De “Coringa: Delírio a Dois” a “Ainda Estou Aqui”, Caio Pimenta aponta os candidatos que correm por fora e aqueles que podem surpreender na corrida pelo Oscar 2025 de Melhor Filme.
CORRENDO POR FORA
Grandes nomes do cinema mundial estão correndo por fora para buscar uma das vagas de Melhor Filme. A turma que estreou no primeiro semestre, por exemplo, encontra-se em cenário de desvantagem.
Explorando as tensões políticas norte-americanas recentes, “Guerra Civil” teve um bom desempenho nas bilheterias norte-americanas e mundiais e causou muitas divisões entre o público e crítica pela dubiedade moral dos personagens e por optar em marcar território politicamente nem para um lado nem para o outro. Precisaria ser redescoberto ou abraçado pelos críticos para ganhar a preferência na A24, hoje, dedicada a “Sing Sing” e “Queer”.
Falando no Luca Guadagnino, “Rivais” foi um dos poucos filmes do primeiro semestre a ganhar repercussão forte junto ao público e crítico. A tensão sexual aliada a ótimas atuações do trio principal e a energia absurda das cenas de tênis o tornaram uma pequena sensação. Se a Amazon MGM focar em indicações para Montagem e Melhor Atriz para a Zendaya, quem sabe, a produção não cresce para chegar a Melhor Filme.
“Rivais”, aliás, representa um ano em que o cinema se permitiu ousar mais no sexo. “Love Lies Blinding” e “Babygirl” também foram nesta linha. Se não vejo a A24 muito disposta a focar no suspense com a Kristen Stewart até pela estranheza da obra, o terror erótico joga as fichas na força da Nicole Kidman, uma das atrizes mais prestigiadas da indústria e bastante elogiada em Veneza. Porém, considero ambas apostas muito distantes.
As animações também chegam sem muitas esperanças em Melhor Filme: “Divertida Mente 2” pode até ser o fenômeno do ano, mas, dependeria de uma temporada muito muito ruim para chegar tão longe. Não parece ser o caso. Já “Robô Selvagem”, apesar de bastante aguardado no mercado, deve ter o mesmo panorama do sucesso da Pixar.
Uma turma vinda dos festivais europeus não parece que vai sustentar o hype. É o caso de “A Different Man”, bem-recebido em Berlim, mas, hoje apagado na corrida. Em Toronto, “The Fire Inside”, estreia da Rachel Morrison na direção, foi bem-recebido com especial destaque para o Brian Tyree Henry, mas, hoje, corre por fora.
Se “Tipos de Gentileza” parece um filme do Yorgos Lanthimos mais descontraído e menos ambicioso do que “A Favorita” e “Pobres Criaturas”, “A Substância” soa incisivo demais para o padrão médio da Academia. Se filmes de terror bem mais palatáveis não tiveram vez no Oscar, acredito que a obra da Coralie Fargeat siga caminho semelhante.
“The Outrun” joga todas as fichas na Saoirse Ronan: a estrela está na busca do tão almejado Oscar após quatro indicações. O filme é um drama pequeno, bem-recebido em Berlim que pode ganhar uma campanha mais agressiva da Sony Pictures Classics mirando justamente a sua estrela, o que, se der tudo certo, pode alavancar a produção. Hoje, porém, soa improvável.
Diferente do original no Oscar 2020, “Coringa: Delírio a Dois” parece correr por fora nesta temporada ao sair de Veneza com mais críticas negativas do que positivas. Joaquin Phoenix e Lady Gaga até ganharam elogios, mas, não o suficiente para mascarar os problemas do longa. Pode crescer, claro, quando chegar aos cinemas, porém, a tendência é ficar mais nas categorias técnicas e a Warner dando preferência para a outra continuação que tem em mãos.
Para fechar a lista da turma correndo por fora, “Assassino por Acaso”. Para mim, o melhor filme de 2024 até agora. Uma delícia de roteiro inteligente e satírico do Richard Linklater – sempre ele – e uma atuação absolutamente impecável do Glen Powell, o dono de Hollywood neste ano. Capaz da Academia até prestigiar o longa em Melhor Roteiro Original como prêmio de consolação, mas, improvável demais a Netflix colocar as fichas nele – infelizmente.
PODEM SURPREENDER
Hora da turma que pode surpreender em Melhor Filme no Oscar deste ano, chegando um pelotão acima.
“Maria” tem dois principais trunfos: a lendária cantora de ópera retratada na cinebiografia e Angelina Jolie em busca da segunda estatueta da carreira. Por outro lado, o diretor Pablo Larraín, historicamente, até emplaca suas protagonistas no Oscar – casos de Natalie Portman e Kristen Stewart -, mas, não vai além. A recepção do novo filme em Veneza aponta que isso pode se repetir.
“Nightbitch” também traz como trunfo a protagonista, no caso, a Amy Adams. E aqui há todo um clamor pelo Oscar dela, o que pode contribuir para alavancar o filme. Fora que a diretora Marielle Heller está namorada uma indicação na categoria máxima após chegar perto com “Poderia me Perdoar?” e “Um Lindo Dia na Vizinhança”.
A Focus Features promete lançar a nova versão de “Nosferatu” ainda neste ano. O Robert Eggers tenta dar um salto junto à Academia após ver “O Farol” indicado a Fotografia, mas, “O Homem do Norte” ser solenemente ignorado. A produção depende de como vai repercutir no fim do ano. Caso se torne um grande sucesso, pode sonhar com algo maior, mas, a luta mesmo é conseguir espaço com “Conclave” no duelo interno do estúdio.
Três opções aparecem entre os candidatos internacionais: o iraniano naturalizado alemão “The Seed of the Sacred Fig” saiu ovacionado de Cannes com muita gente dizendo que a obra foi injustiçada na Palma de Ouro. A Academia pode prestigiar o longa até como posicionamento político contra o regime do Irã, responsável pela condenação do diretor Mohammad Rasoulof.
O indiano “All We Imagine as Light” é outro da safra de Cannes aprovado pela crítica internacional. E o perfil emocionante que levou muita gente a sair do festival chorando aliado a uma história feminista pode alavancar a produção.
E claro tem o brasileiro “Ainda Estou Aqui”: a conquista x em Veneza, a ótima repercussão junto à imprensa internacional, a possibilidade de ver crescer Walter Salles e Fernanda Torres em suas respectivas corridas tornam possível sim o sonho do país alcançar a categoria máxima do Oscar.
Primeiro “Ainda Estou Aqui” precisa duelar com “The Room Next Door” pela preferência dentro da Sony Pictures Classics. Será complicado porque há a força do Pedro Almodóvar ao lado de duas das mais prestigiadas estrelas do cinema mundial e, agora, com o Leão de Ouro, a tendência é que a atenção toda fiqu com o espanhol. Mas, se sobrar algo, quem sabe o Walter Salles não belisque algo.





















