Depois de duas edições históricas, será que o Brasil novamente chega ao Oscar? A situação é complicada, mas a esperança é a última que morre. Neste novo vídeo do Cine Set, eu trago quais filmes e diretores podem aparecer na festa da Academia. 

‘JOSEPHINE’: BETH DE ARAÚJO FORTE NA TEMPORADA

Antes de falar dos filmes, tem diretores brasileiros com perspectivas boas de chegarem ao Oscar com seus trabalhos no cinema americano. A primeira delas é a Beth de Araújo. 

Nascida em São Francisco, Beth tem dupla cidadania pelo fato do pai dela ser brasileiro, natural de Goiânia. No início de 2026, ela lançou “Josephine” no Festival de Sundance, onde venceu o Grande Prêmio do Júri e do público.  

Protagonizado pelo Channing Tatum e Gemma Chan, o drama acompanha uma garota de 8 anos traumatizada após testemunhar um crime. Os adultos tentam, mas não conseguem consolá-la. 

Desde a passagem altamente elogiada em Sundance, Beth vem sendo apontada com uma candidata potencial para a disputa de Melhor Filme, Direção e Roteiro Original. “Josephine” terá distribuição nos EUA da Sumerian Pictures, empresa de pequeno porte, mas que venceu uma competição milionária pelos direitos da obra. 

Certamente “Josephine” será reposicionada para a temporada durante os festivais do segundo semestre como Toronto e Telluride para ganhar tração. Corre por fora, mas tem potencial para crescer. 

‘HERE COMES THE FLOOD’: MEIRELLES DE VOLTA AO OSCAR?

Fernando Meirelles

Indicado ao Oscar por “Cidade de Deus”, o Fernando Meirelles quer voltar à festa com “Here Comes the Flood”. O suspense conta a história de um assalto pouco convencional envolvendo um segurança de banco, um caixa e um ladrão experiente que se metem num jogo mortal de golpes e traições. 

O elenco é o mais estrelado da carreira de Meirelles nos EUA: Denzel Washington, Robert Pattinson e Daisy Edgar-Jones são os líderes do filme. A Netflix distribui o filme previsto para estrear na plataforma até o fim do ano.  

O Fernando Meirelles é um diretor que a Academia prestigia frequentemente: além das indicações surpreendentes de “Cidade de Deus”, “O Jardineiro Fiel” rendeu uma estatueta para Rachel Weisz, enquanto “Dois Papas” por pouco não chegou a Melhor Filme. Se “Here Comes the Flood” corresponder às expectativas, vejo enormes chances para o brasileiro. 

‘FEITO PIPA’: A HORA DE DEBERTON?

Hora de falar daqueles que podem ser os candidatos brasileiros. O ponto mais delicado para todos eles mirando o Oscar é que dificilmente alguma destas produções emplacar presença nos principais festivais do segundo semestre, fator fundamental para visibilidade destas obras. Somando este aspecto com a ausência do cinema do Brasil na disputa principal da Berlinale e do Cannes, cria-se um cenário bastante complicado. 

“Feito Pipa” chega com as maiores credenciais até o momento. Dirigido pelo Allan Deberton, a obra recebeu dois prêmios na mostra Generation Kplus de Berlim. 

O drama traz a história de um menino de 11 anos que sonha em ser jogador de futebol, mas enfrenta preconceito por sua personalidade delicada. Morando com a avó doente, ele tenta protegê-la a todo custo para não ter que ir morar com o pai intolerante. 

Allan Deberton ficou próximo da vaga brasileira com “Pacarrete” e traz uma consistência na carreira muito forte, capaz de entregar ótimos filmes sempre em diálogo com o grande público. Escolher “Feito Pipa” pode ser uma forma de prestigiar o diretor e roteirista a partir de temas conhecidos da Academia como o recém-indicado “Close”. 

‘GENI E O ZEPELLIM’: MUYLAERT E AMAZÔNIA

Adaptação da canção clássica de Chico Buarque, “Geni e o Zepellim” é um dos filmes mais aguardados do cinema brasileiro em 2026. A produção gravada em Cruzeiro do Sul, interior do Acre, traz a história de uma garota de programa em uma região invadida por militares. O comandante da tropa, porém, se apaixona por ela, abrindo espaço para a possibilidade de uma revolução. 

Já faz cinco anos que o Brasil não envia uma produção dirigida por uma mulher – a última vez foi com a Bárbara Paz por “Babenco”. Para além deste fator, há o prestígio de Anna Muylaert, um dos nomes mais prolíficos do cinema nacional, o desafio de gravar uma obra deste porte no meio da Floresta Amazônica.  

Se “Geni e o Zepellim” conseguir espaço em Veneza, Toronto ou Telluride, torna-se um forte candidato, talvez, até o favorito, para a vaga brasileira. 

‘ESCOLA SEM MUROS’: REPETE ‘MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS’?

O Cao Hamburguer sabe muito bem a experiência de quase chegar ao Oscar: em 2009, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” ficou na shortlist de Melhor Filme Internacional. Para esta temporada, o diretor aposta em “Escola sem Muros”.  

O drama traz a história real de um educador na região de Heliópolis, em São Paulo, responsável por transformar uma escola de uma área apontada como marginalizada e associada à violência. Júlio Andrade é o protagonista de um elenco que ainda conta com Flávio Bauraqui e Larissa Bocchino. 

Tempos atrás, este mote seria daqueles ideais abraçados pela Academia regularmente nos filmes internacionais. Com as mudanças da entidade em que se valoriza mais o cinema de autor vindo dos grandes festivais, “Escola sem Muros” pode ter mais dificuldades, mas é um candidato sério pela vaga brasileira. 

‘LEILA E A NOITE’: O MAIS INTERNACIONAL CANDIDATO BRASILEIRO

“Leila e a Noite” seria uma aposta mais internacional do cinema brasileiro para o Oscar 2027. Dirigido por Felipe Barbosa, o drama acompanha o luto de uma família por diversos pontos de vista após a morte da fotógrafa franco-marroquina Leila Alaoui, aos 33 anos, durante um atentado na África. 

Coprodução do Brasil com a França e o Marrocos, o filme teve as filmagens realizadas no país africano. Vindos do sucesso de “O Agente Secreto”, o casal Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux são os produtores do projeto. 

‘VICENTINA PEDE DESCULPAS’: FILMES DE PLÁSTICO + NETFLIX

Fernando Meirelles não será o único diretor brasileiro em parceria com a Netflix. Gabriel Martins, de “Marte Um”, lança “Vicentina Pede Desculpas” neste ano no streaming. O filme acompanha a personagem-título, uma mulher de 75 anos que precisa lidar com a morte do filho após ele causar uma tragédia ao perder o controle do ônibus que dirigia e cair de um viaduto.  

Rejane Faria é a protagonista do drama que ainda conta com Maíra Azevedo e a maravilhosa Grace Passô. Antes de mais nada, muito bonito ver a Filmes de Plástico, a produtora independente mais importante do cinema brasileiro nas últimas décadas, conseguir fechar uma parceria com uma gigante mundial como a Netflix. Não que eles precisassem disso para provar valor (os filmes dizem isso por si só), mas mostra o tamanho do prestígio mundial e nacionalmente alcançado fora do eixo Rio-São Paulo. 

Para o Oscar, “Vicentina Pede Desculpas” terá pela frente o mesmo desafio de “O Filho de Mil Homens”: por mais elogiado que fosse o drama do Daniel Rezende, o lançamento direto no streaming feito depois da seletiva brasileira, diminui o hype e as discussões em torno dele. Claro que desta vez não haverá um gigante como “O Agente Secreto” na competição, mas não passar nos cinemas pode complicar para Gabriel Martins. 

‘NO JARDIM DO OGRO’: ALICE BRAGA É O PRINCIPAL ATIVO

Alice Braga é um dos nomes brasileiros mais fortes em Hollywood e pode ajudar a impulsionar “No Jardim do Ogro”. O novo filme de Carolina Jabor, de “Boa Sorte” e “Aos Teus Olhos”, traz a história de uma jornalista em São Paulo com uma compulsão sexual por situações de risco. 

Original Globoplay, o projeto é a adaptação do primeiro best-seller da carreira de Leila Slimani, autora franco-marroquina e jurada do último Festival de Cannes. Estas credenciais internacionais ajudam, sem dúvida, mas é preciso ver qual será a proposta do filme: um longa com ambições de prêmios ou um suspense polêmico para chamar a atenção no streaming.  

Pode ser os dois, claro, mas sinto que está mais para a segunda opção. 

‘CORRIDA DOS BICHOS’: A SUPERPRODUÇÃO

“Corrida dos Bichos” chega com status de superprodução. Dirigido por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, o longa foi exibido em março no festival South by Southwest. A história se passa em um Rio de Janeiro distópico e aborda o jogo do bicho. 

O elenco é repleto de estrelas como Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Grazi Massafera, Silvero Pereira e Anitta. 

Apesar de tudo isso, não boto muita fé em “Corrida dos Bichos” chegando forte na seletiva brasileira muito menos indo longe no Oscar. 

‘100 DIAS’: CARLOS SALDANHA CHAMA ATENÇÃO DE HOLLYWOOD?

Por fim, “100 Dias” quer se a prova definitiva de que Carlos Saldanha pode mandar muito bem para além das animações.

No drama, acompanhamos a viagem de Amyr Klink, que se tornou a primeira pessoa a cruzar o Atlântico Sul em um barco a remo, aos 29 anos de idade. 

Aquilo que falei para “Escola sem Muros” vale também para “100 Dias”: em uma época diferente do Oscar, este tipo de filme teria espaço fácil.

Atualmente, obras como essas tem menos espaço e, quando acontece, são mais da Europa. Ainda assim, vale ficar de olho porque tem boas chances na seletiva brasileira.