No cinema de terror é comum cineastas consagrados darem um pequeno empurrão na carreira de jovens realizadores ao concederem um “selo de qualidade” para estamparem seus nomes em cartazes e trailers dos filmes. Um dos pais do terror social contemporâneo, Jordan Peele já tinha feito isso em 2021 ao validar Nia DaCosta quando produziu A Lenda de Candyman, sequência direta do horror sobrenatural da década de 90. Quatro anos depois, o apadrinhado da vez é Justin Tipping (do desconhecido Kicks), que comanda Goat, o novo horror social da produtora Monkeypaw de Peele.

Nele, acompanhamos Cameron “Cam” Cade (Tyriq Withers, da nova sequência Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado) um jovem promissor quarterback do futebol americano universitário, que depois de sofrer um atentado pessoal, passa a ter a mentoria de Isaiah White (Marlon Wayans, de Todo Mundo em Pânico), considerado o Goat (o Maior de Todos os Tempos) da categoria profissional do esporte. Os problemas surgem, quando a relação entre eles se torna cada vez mais estranha, à medida que Cameron vai morar na casa isolada de White no deserto e começa a presenciar situações estranhas.

Goat tem um início bem promissor: aborda o futebol americano no intuito de criar um horror esportivo, temática inusitada até mesmo para o gênero, e assim, descontruir aquilo que é culturalmente sagrado no esporte como idolatria, superação e perfeccionismo. O roteiro escrito a seis mãos pelo diretor ao lado da dupla Zak Akers e Skip Bronkie esboça, de certa forma, uma crítica interessante a massificação da indústria esportiva americana movida pelo lucro imediatista e pela perfeição.

É nesta contextualização que Justin Tipping utiliza o discurso metafórico característico do horror social de Peele, para retratar o quanto o culto excessivo a obsessão pela grandeza reflete na desumanização por parte dos atletas envolvidos. Goat é de certa forma uma versão masculina de A Substância focada na masculinidade frágil reprodutora da violência e nos sacrifícios físicos/emocionais necessários para alcançar a fama e o sucesso.

Deve-se também valorizar a estética inserida neste primeiro momento, munida por uma atmosfera de mistério que ajuda a “esconder” a trama – o espectador imagina que irá acompanhar um filme motivacional de superação entre mestre e aprendiz e não um de terror – através de imagens sombrias carregadas por uma trilha invasiva para gerar desconforto sobre os fatos apresentados.

Se o trabalho lança a impressão de que esses assuntos serão intercalados de maneira sofisticada pelos elementos clássicos do terror social, Tipping e os roteiristas não conseguem transformar estes aspectos em um material substancial para ele atingir aquilo a que se propõe. Praticamente mira em um terror psicológico existencial, mas erra todas as jogadas ou decisões em que tenta dimensioná-lo, se perdendo nas próprias ambições. 

A própria complexidade entre o que é real e místico na relação entre Cameron e Isaac traz um show de simbologias e alegorias que soam tão vazias dentro das temáticas sugeridas ou que não se aprofundam o suficiente para dizer algo interessante sobre elas. Falta nuances e o argumento quando não se torna redundante, se mostra pretensioso no real senso de estabelecer um peso emocional aos personagens e isso fica evidente na relação parental conflituosa de Cameron na relação dele com o pai e com Isaiah.

O que resta de bom, são as atuações de Marlon Wayans e do jovem Withers, cujos confrontos funcionam bem, mas que, infelizmente, o filme pouco ajuda a potencializar a dinâmica entre os dois.

No fundo, Goat pode até ser plástico nas escolhas visuais, na direção de arte luxuosa e nas imagens que evoca, só que tudo não passa de um verniz que tenta esconder um produto confuso e inconstante naquilo que deseja transmitir sobre suas temáticas. Um filme que é frequentemente ofuscado pela sua falta de substância e que não consegue envolver o público, ou até mesmo assustá-lo suficiente nos momentos mais estranhos.

Autor

  • Danilo Areosa

    Psicológo nas horas formais e cinéfilo compulsivo nas informais. É amante, colecionador e apreciador tanto do Cinema de Arte quanto dos Filmes B e de Horror. Ama Martin Scorsese, François Truffaut, Michael Mann e Alfred Hitchcock da mesma maneira que idolatra “Outsiders” como John Carpenter, George Romero, Dario Argento e Lucio Fulci. Afinal, como dito pelo genial Orson Welles: O Cinema não tem fronteiras, nem limites. É fluxo constante de sonhos.

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