A animação da fonte, logo nos segundos iniciais, já nos transporta de volta para um tipo de cafonice ultrapassada há uns vinte anos. Esse é o segundo sinal. O primeiro, é claro, é o próprio título. O jogo verbal de “Lispectorante”, afinal, pertence ao mesmo universo semiótico do infame “menina risonha, que ri e sonha” e outros crimes do tipo. Isso tudo indica que o filme opera numa frequência específica de afetação que apenas as couraças mais duras conseguem suportar — e não por muito tempo.

Não deixa de ser curiosa, também, a presença de Marcélia Cartaxo aqui, se pensarmos que a eterna Macabéa já aparecera em outro projeto construído em torno de Lispector. Agreste, de Paula Gaitán, é daqueles filmes que a gente mais respeita do que realmente curte assistir. Mas, pelo menos, havia algo tentando ser articulado na transposição do universo da escritora para o sertão. Já Lispectorante parece pensar a arte sob os termos mais genéricos possíveis.

Vejamos: Glória (Cartaxo) é artista plástica, de volta a Recife em meio a uma seca criativa. Ela desenvolve uma leve obsessão pela antiga casa de Clarice Lispector, bem como pelas vicissitudes da cidade e seus rios (ao menos, o filme consegue construir um bom senso de lugar). Vemos um trecho de uma vídeo-performance da artista, que não impressiona. Para piorar, Glória se interessa por um artesão hippie que tem a estranha mania de se comunicar por meio de platitudes. Lispectorante parece crer, inexplicavelmente, que essa figura é não só interessante, como profunda. Aí já era.

Porque o difícil em se fazer um filme sobre arte é ter algo interessante a dizer sobre o assunto. Lispectorante pensa o tema sob os termos mais basais, afetados e cheios de frufrus possíveis. “Arte como respiro em meio aos bombardeios cotidianos” está longe de ser um conceito dos mais profundos — mas também não seria impossível fazer um filme interessante a partir disso.

Por exemplo, mesmo que você acuse Dias Perfeitos de exotismo pseudo-zen (e eu, por minha vez, gosto bastante do filme), há de se concordar que é interessante assistir ao corpo de Koji Yakusho performando as minúcias da higienização de um banheiro público. Mas a diretora Renata Pinheiro não consegue extrair nada da presença de Cartaxo — algo que, por mais chato que seja o filme de Gaitán, ela conseguiu fazer.

O que sobra são as afetações bonitinhas, proferidas em meio a uma Recife colorida, e ocasionais incursões por mundos imaginários que não acrescentam muito — além da presença da pobre Grace Passô.