“Emilia Pérez” pode até ser o filme mais odiado dos últimos tempos nas redes sociais, mas isso não impede que o musical de Jacques Audiard despontem como um dos favoritos para o Oscar 2025.
Os precursores do prêmio da Academia demonstram esse carinho: recordista histórico de indicações ao Globo de Ouro, onde venceu quatro estatuetas, incluindo Melhor Filme de Comédia ou Musical, 10 indicações ao Critics Choice, quatro indicações ao SAG, finalista do Sindicato dos Diretores e líder na longlist do Bafta, aparecendo em 15 oportunidades.
Logo, neste novo vídeo do Cine Set, falo dos seis motivos que podem levar “Emilia Pérez” a se juntar a “Parasita” como os únicos ganhadores de Melhor Filme não falados em inglês.
FATOR 1: FIM DA RESISTÊNCIA À NETFLIX
O primeiro fator que fortalece a chance de vitória de “Emilia Pérez” se deve ao fim da resistência ao streaming.
A Netflix é a distribuidora e responsável por toda a campanha do musical francês. Durante anos, o estúdio sofreu com campanhas fracassadas no Oscar: “Beasts of No Nation” e “Mudbound“, por exemplo, ficaram pelo caminho. Em 2019, o streaming investiu pesado em “Roma“, mas foi surpreendido por “Green Book“.
No ano seguinte, a decepção veio em dose dupla com “História de um Casamento” e, especialmente, “O Irlandês“. “Os Sete de Chicago“, “Mank“, “Não Olhe Para Cima“, “Ataque dos Cães“, “Nada de Novo no Front” e “Maestro“ foram outras derrotadas da plataforma na categoria máxima do Oscar.
Para piorar, neste meio-tempo, a Apple ganhou Melhor Filme com “Coda“, um filme bem menor do que a maioria dos pesados investimentos que a Netflix fez ao longo do tempo com alguns dos principais nomes de Hollywood.
O panorama atual, porém, é bem diferente de seis anos atrás: o streaming se impôs como um dos caminhos para a indústria de forma irreversível, sendo um espaço, inclusive, para grandes diretores conseguirem financiar suas obras, principalmente após o baque da pandemia. Logo, esta barreira que tanto atrapalhou “Roma“, desta vez, não existirá.
FATOR 2: FILME GLOBALIZADO
Se “Parasita” representava o cinema sul-coreano, “Emilia Pérez” traz um suco de globalização: é uma obra financiada na França de um prestigiado diretor francês, ambientada no México com trechos em países europeus e falada em espanhol.
Tudo isso, porém, fazendo acenos para Hollywood ao trazer duas estrelas conhecidas mundialmente – Zoe Saldaña e Selena Gomez – fora a distribuição da Netflix.
Justamente isso pode quebrar a resistência de alas da Academia mais norte-americanas para premiar, em menos de cinco anos, outra obra não falada em inglês.
FATOR 3: CONSIDERADO UM MUSICAL INOVADOR
A divulgação de “Emilia Pérez” de que se trata de um musical inovador e diferente de tudo o que já foi visto também pegou em Hollywood.
O caráter pop da produção, espelhando videoclipes muitas vezes pelos cortes rápidos e o ritmo frenético das coreografias, aliado a abordar temáticas raramente vistas no gênero, como a causa trans e a própria violência, contribui para quebrar resistências de quem não gosta de musicais.
Vale lembrar que a última vez que um musical ganhou o Oscar de Melhor Filme foi com “Chicago“, em 2003. De lá para cá, “Os Miseráveis“, “La La Land” e “Amor Sublime Amor” tentaram, mas não tiveram êxito.
FATOR 4: GRANDE NÚMERO DE INDICAÇÕES
Goste ou não, “Emilia Pérez” deve ser o líder de indicações do Oscar 2025. Hoje, ele está certo em Melhor Filme, Direção, Atriz com Karla Sofia Gascón, Atriz Coadjuvante com Zoe Saldaña, Roteiro Adaptado e Filme Internacional. Ainda vejo possibilidade para Selena Gomez e até Adriana Paz em papéis secundários.
Passando para as categorias técnicas, o musical certamente estará em Montagem, duplamente indicado em Canção Original e Trilha Sonora. São 10 categorias certas – 11 se rolar duas candidatas em coadjuvante – e ainda possibilidade de Direção de Fotografia. Um candidato com tanta presença assim está forte demais na corrida pela vitória.
FATOR 5: CONCORRÊNCIA LONGE DE EMPOLGAR
A concorrência em Melhor Filme não ajuda o cenário a mudar tanto assim. “Anora“ começou a temporada hesitante ao perder o Globo de Ouro para o próprio “Emilia Pérez“. A expectativa é que melhore nos sindicatos, mas, hoje, ainda pairam incertezas sobre até onde a comédia de Sean Baker consegue ir.
Já “Conclave” parece uma saída mais conservadora para a Academia no melhor estilo “Spotlight” e capaz de agradar diversos setores dos votantes, mas, até o momento, não parece ter cativado tanto a indústria para criar uma onda a favor dele. Ganhador do Globo de Ouro, “O Brutalista” é aquele filme ousado tecnicamente que setores mais criativos e dispostos ao risco dentro da indústria abraçam, porém, as quase quatro horas de duração são uma barreira que pode afastar.
Muita gente pode apontar que “Oppenheimer“ venceu em 2024, porém, o filme de Christopher Nolan adotava um ritmo de rolo compressor com uma velocidade absurda no encadeamento dos fatos, bem diferente da proposta de Brady Corbet. Neste sentido, vejo muito mais “O Brutalista” dialogando em velocidade de narrativa com os filmes mais recentes de Martin Scorsese ignorados pela Academia.
FATOR 6: MENSAGEM POLÍTICA
O sexto e último fator pró-Emilia Pérez é que ele pode ser um recado de resistência da indústria do cinema a Donald Trump. Premiar uma obra internacional sobre o México, com a temática trans e liderada por mulheres, pode ser vista como uma maneira da Academia passar uma mensagem de luta contra o conservadorismo e o MAGA do republicano.
AS CRÍTICAS CONTRA O FILME
Agora, é claro que “Emilia Pérez” pode, sim, sofrer com a onda de críticas negativas que se espalha nas redes sociais, cada vez mais eloquente e forte nos últimos dias. Há uma oposição forte ao filme no México por considerá-lo xenófobo e pouco comprometido com causas importantes do país, entre elas, a guerra dos cartéis e os desaparecidos dessa violência.
Também se aponta com muita veemência – e razão – a forma como a questão trans é apresentada, com uma personagem que muda totalmente de personalidade e visão de mundo após a mudança de gênero. Fora críticas ao sotaque e à escolha de atrizes não-mexicanas para interpretarem mexicanas.
Minha grande dúvida é se isso ecoa para fora das redes sociais e se Hollywood e a Academia realmente se importam com isso. Afinal, o cinema americano cansou de estereotipar e passar por cima da cultura e de países ao redor do mundo para impor seus costumes e ideologias – muito do nosso viralatismo cultural, de achar que o cinema brasileiro não presta, aliás, vem disso.
Logo, por que iriam se rebelar agora, justamente contra “Emilia Pérez“? Em meio a tantas discussões que os próprios EUA lidam, estarão eles preocupados com a forma como os mexicanos são retratados no musical?
Sinceramente, não tenho esperança alguma que isso ocorra. Pelo menos, espero que este surto de consciência que muita gente daqui tem com “Emilia Pérez” vá além e sirva para abrir nosso olhar para algo que acontece rotineiramente no cinema, e que ajude a valorizar o que é nosso.

















