Caricatural. Essa é a palavra característica que podemos associar a algumas interpretações que, de tão semelhantes, não conseguiríamos distinguir os personagens de um filme para outro se não fosse pelas roupas e/ou roteiro. Antes de entrar na crítica propriamente dita do péssimo Pinóquio (2019), gostaríamos de expor alguns exemplos do que estamos querendo dizer. Deixando de lado o legado e toda a contribuição dada ao cinema, além dos escândalos em torno do ator recentemente, vejamos Johnny Depp. Haveria diferença entre os papéis de Jack Sparrow na série “Piratas do Caribe” (2003, 2006, 2007, 2011 e 2017), o Chapeleiro Maluco (“Alice no País das Maravilhas”, 2010, “Alice Através do Espelho”, 2016) e Willy Wonka de “A Fantástica Fábrica de Chocolates” (2005)? Adam Sandler e Ben Stiller são outros exemplos de atores que fazem praticamente o mesmo papel – as comédias “pastelão”. 

Um dos fatores que mais nos chamou a atenção na versão mais recente de Pinóquio, dirigida pelo italiano Mateo Garrone, foi justamente essa forma caricatural pela qual Roberto Benigni constrói seus personagens. Nessa nova produção, vemos Benigni em um papel que claramente nos faz lembrar de sua atuação em “A Vida é Bela” (1998), com os mesmos trejeitos e modo de falar. O Pinóquio dirigido por ele em 2003 já apresentava esses elementos peculiares e havia ganhado também o Framboesa de Ouro de Pior Ator (para ele mesmo). Além disso, foi indicado nas seguintes categorias: Pior Filme, Pior Diretor, Pior Remake ou Sequência, Pior Dupla (Roberto Benigni e Nicoletta Braschi) e Pior Roteiro. Ao nosso ver, isso já seria um ótimo sinal para que futuras versões do filme pudessem ser deixadas de lado – pelo menos sem a participação de Benigni. 

Garrone apostou em uma versão live-action mais sombria da história original de Carlo Collodi, que escreveu o livro homônimo em 1883. A cinematografia de Nicolaj Brüel é o único destaque do filme em nossa opinião, por mostrar as belas paisagens do interior da Itália. Tendo em vista a grande variedade de efeitos especiais disponíveis atualmente na indústria cinematográfica, Garrone poderia ter utilizado melhor dessa ferramenta para fazer um filme menos medonho e com um aspecto de “baixo orçamento”. A maquiagem dos personagens chega a assustar – pelos motivos errados -, dando aos mesmos uma aparência grotesca e até mesmo pavorosa (para um filme que tecnicamente é destinado mais ao público infantil). Chega a dar um certo nervoso em ver o rosto do grilo e do próprio Pinóquio, que tem o rosto de madeira, mas os olhos e boca humanos. 

AS FRUSTRAÇÕES DA EXPECTATIVA

Os aspectos psicológicos, contudo, não deixam de ser profundos e relevantes. A associação da tentativa de preenchimento do vazio existencial por parte de Geppetto é inevitável. O senhor entalhador e de bom coração projeta na construção de Pinóquio o anseio de uma vida mais completa e menos solitária. A psicanálise, idealizada por Sigmund Freud no final do século XIX/início do século XX, contribui muito teoricamente nos dizendo que a tal parte (ou seriam várias?) que nos falta nunca será completa. O vazio faz parte do nosso ser e com ele devemos aprender a conviver até o fim de nossas vidas. A ideia de que outra pessoa pode completar esta falta, já que ela não é da ordem do concreto, é e sempre será frustrada. Como já diria um amigo, expectativa é igual à frustração ao quadrado mais raiva. 

Criado por um ser humano, Pinóquio “ganha” uma das heranças típicas da espécie: a característica de mentir. Ele ainda é punido pelo nariz que cresce a cada mentira contada. É, no mínimo, curioso destacar os inúmeros textos sobre a mentira em sites de busca. A maioria a coloca como algo inadequado, errado, associada ainda às pessoas que mentem como frias, calculistas e manipuladoras. É como se a mentira não fizesse parte intrínsica e diariamente da vida de todos os seres humanos! De acordo com um estudo da Universidade de Massachussets, mentimos, em média, uma vez a cada dez minutos de conversa. Caso fôssemos punidos por isso ou por outra característica do humano, não haveria espaço no mundo para tantos narizes enormes e que não parariam de crescer.  

FORA DE TOM

Pinóquio tem uma natureza exploradora. Mesmo com todo amor recebido de seu criador, Geppetto, ele o desobedece com frequência para ir em busca das suas próprias ambições e interesses, de forma leviana, além de colocar sua vida e a das pessoas que o cerca em constante risco. O garoto é mimado e mal-educado, por assim dizer. Nessa versão adulta (e medíocre), essas características são mais visíveis do que no desenho original de 1940, onde o simpático bonequinho de madeira que ganha vida conquistou a todos.

Sem querer ir longe demais, pode-se considerar a fada azul representada pelos nossos desejos (aqueles que conseguimos realizar) e, o grilo falante, como nossa consciência. Esta é sempre muito ligada à razão, no caso do filme, como se as escolhas feitas pela razão, como vemos no imaginário popular, fossem as melhores. Na verdade, razão e/ou emoção são guias para nossas escolhas. Enquanto guias, ora ficaremos satisfeitos ora não. O que se precisa fazer é assumir a difícil tarefa de se responsabilizar pelas consequências das escolhas que fazemos independente do guia que as acompanha, que também é decisão nossa. 

Ouvindo de algumas outras pessoas que também viram ao filme, uma das conclusões que chegamos é que o Pinóquio de 2019 não é um filme para crianças. Cenas como a do boneco enforcado em uma árvore pelos mau-caráteres da estória, a de suas pernas queimadas e ele se arrastando pelo chão e mais adiante se afogando (em forma de burro) com uma pedra amarrada na perna, fizeram várias pessoas saírem do cinema com seus filhos em prantos. É mais um show dos horrores do que um filme de fantasia.

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