“A Máquina Infernal”, curta de estreia do roteirista Francis Vogner Dos Reis, reimagina a falência de uma fábrica do ponto de vista do empregado, trocando o realismo por um clima de puro terror. O filme foi uma das duas produções brasileiras selecionadas para o Festival de Locarno deste ano, figurando na seção internacional da Leopardos do Amanhã – principal mostra competitiva de curtas do evento.

Nele, Sarah (Carol Castanho) começa a trabalhar numa fábrica que já viu dias melhores e cuja atmosfera parece retirada direto de um conto do escritor Stephen King. Um operário morreu recentemente em um acidente, as máquinas fazem barulhos estranhos, a administração jamais é vista, a ameaça de fechamento é constante e mesmo os empregados demitidos continuam a trabalhar na esperança de um acordo trabalhista.

Sarah tenta ao máximo se integrar a esse ambiente insalubre, chegando a começar um romance com o colega Djalma (Glauber Amaral, da série “O Escolhido”), mesmo sem saber se seu contrato será permanente. No entanto, as máquinas rugem e sua aparente sede de sangue desencadeiam uma série de acontecimentos terríveis.

CINEMA DE GÊNERO COM PROPRIEDADE

“A Máquina Infernal” permite a Reis combinar seus interesses em temáticas sociais e cinema de gênero em um todo coerente. Seu roteiro é preciso ao emprestar elementos e roupagem do terror para descrever situações bastantes reais dos parques fabris brasileiros.

Os personagens, ainda que limitados pelas restrições do curta, são verossímeis de tal forma que, quando um pequeno detalhe os leva para um território perturbador, o impacto é incrível. O maior exemplo disso é Djalma – o clássico trabalhador submisso que continua mostrando devoção à fábrica mesmo depois de um acidente de trabalho que lhe custou uma mão, hoje substituída por uma mão mecânica (algo que referencia tanto James Cameron quanto David Cronenberg).

Combinado com a direção de som de Guile Martins e a trilha sonora claustrofóbica de Miguel Caldas, Reis cria um filme cheio de potencial, ainda que desaponte em um final pouco conclusivo. “A Máquina Infernal” pode deixar várias coisas no ar, mas talvez a mais forte delas seja o desejo de conferir o novo projeto do cineasta.

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