corbet, parceiro dela em “O Brutalista”. Ela corre por fora neste momento, mas tem potencial para crescer.  

CHANCES MÉDIAS

 

O Bradley Cooper e Yorgos Lanthimos abrem o time da turma com chances médias. “Is This Thing On?” sonha com a primeira indicação em Melhor Direção após esnobadas doloridas com “Nasce uma Estrela” e “Maestro”. Mesmo sem chances de ganhar, a presença seria um aceno da Academia de que ele está sendo levado a sério na função.   

A exibição no Festival de Nova York será decisiva para saber melhor como ele se posiciona na temporada. Chega como nome da Searchlight Pictures para a categoria, mas pode ser ameaçado pela Mona Fastvold. 

 

O diretor grego luta pela terceira indicação ao prêmio, mas novamente sabendo que não terá a menor chance de vitória. Cenário que ele conhece ao perder para o Alfonso Cuarón em 2019 e Christopher Nolan em 2024.  

As duas indicações do Lanthimos vieram por filmes de escala grandiosa como “A Favorita” e “Pobres Criaturas”. Neste sentido, “Bugonia” está mais para “Tipos de Gentileza” e “O Lagosta”. Acredito que a maior chance dele de aparecer no Oscar está em Roteiro Adaptado do que aqui. 

 

Premiados na década passada, Guillermo del Toro e Kathryn Bigelow também chegam com chances médias. O mexicano se apoia na excelência técnica de “Frankenstein” para se impor, afinal, o terror da Netflix irá obter muitas indicações nas categorias técnicas. Com isso, o streaming espera conseguir levá-lo junto como o maestro da equipe. 

Kathryn Bigelow 

Já a diretora de “Casa de Dinamite” conta com o prestígio de ser uma das principais cineastas políticas da atualidade no cinema americano, topando encarar temas espinhosos em cada novo projeto. Isso tudo aliando muita ação e suspense capaz de segurar o público até o final.  

Veneza até se encantou com “Casa de Dinamite”, mas Nova York não foi tão generosa assim. A Bigelow já esteve mais forte na temporada e hoje corre mais por fora. Quem sabe o lançamento agora em outubro não dê novo fôlego para ela? 

De qualquer modo, acho muito aberta esta vaga para ser o carro-chefe da Netflix tanto em Melhor Direção como nas demais categorias. Neste momento, acho que o Del Toro e “Frankenstein” estão à frente. 

 

O Kleber Mendonça Filho encerra o time com chances medianas no Oscar. O pernambucano traz como carro-chefe ter vencido a categoria no Festival de Cannes. “O Agente Secreto” representa o trabalho mais ambicioso do cineasta ao trazer uma história importante sobre perseguição política dentro de um panorama ambicioso das relações de poder no Brasil e ainda rendendo homenagens à cultura pop do país e ao cinema de modo geral.  

Com o espaço cada vez mais de diretores de filmes de língua não-inglesa, a presença do Kleber seria mais do que natural. Vejo uma possível indicação se casando com a do Ryusuke Hamaguchi, afinal, o japonês fez um trabalho tão fora da curva em “Drive my Car” que se tornou quase obrigatório naquela lista. E isso mesmo com um projeto que não estaria tão assim no radar da Academia. 

Claro que as digressões do Kleber em “O Agente Secreto” podem afastar aqueles que esperam um cinema narrativo clássico, mas considero que será muito abraçado pela comunidade internacional e setores mais artísticos de Hollywood. Pode crescer muito. 

GRANDES CHANCES

Jafar Panahi e Park Chan-Wook iniciam o time com grandes chances de indicação. O iraniano é um dos raros cineastas a ter conquistado os três principais prêmios dos festivais da Europa, além de simbolizar a luta pela defesa da liberdade de expressão e da paixão pelo cinema mesmo enfrentando o autoritário regime do país. 

 

Já o sul-coreano chega como um dos cineastas mais celebrados da atualidade, mas com um péssimo histórico no Oscar pelas esnobadas de “Oldboy”, “A Criada” e “Decisão de Partir”. “No Other Choice” pode servir para quebrar este histórico com uma história universal sobre o medo da perda do emprego. 

Sucesso nos festivais da América do Norte, ele já teve com o prêmio do público em Toronto. Entre os dois, porém, vejo uma possibilidade maior do Panahi pela longa trajetória e por tudo o que representa.   

Após ser deixado de lado na temporada, o Jon M. Chu quer chegar ao Oscar 2026 com “Wicked: For Good”. O encerramento da história pode representar o momento ideal para indicá-lo, especialmente, pelo desafio de adaptar uma produção que poderia ter dado muito errado pela pressão de levar para as telas um clássico da Broadway. 

Vale lembrar que o Jon. M Chu venceu o Critics Choice de Melhor Direção no ano passado de maneira surpreendente, batendo Sean Baker e Brady Corbet. Óbvio que isso pouco significa de concreto para a atual temporada, mas sinaliza como muita gente em Hollywood e ao redor do planeta tem um carinho grande por “Wicked”.

Seria uma surpresa, mas que pode acontecer se o musical confirmar o sucesso. 

 

Não dá para descartar o Josh Safdie também nesta corrida. Se o irmão caminha pelo rumo mais tradicional em “Coração de Lutador”, ele engata o estilo acelerado de “Bom Comportamento” e “Joias Brutas” ao lado de uma atuação considerada fantástica de Timothée Chalamet em passagem pelo Festival de Nova York.   

Esta última vaga vejo muito apertada entre o Jafar Panahi e o Josh Safdie. Se a Academia considerar que a presença internacional estará contemplada pelo Joachim Trier, abre-se espaço para o Safdie. Agora, se o Oscar estiver mais generoso com quem vem de fora, o iraniano acaba sendo inevitável. 

OS FAVORITOS

Chegou a hora de falar dos quatro candidatos que estão com as vagas garantidas em Melhor Direção. 

 Ryan Coogler e sua celebração da cultura e da história negra nos EUA em “Pecadores” é mais do que garantida em Melhor Direção. Não apenas o maior sucesso comercial entre os principais candidatos ao Oscar 2026, a produção consegue trazer conceitos de afrofuturismo, debater o racismo a partir de um terror sobre vampiros com momentos assustadores.  

Cabe ao Coogler ser quem amarra todas estas pontas e criar um filme sedutor como é “Pecadores”. Dos favoritos, é aquele mais ameaçado, mas acho que a Academia não vai deixá-lo de fora. Até porque pela mensagem que pode passar pelo já problemático histórico da categoria com cineastas negros. 

 

Joachim Trier também me parece nome cravado em Melhor Direção neste Oscar. O norueguês será o candidato internacional com possibilidade de vitória. O elenco pode ser excelente, mas nada seria sem a condução precisa dele.  

Apesar das ótimas recepções a “Thelma” e “A Pior Pessoa do Mundo”, “Valor Sentimental” representa aquele salto na carreira do Trier. Talvez por ser a primeira vez dele no Oscar da categoria, a Academia prefira apenas indicá-lo, deixando para premiar mais adiante. De qualquer forma, chega forte para estar entre os finalistas. 

 

“Hamnet” marca o retorno da Chloé Zhao ao cinema intimista dela após a passagem decepcionante pela Marvel. E como tem sido bem-sucedido: Telluride e Toronto aclamaram totalmente. Igual ocorreu em “Nomadland”, a chinesa assume as funções criativas totais do longa estando também à frente do roteiro e produção executiva, algo admirado pelos pares dela na Academia. 

Fora que a Chloé Zhao poderia ser a primeira mulher a ganhar duas vezes Melhor Direção, um feito histórico próximo dos 100 anos da festa. A grande questão que o Oscar tem uma dívida também pesada batendo na porta. 

 

“Boogie Nights”, “Magnólia”, “Sangue Negro”, “O Mestre”, “Trama Fantasma”… Poucos nomes vivos possuem tamanha filmografia em Hollywood como Paul Thomas Anderson. Mesmo assim, até hoje nunca venceu uma estatueta. “Uma Batalha Após a Outra” chega para corrigir esta injustiça ao trazer o PTA no maior filme da carreira em termos de escala, conseguindo trazer uma trama complexa ao lado de cenas grandiosas de ação.  

Sem dúvida, o Paul Thomas Anderson é o grande favorito a Melhor Direção. Há aquele clima muito favorável para que ele seja consagrado definitivamente. A chave para a categoria, aliás, pode passar pelo prêmio de Roteiro Adaptado: Chloé Zhao pode sair vencedora deste, deixando o caminho aberto para o PTA em Direção. Daí, fica aberta a corrida por Melhor Filme.