O Brasil vive uma excelente fase no cenário cinematográfico mundial. Após vencer no ano passado na categoria Melhor Filme Internacional por Ainda Estou Aqui no Oscar, o país retorna com O Agente Secreto participando da premiação da Academia esse ano com altas chances de vitória.

Porém, nem sempre o Brasil teve toda essa sorte. Foram anos ausente na disputa, desde escolhas equivocadas para representar o país até a ineficiência de entrar nos circuitos de campanhas da temporada, como uma boa distribuidora por trás e rodagem em festivais. Não basta apenas ter um bom filme em mãos; é preciso saber como entrar no jogo da campanha.

Dado esse contexto, segue abaixo filmes que conseguiram fazer história e conseguirem a indicação em melhor filme internacional no Oscar e alguns casos curiosos.

O Caso de ‘Orfeu Negro’

Em 1959, Orfeu Negro foi uma produção ambientada no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, falada em português, com a maioria do elenco brasileira e com uma história na época do Carnaval, festa típica do país. O longa venceu o Oscar em 1960, na categoria de Melhor Filme Internacional (na época chamado de Melhor Filme Estrangeiro). Entretanto, o prêmio não foi para o Brasil, por se tratar de uma produção ítalo-franco-brasileira, em que a principal produtora era a francesa Dispat Films. Desta forma, ‘Orfeu Negro’ foi o representante da França ao invés do Brasil. Não é algo incomum de acontecer, muitos filmes feitos por um país podem ser representados por outro país no Oscar.

O Pagador de Promessas (1962)

A primeira indicação no Brasil não demorou muito após Orfeu Negro. Primeira e única produção nacional a vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes, O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, também conseguiu uma indicação ao Oscar na categoria Melhor Filme Internacional. Entretanto, o filme perdeu para o francês Sempre aos Domingos. Com roteiro de Dias Gomes, a história trazia temas como fé, intolerância religiosa, conflitos sociais, o sensacionalismo da imprensa e política.

A desclassificação de ‘Pixote’ (1980) e ‘O Beijo da Mulher Aranha’ (1985)

Pixote – A Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco, teve uma excelente recepção do público e da crítica nos Estados Unidos. As expectativas para o Oscar eram grandes, até com a possibilidade de reconhecimento para Marília Pêra na cerimônia. Entretanto, apesar de ser o representante no Brasil, a Academia desclassificou o filme da premiação por não estar de acordo com as regras de elegibilidade. Apesar disso, anos depois, Hector Babenco conseguiu emplacar com O Beijo da Mulher Aranha, de 1985, em quatro categorias, incluindo Melhor Filme. Em um caso similar a Orfeu Negro, a produção estrelada por William Hurt e Sonia Brasil não pode concorrer a Filme Internacional pelo Brasil por ser américo-brasileira.

O Quatrilho (1995)

Nos anos 1990, o Brasil finalmente retornou ao Oscar com o longa O Quatrilho, de Fábio Barreto. Infelizmente, o filme perdeu para o holandês Antonia. Ambientada no século XX, a produção carregava temas como moral e julgamento social, a realidade dos imigrantes italianos no Brasil e desejo carnal.

O Que É Isso, Companheiro? (1997)

Dois anos depois, o Brasil novamente conseguiu o êxito de ficar entre os cinco finalistas dentre 44 longas selecionados com O Que É Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto. Entretanto, mais uma vez a Holanda atrapalhou os planos com o drama Karakter, vencedor daquele ano. O drama político mergulha no período da Ditadura Militar ao trazer o caso real do sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, por jovens da luta armada do país.

Central do Brasil (1998)

No ano seguinte, o Brasil marcou presença com Central do Brasil, de Walter Salles, protagonizado por Fernanda Montenegro. Com a vitória no Globo de Ouro e a indicação da Fernanda a Melhor Atriz parecia que o momento havia chegado. Mas, o filme não foi páreo para o italiano A Vida é Bela, enquanto Gwyneth Paltrow, de Shakespeare Apaixonado, tirou a esperança de ver nossa gigante subir ao palco. Mais uma vez, a obra escancara a desigualdade social do país e também uma história intimista sobre solidão e identidade.

O esnobe e as indicações históricas de Cidade de Deus (2002)

O caso de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, é bem particular. Quando o Brasil selecionou o longa para representá-lo no Oscar de 2003 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, nas fases iniciais de escolha e de exibição, diversos votantes repudiaram o filme pelo seu alto teor de violência, dando as notas mínimas e muitos até deixaram a exibição pela metade. Isso impossibilitou a produção de avançar na corrida, sendo esnobado em uma categoria em que poderia se tornar favorito. No entanto, no ano seguinte, o filme estava elegível para concorrer em outras categorias e conseguiu quatro indicações importantes: Melhor Direção, Melhor Montagem, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia. Em todas elas, foi derrotado por O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, recordista daquela temporada com 11 prêmios.

Bateu na trave: O Ano que meus Pais saíram de Férias (2006)

Por muito pouco, o Brasil não figura entre os cinco finalistas de filme internacional em 2008. O Ano que meus Pais saíram de Férias, de Cao Hamburguer, ficou na shortlist, com nove filmes selecionados. Diferente de O Que É Isso, Companheiro?, a obra aborda sobre a infância do personagem principal dentro da Ditadura Militar e da sua conexão pessoal com o futebol.

O Ano em que tudo mudou: Ainda estou aqui (2024)

Depois de longos 26 anos sem aparecer no Oscar, o Brasil voltou em grande estilo. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, começou a ganha boa recepção nos festivais. A Sony Classics comprou os direitos de distribuição do filme e iniciou uma campanha não só para Filme Internacional, como Melhor Atriz para Fernanda Torres. O Globo de Ouro foi o primeiro pontapé da caminhada, com a vitória na categoria de atriz de drama. Quando as indicações vieram, o filme não só conseguiu as indicações em Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz bem como surpreendeu com a indicação em Melhor Filme, adquirindo um feito histórico para o país. Embora Emilia Perez fosse o franco favorito da temporada, as declarações polêmicas de Karla Sofia Gascón minaram a força do filme, permitindo que o longa nacional, aos quarenta e cinco do segundo tempo, venceu a categoria de Melhor Filme Internacional, se tornando o primeiro filme brasileiro vencedor da categoria. Também situado na Ditadura Militar, o longa é uma jornada pelo luto e justiça sob a perspectiva de uma esposa e mãe.

O Agente Secreto (2025)

Após a vitória de Ainda Estou Aqui, o Brasil chegou à nova temporada com outra forte aposta: “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. O filme ganhou grande visibilidade no Festival de Cannes, onde venceu os prêmios de Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Direção. A distribuidora Neon — responsável por campanhas vencedoras do Oscar como Anora e Parasita — adquiriu o longa, além de outros títulos destacados do festival, como Foi Apenas um Acidente e Valor Sentimental.

Embora Valor Sentimental, candidato da Noruega, aparecesse inicialmente como favorito, a perda de prêmios importantes na temporada, como Globo de Ouro e Critics Choice Awards, abriu espaço para o crescimento de O Agente Secreto, que também foi muito bem recebido pela indústria.

Quando as indicações ao Oscar foram anunciadas, o filme conquistou quatro nomeações: Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura), Melhor Direção de Elenco e Melhor Filme. Com isso, igualou o recorde brasileiro de indicações de Cidade de Deus e marcou um feito histórico: o Brasil tornou-se o primeiro país a ter filmes internacionais indicados consecutivamente a Melhor Filme. Agora resta a pergunta: O Agente Secreto conseguirá mais uma vitória para o país? A resposta virá neste domingo.

E o futuro após dois anos mágicos?

As conquistas recentes do Brasil no Oscar refletem a alta do cinema nacional, bem como o país aprendeu a jogar o jogo da temporada de prêmios. Durante muito tempo, o Brasil tinha um pensamento pequeno de não se importar com o Oscar. A própria Academia Brasileira de Cinema não se preocupava com isso, selecionando os filmes sem fazer uma campanha efetiva ou um planejamento para que o longa pudesse chegar para consideração. Tanto Ainda Estou Aqui como O Agente Secreto mostraram a importância desses elementos e deixam a lição que para conseguir êxito no Oscar é necessário entender e participar de toda a mecânica. Obviamente que nem sempre ela funciona, todavia, o país tem todas as condições de trilhar um novo caminho, permitindo que mais filmes nacionais sejam reconhecidos no futuro.