AVISO DE GATILHOS.

É assim que começa Quatro Paredes, documentário escrito e dirigido por Shiori Ito, jornalista que foi abusada sexualmente por um jornalista político, um figurão que, por sua vez, era aliado do então Primeiro-Ministro do Japão à época.

Nota do autor: aqui vale um adendo: não acho necessário citá-los nominalmente, por motivos de…

Homens protegem homens. Em uma sociedade patriarcal e castradora, não seria diferente os predadores se protegerem; afinal, tudo gira em torno do poder, sob suas diversas esferas.

Em meio ao trauma, dores, risos e sorrisos amarelos, e muito acolhimento das pessoas próximas, Ito buscou incansavelmente por justiça e tentou reconfigurar o sistema jurídico do país em relação ao abuso físico e psicológico que as mulheres nipônicas sofriam e sofrem ao longo dos anos, com uma lei, até meados de 2017, datada de 110 anos. Ou seja, não é preciso pensar muito para tirar conclusões alarmantes. Como, por exemplo, o fato de que, ainda em 2017, segundo dados colhidos pela própria vítima, apenas 4% dos casos de estupro no Japão haviam sido solucionados.

É doloroso acompanhar a saga de Shiori. Em uma conversa por telefone, no início da projeção, sua irmã demonstra preocupação em mostrar o rosto, pois seria estigmatizada. Bola cantada. A jornalista foi desacreditada, julgada por sua postura, roupa e afins, uma verdadeira tortura psicológica sabiamente documentada por ela mesma desde o início do ato. Inclusive pelo próprio sistema que deveria lhe acolher. O título de seu livro, que também nomeia o documentário, Black Box, resume a fala de um investigador: “(o ato) está em uma caixa preta, então nunca poderemos saber o que aconteceu.” Compreendem o poder (negativo) dessa fala?

Não gosto do termo “cultura do estupro”; prefiro dar nome ao que de fato é: o crime de estupro. Ou outras nomenclaturas. O fato é que a coragem de Shiori Ito, ao exercer seu direito de recorrer à justiça pelo seu corpo, está envolta nessa artimanha patriarcal de dor e manuseio da autoridade de homens cis. Quantas Shiori Ito não foram ouvidas, acolhidas e injustiçadas no passado e ainda são, tanto no Japão quanto ao redor do mundo, até hoje?

Black Box Diaries, do Japão, concorre ao Oscar 2025 de Melhor Documentário.

Autor

  • Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Viciado em cultura e divas pop. Apaixonado por audiovisual (e isso inclui os novelões). Produtor de cinco curtas-metragens, entre eles "Manaus Hot City" e "Meus Pais, Meus Atores Prefiros". Jurado na 5° Edição Olhar do Norte 2023 e Curador do Ecossistema do Audiovisual no Festival Aceita 2024. E contando...!

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