“Isso é um julgamento político”. Essa afirmação feita por Abbie Hoffman (Sacha Baran Cohen), e notoriamente ignorada por seus companheiros de defesa nos fornece o tom de “Os Sete de Chicago”, filme de Aaron Sorkin disponível na Netflix. A produção se baseia em um dos julgamentos mais controvertidos e polêmicos da história do dos Estados Unidos.

“Os Sete de Chicago” parte de um acontecimento ocorrido em 1968, quando grupos opositores à Guerra do Vietnã fizeram um protesto em Chicago, onde acontecia a Convenção Nacional Democrata. As coisas saíram do controle e o que era para ser um evento pacífico transformou-se em tumulto e mais um episódio de truculência policial norte-americana. O governo então acusou oito homens, líderes de movimentos sociais, de conspiração. Sorkin, que também assina o roteiro, usa esse evento como mote para seu drama de tribunal.

Aaron Sorkin usa a montagem rápida de Alan Baumgarten (como em “A Grande Jogada”) para nos mergulhar em 1968 e nos fazer entender o contexto histórico e a instabilidade social que decorriam naquele ano. Martin Luther King e Bobby Kennedy haviam sido assassinados, o governo de Lyndon B. Johnson estava abalado por sua postura frente ao fracasso no Vietnã e as eleições presidenciais se aproximavam. Enquanto somos apresentados aos personagens principais, as coberturas jornalísticas desses fatos são sobrepostas e passamos a compreender o que levou cada um a estar presente na manifestação.

Igual fizera em “A Rede Social”, pelo qual venceu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, após encaixar cada peça na história, Sorkin foca no julgamento de tais figuras emblemáticas e retoma, por meio de flashbacks, momentos específicos para compor suas motivações. Tal escolha é importante para o crescimento de “Os Sete de Chicago”, tendo em vista todo drama do tribunal muito bem construída. A fotografia de Phedon Papamichael (“Ford vs Ferrari”, “Nebraska”), alinhada à direção, é precisa em captar troca de olhares, incômodos e a tensão que vai se instaurando aos poucos, e, é neste momento que o elenco estelar ganha espaço para brilhar.

 NARRATIVA FORTE E ATUAL

Richard Schultz (Joseph Gordon-Levitt), promotor do caso, começa sua arguição afirmando que os réus são extremistas, mas, que por participarem de movimentos sociais distintos, usarão isso para ludibriar o júri. No entanto, é justamente essa cosmovisão e posturas divergentes que dão a força necessária tanto para o tribunal como para que o elenco se destaque.

Por um lado, temos os líderes da contracultura – Abbie Hoffman e Jerry Rubin (Jeremy Strong) – que possuem uma postura mais radical, enquanto Tom Hayden (Redmayne um pouco menos caricato) e Rennie Davis (Alex Sharp) assumem um tom mais politicamente correto; a trinca é complementada pela conduta pacifista de David Dellinger (John Carroll Lynch). No entanto quem rouba a cena do lado dos acusados é Bobby Seale (Yahya Abdul-Mateen II), co-fundador do Partido dos Panteras Negras.

Adbul-Mateen II protagoniza um dos momentos mais incômodos do cinema em 2020. Me arrisco a dizer que seja mais forte e aterrorizante do que as cenas racistas de “Lovecraft Country”, pelo menos, em mim, o efeito foi muito mais devastador emocionalmente. O racismo escancarado do juiz (Frank Langella), o tratamento diferenciado dado ao réu e aos Panteras Negras, tudo soa atual e emergente, mesmo que a produção se passe há cinco décadas. Isso evidencia o quanto o sistema penal é falho e não consegue enxergar minorias e nem movimentos sociais.

A narrativa se aproveita da capacidade de seu elenco e das diferenças entre os personagens para arregimentar seu drama. Enquanto drama de tribunal, funciona muito bem, no entanto, perde força conforme as cenas avançam para mostrar o que os levou a estar ali. As motivações, embora comecem bem, nunca ficam muito claras. Hayden e Hoffman, por exemplo, se digladiam o filme inteiro, mas não há um aprofundamento do porquê. O roteiro se prende as frases de efeito e discussões em círculo – como os usos de pronomes possessivos do personagem de Redmayne – e perde por não ampliar as discussões para problemáticas maiores como a truculência policial, representatividade política, as eleições e como a democracia deveria funcionar. Neste sentido, “Os Sete de Chicago” não aproveita todo potencial que tem.  

Compreendo, no entanto, que num ano em que diversas manifestações com cunho político foram feitas nos EUA, mesmo em meio a pandemia, o filme ganha novos contornos e relevância, soando a sua história tão atual quanto o racismo latente do juiz, o preconceito e a opressão. Com atuações impressionantes, principalmente de Sacha Baron Cohen e Yahya Abdul-Mateen II, “Os Sete de Chicago” apresenta uma narrativa forte que traz luz a temas ainda frágeis para a nossa sociedade: o direito a manifestação e a construção da revolução. Não seria isso um indicativo da vulnerabilidade de nossa própria democracia? Deixo para o tempo responder.

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Autor

  • Pâmela Eurídice

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (2018), integrante do Coletivo Elviras de Mulheres na Crítica Cinematográfica. Participou de duas edições do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (2018 e 2020), escreve para o Cine Set e produz conteúdo para internet.

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