Caio Pimenta analisa os pontos convergentes de ‘Pecadores’ com as maiores viradas do século XXI em Melhor Filme no Oscar.
OSCAR 2005: A VIRADA DE ‘MENINA DE OURO’
A minha virada de jogo favorita do Oscar neste século é da edição de 2005.
Martin Scorsese chegava fortíssimo para finalmente ganhar o primeiro Oscar da carreira com “O Aviador”. Tudo começou bem para a superprodução protagonizada pelo Leonardo Di Caprio ao ganhar o Globo de Ouro de Drama e depois acumular o Sindicato dos Produtores e o Bafta. “Sideways” também mostrou força ao ganhar Melhor Elenco no SAG, o Globo de Ouro de Comédia/Musical e o sindicato dos roteiristas. “Menina de Ouro” ficou apenas com DGA, o sindicato dos diretores dos EUA.
A vitória de Clint Eastwood no DGA somada às conquistas de Hilary Swank em Melhor Atriz e Morgan Freeman no SAG e aos elogios intensos da crítica começaram a virar o jogo para “Menina de Ouro”. “O Aviador”, por outro lado, não se firmou como esperado e foi enfraquecendo na corrida, enquanto “Sideways” se mostrou incapaz de duelar contra os dois gigantes da temporada.
No fim das contas, a Academia fez um grande acerto ao consagrar “Menina de Ouro”, um drama pequeno, mas, poderoso no que atinge.
OSCAR 2006: A VIRADA DE ‘CRASH’
No ano seguinte, o Oscar fez uma das suas maiores bobagens. “O Segredo de Brokeback Mountain” dominou a temporada levando o Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama, o Critics Choice, PGA, DGA, Bafta e ainda o sindicato dos roteiristas entre os adaptados. “Crash” ficou apenas com o WGA entre os originais e, principalmente, Melhor Elenco no SAG.
Foi o suficiente para o drama do Paul Haggis ganhar o Oscar 2006. Ali, o conservadorismo da Academia foi escancarado com um preconceito nítido de evitar consagrar uma obra sobre dois caubóis gays. Entrou para a história como um erro terrível da Academia.
OSCAR 2017: A VIRADA DE ‘MOONLIGHT’
“La La Land” fez uma trajetória impecável em 2017: ganhou o Globo de Ouro de Comédia/Musical, Critics Choice, PGA, DGA e Bafta. “Estrelas Além do Tempo” surpreendeu ficando com o SAG de Melhor Elenco, enquanto “Moonlight” venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama e o sindicato dos roteiristas entre os textos originais.
Com direito a um caótico anúncio, “Moonlight” levou Melhor Filme. Aqui, dois fatores contribuíram para a virada: uma reação da Academia em relação às críticas do #OscarSoWhite de que desvalorizava filmes dirigidos e protagonizados por negros e uma rejeição a “La La Land”, alvo de uma campanha de ataque pesada nas redes sociais a partir do momento em que ficou nítido que era o favorito.
OSCAR 2019: A VIRADA DE ‘GREEN BOOK’
“Roma” era o candidato natural para vencer o Oscar 2019. Isso se consolidou com as conquistas no Critics Choice, DGA e no Bafta. “Bohemian Rhapsody” ficou com o Globo de Ouro de Filme de Drama em uma época que produções de língua não inglesa eram impedidas de concorrer na categoria. “Pantera Negra” surpreendeu ao ganhar o SAG, enquanto “Green Book” levou o Globo de Ouro em Comédia/Musical e o PGA.
No fim das contas, de forma bastante contestada, “Green Book” recebeu o Oscar de Melhor Filme. Ser um filme do streaming, na época um tabu para a Academia, e uma produção de uma língua não-inglesa foram as razões para “Roma” perder na Academia.
OSCAR 2020: A VIRADA DE ‘PARASITA’
O Oscar 2020 foi dos mais equilibrados. Começou com “Era uma Vez em Hollywood” e “1917” conquistando o Globo de Ouro. “O Irlandês” venceu o Critics Choice. Depois só deu o drama de guerra do Sam Mendes: vitórias no PGA, DGA e Bafta. “Parasita”, entretanto, criou o clima de virada a partir do inesquecível prêmio de Melhor Elenco no SAG.
O drama sul-coreano ainda venceu o Sindicato dos Roteiristas entre os originais antes de levar o Oscar de Melhor Filme. Aqui, “Parasita” se beneficiou do caminho quase aberto por “Roma” para produções internacionais. Foi uma forma da Academia ainda demonstrar a transformação que passava após a maior abertura para novos votantes de todo o planeta.
OSCAR 2022: A VIRADA DE ‘CODA’
Em 2022, “Ataque dos Cães” era o amplo favorito e começou firmando isso ao levar o Globo de Ouro de Drama, Critics Choice, DGA e Bafta. “Amor, Sublime Amor” venceu o Globo de Ouro entre as comédias, mas, não foi muito longe. Cenário parecido ao de “Não Olhe Para Cima”, ganhador do sindicato dos roteiristas entre os originais. Já “Coda” começou a virar o jogo com conquistas no WGA de adaptado, PGA e, tal qual “Parasita”, no SAG de Melhor Elenco.
Dois fatores foram importantes para “Coda” conseguir: a edição de 2022 era a primeira após o momento mais grave da pandemia, logo, escolher um filme fofinho, familiar foi uma maneira de desanuviar o clima; a segunda razão foi a narrativa da inclusão com uma obra que trazia intérpretes surdos e tinha a linguagem de sinais como central. Um dos vencedores do Oscar mais anêmicos de todos os tempos.
OSCAR 2026: ‘PECADORES’ CONSEGUE VIRAR O JOGO?
Chegando à temporada deste ano em que uma possibilidade de virada é mais do que provável na reta final.
“Uma Batalha Após a Outra” dominou a corrida rumo ao Oscar: ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme de Comédia/Musical, Critics Choice, DGA, PGA e Bafta. “Hamnet” levou Melhor Filme de Drama no Globo de Ouro, enquanto “Pecadores” ficou apenas com Melhor Elenco no Actors Awards.
A vitória na reta final, entretanto, criou um clima para lá de favorável para o terror do Ryan Coogler. Ainda que o resultado tenha vindo bem na reta final das votações ao Oscar foi o suficiente para abalar o favoritismo de “Uma Batalha Após a Outra”.
“Pecadores” conseguiu gerar o clima de ser o filme do momento que “Parasita” construiu em 2020 após vencer Melhor Elenco do SAG. O clima de adoração ao terror da Warner ficou nítido ao longo de todo Actors Awards, culminando, inclusive, na vitória de Michael B. Jordan.
Aqui, pesa também há ecos de “Moonlight” de um filme desafiando o todo poderoso e até imbatível filme da temporada, trazendo um pano de fundo forte sobre a sociedade negra nos EUA. “Pecadores” busca o impossível para superar o favoritismo de “Uma Batalha Após a Outra” tal qual o drama de Barry Jenkins fez com “La La Land” em 2017.
“Pecadores” ganhar sinalizaria também mais uma etapa da transformação da Academia ao consagrar um filme de terror. Aqui, a temporada pode se inspirar no que houve três anos atrás quando a ficção científica saiu consagrada com a história de multiversos de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”. Um aceno importante, inclusive, ao público, visto que a produção protagonizada pelo Michael B. Jordan foi a maior bilheteria nos EUA entre todos os indicados a Melhor Filme.
Tudo isso não significa que a virada vai acontecer.
“Uma Batalha Após a Outra” chega com muito mais prestígio do que “Crash”, “1917” e “O Aviador”, além de um desempenho melhor nos precursores do que “Ataque dos Cães”. Também não foi alvo de ataques pesados e da desconstrução pela qual “La La Land” passou ao longo da campanha. Diferente de “Moonlight”, “Pecadores” não chega a surfar na mesma onda do #OscarSoWhite, naquele período muito forte. Fora que possui a narrativa de ser a obra capaz de consagrar Paul Thomas Anderson pela primeira vez com o Oscar máximo.
Será, sem dúvida, uma corrida muito complicada e decidida nos mínimos detalhes.


















