Em La Grazia, Paolo Sorrentino parece operar um movimento de retorno e depuração. Depois de Parthenope, marcado por excessos menos inspirados, o cineasta reencontra aquilo que sempre fez melhor: transformar o cansaço existencial em espetáculo contido, elegante e irônico. Trata-se de uma obra que veste sua melancolia como um terno antigo, talvez fora de moda, mas ainda impecavelmente cortado, e que observa o poder não como máquina de ação, mas como espaço de paralisia, dúvida e solidão.
Ambientado em Roma, coração simbólico da história e da política italiana, o filme acompanha Mariano De Santis, presidente da República em seus últimos meses de mandato. Interpretado por Toni Servillo. Mariano é uma figura de rigidez quase escultórica, admirado publicamente por sua integridade e avesso a qualquer gesto intempestivo. Ex-juiz constitucional, defensor obstinado da letra da lei, ele encarna uma ideia de autoridade que parece já não encontrar lugar no presente. O apelido “Concreto Armado” resume bem essa contradição, solidez por fora, fissuras internas por todos os lados.
Sorrentino constrói o filme como um estudo de personagem radicalmente introspectivo. As grandes tensões não se resolvem em ações, mas em pensamentos que retornam de forma obsessiva. Mariano precisa decidir se sanciona uma lei que legaliza a eutanásia e se concede indulto a dois condenados por assassinato, dilemas que colocam sua fé na racionalidade jurídica em choque com zonas moralmente cinzentas da existência. No entanto, o conflito mais corrosivo não é político, mas íntimo, a lembrança tardia da infidelidade de sua esposa, ocorrida décadas antes, torna-se uma ferida aberta que ironiza toda uma vida dedicada à busca pela verdade factual.
Essa ironia atravessa o filme como um veneno delicado. Sorrentino parece perguntar o que resta de um homem que passou a vida julgando fatos quando o único fato que importa, o amor, escapa à verificação. A possível identidade do amante pouco importa, o que pesa é a consciência de que algumas verdades jamais se revelam, e talvez nem devam. A “graça” do título oscila, então, entre o perdão, a leveza perdida e uma espécie de misericórdia final diante da finitude.
Visualmente, La Grazia se afasta do barroquismo explosivo que marcou outros trabalhos do diretor. A fotografia filtra os excessos cromáticos, aposta em planos mais dilatados e em uma mise-en-scène que privilegia o vazio dos espaços institucionais. O Palácio do Quirinal surge menos como símbolo de poder e mais como mausoléu, onde corredores longos e salões solenes amplificam o isolamento do protagonista. Há momentos de humor absurdo, como a recepção oficial sob chuva torrencial ou o canto coletivo entre veteranos militares, que funcionam como lampejos de humanidade em meio à pompa esvaziada.
Nada disso, contudo, teria o mesmo impacto sem Toni Servillo. Sua atuação sustenta o filme com uma economia expressiva impressionante. Cada silêncio, cada sorriso mínimo ou olhar perdido carrega uma densidade que dispensa explicações. Servillo transforma Mariano em um homem que todos respeitam, mas que não consegue mais se reconhecer. É uma composição que dialoga com personagens anteriores do ator na filmografia de Sorrentino, mas que aqui ganha um tom mais vulnerável, menos cínico e mais cansado, como se o próprio cinema do diretor estivesse refletindo sobre seu envelhecimento.
Ao final, La Grazia talvez não alcance a grandiosidade simbólica que Sorrentino almeja, mas compensa essa ambição com um lirismo sereno e uma honestidade rara. O filme não propõe respostas claras, nem deseja agradar a um público apressado. Em vez disso, convida à contemplação de um mundo que perdeu a capacidade de esperar, perdoar e sonhar. É uma comédia melancólica sobre o fim, de um mandato, de um amor, de uma ideia de Europa, e, ao mesmo tempo, um gesto de resistência poética contra a tirania das certezas.












