Recentemente, tanto a Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema quanto O Globo lançaram suas respectivas listas de 100 maiores filmes brasileiros. Enquanto isso, penso em Jonathan Rosenbaum — com o perdão do absurdo que é pensar em um gringo numa hora dessas. O crítico estadunidense nutriu uma suspeita vitalícia dos cânones ao longo de sua carreira — a ponto de Roger Ebert, o decano do bom gosto oficial, taxá-lo de “crítico do contra”, contrarian. Rosenbaum, por sua vez, fez bom uso do rótulo em momentos memoráveis, como quando escreveu um obituário para Ingmar Bergman no New York Times intitulado “Cenas de uma Carreira Superestimada”.
Esse “contrarianismo” parece ter como cena de fundação uma classe tomada na universidade, no início dos anos 1960, sobre história do cinema (leia-se: cinema americano). Confuso com a omissão de “Cidadão Kane” no cânone dos grandes filmes, o garoto-prodígio confrontou o professor. A resposta: “Kane” não aderia às boas normas da feitura cinematográfica, não se comportava como um bom filme hollywoodiano deveria. Sendo assim, só impressionava uns poucos pobres coitados que nada entendiam de cinema.
Que, mais ou menos na mesma época, o filme de Welles tenha sido alçado ao topo do ranking da Sight and Sound foi a gota d’água para que Rosenbaum largasse a universidade e se tornasse crítico de cinema. Como se tivesse assim a constatação de que os cânones devem ser sempre refeitos, de que aquilo que omitem revela mais do que os títulos que destacam, e de que é papel da crítica expandir os limites do Grande Livro da Sétima Arte. Vide sua defesa de Elaine May, que, ostracizada após o fracasso da superprodução “Ishtar”, só recentemente passou a ser reabilitada. E vide sua defesa de Orson Welles, em uma época em que o enfant terrible original da Sétima Arte estava longe de ter uma boa reputação nos States.
Em anos recentes, você certamente se lembra, “Cidadão Kane” foi desbancado na lista da Sight and Sound por “Um Corpo que Cai” — que, por sua vez, foi desbancado por “Jeanne Dielman”, clássico feminista da cineasta belga Chantal Akerman. Paul Schrader, aquele eterno ranzinza de opiniões lamentáveis, colocou a surpreendente liderança do filme de Akerman na conta da lacração. Os cínicos e reacionários certamente farão o mesmo com as duas novas listas do nosso cinema. Ambas surgem em um momento de esforço para alçar ao cânone mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+. No caso d’O Globo, há ainda uma tentativa visível de descentralizar o eixo Sul-Sudeste, para além dos títulos clássicos do Cinema Novo sobre o sertão.
São listas com particularidades próprias. Se, em 2015, o top 100 da Abraccine aparecia ranqueado, na lista de 2026 os títulos aparecem em ordem cronológica. Isso é bom e ruim. Bom, porque a ideia de ranquear filmes é sempre absurda — e rende resultados risíveis, como a posição superior, na lista original, dos dois “Tropa de Elite” em relação a “Sem Essa Aranha”, “A Idade da Terra” (que inexplicavelmente ficou de fora da nova seleção) e “O Despertar da Besta”. Mas ruim, por outro lado, justamente porque inibe um pouco as polêmicas que classificações estapafúrdias invariavelmente acarretam — e que são parte da diversão. Afinal, deve-se encarar uma lista como essa com um espírito divertido; do contrário, corremos o risco de cair na rabugice insuportável de Schrader.
Já O Globo está pouco preocupado com esse papo de horizontalidade: temos aqui um ranking à moda antiga, onde certos filmes inquestionavelmente se saem melhores que outros. Por se tratar de um jornal e não de uma associação, a lista é assinada por nomes tão díspares quanto Ruy Gardnier, programador da Cinemateca do MAM, e Carlos Saldanha, simpático diretor de “A Era do Gelo”, passando ainda por Pedro Bial e Marcos Palmeira. De Adanilo, superastro do cinema amazonense, a Selton Mello, superastro de “Anaconda”, é uma tentativa de abarcar do erudito ao popular — mas que também nos leva do credenciado ao questionável.
O espantoso, nessas condições, não é que o resultado seja uma lista repleta de escolhas pouco inspiradas — “Central do Brasil”, o mínimo denominador comum, está na primeira posição, que é para ninguém sair ofendido, enquanto “Tropa de Elite”, aqui tomado como artefato pop incontornável, ocupa a 42a posição. O que surpreende é o frescor de algumas escolhas, como “Oeste Outra Vez” (possivelmente precipitada, mas ainda assim um grande filme) e “Boi Neon” (único longa interessante de Gabriel Mascaro). Já outras são inexplicáveis, como a presença de “Manas”, filme no máximo regular. O tipo de escolha que fornece munição aos Paul Schraders de plantão.
Afinal, ambas as listas estão propondo alterações em um cânone que segue branco e masculino: José Padilha, esse anjo caído do cinema brasileiro, viu não só o seu Capitão Nascimento sair de cena na lista da Abraccine, como também o documentário “Ônibus 174”, número 67 no ranking de 2015. Mais espaço para a chegada de “Também Somos Irmãos”, melodrama de 1949 sobre raça e classe estrelado por Grande Otelo; “A Rainha Diaba”, este também presente na lista de O Globo, com Milton Gonçalves no papel de uma diva do crime; e “Os Homens que Eu Tive”, 1973, escrito e dirigido por uma mulher, Tereza Trautman, que teve o atrevimento de, em plena ditadura, conceber uma protagonista que ousa viver o sonho do amor livre.
Inclusões que se devem, sem dúvidas, ao zeitgeist: “A Rainha Diaba” e “Os Homens que Eu Tive”, por exemplo, foram restaurados recentemente e contaram com diversas exibições Brasil afora. Não apenas estão frescos na memória, portanto, como são dois filmes pioneiros na representação de grupos políticos que têm se afirmado com força no novo milênio. Sobretudo, são dois grandes filmes.
Títulos como “Os Homens que Eu Tive” e “Também Somos Irmãos”, além de “O Ébrio” e “Carnaval Atlântida”, podem dar a entender que a lista da Abraccine está mais preocupada com o valor artístico e histórico do que a popularidade dos filmes. Pode até ser, mas algumas escolhas abrem margem para questionamentos: como explicar, por exemplo, que “O Auto da Compadecida”, outrora posição de número 63 na lista anterior da instituição, siga sendo selecionado? Longe de mim querer questionar a carga afetiva de uma nação inteira, mas alguém em sã consciência consideraria a produção de Guel Arraes, enquanto filme, algo mais do que um retrato da subserviência do cinema à TV nos anos 2000? O argumento não é meu, mas de Inácio Araújo quando do lançamento da minissérie, já recauchutada como longa-metragem, nas salas de cinema. Reclamem com ele.
O mesmo poderia ser dito da inclusão apressada, em ambas as listas, de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”: claro, pode-se gostar dos filmes (não é o meu caso), mas só mesmo o tempo é capaz de dizer o quão essencial para as próximas gerações de cineastas, críticos e espectadores uma obra realmente é. O mesmo tempo que omitiu os filmes de José Padilha da lista da Abraccine.
Se falávamos em “O Agente Secreto”, é preciso notar que Kleber Mendonça Filho se saiu muito bem nas duas publicações. Seu cinema de platitudes políticas e má consciência burguesa aparece, vejam só, três vezes em cada cânone. A Abraccine, por exemplo, foi de “O Som ao Redor” (que já constava antes), “Aquarius” e o supracitado “O Agente Secreto”. É o que você consegue ao se tornar o cineasta contemporâneo mais importante de um país, o suprassumo dos nossos tempos atribulados, com uma obra calculada sob medida para os aplausos dos convertidos e o rebuliço dos ignóbeis de direita. É também um exagero, não?

Glauber Rocha e Kleber Mendonça Filho com 4 filmes na Abraccine: momento favoreceu diretor de “O Agente Secreto”?
Afinal, estamos realmente dizendo que três quartos dos longas lançados por Mendonça Filho são essenciais, o mesmo número de filmes de Glauber Rocha que a Abraccine incluiu na lista revisada (antes eram cinco)? Nesse caso, por que não chutar o balde e incluir logo “Bacurau”? O que o separa dos outros a ponto de justificar sua omissão? E olha que estou longe de ser um defensor de “Bacurau”.
É que, em momentos como o do “tudo ou nada” em KMF, se nota um certo desvario entusiasmado do calor do momento que, embora possa fomentar reparações desejáveis no Grande Livro da Sétima Arte, também expõe a fragilidade dessa mesma empreitada. Aliás, O Globo incluiu “Bacurau” em seu ranking, em detrimento de “Aquarius”, o que menos ajuda a esclarecer a questão e mais aponta para o caráter arbitrário de toda e qualquer lista.
Mas talvez estejamos levando a coisa a sério demais. Listas como essas devem ser tomadas como uma brincadeira, um ato lúdico e muito pouco decisivo, assim como o de dar notas a um filme (coisa que, afinal, fazemos aqui no Cine Set). Porque se suspeitarmos dos valores institucionais e das palavras talhadas em pedra, um cânone deixa de ser um beco sem-saída. Antes, passa a ser, idealmente, uma abertura para que nós, leitores, possamos, assim como Rosenbaum, construir nosso próprio caminho.















