Caio Pimenta traz as narrativas e tendências que devem a definir indicados e vencedores do Oscar 2027.

ATENÇÃO ÀS GRANDES BILHETERIAS

No ano em que Hollywood registrou a maior bilheteria de um fim de semana na história nos cinemas dos EUA, a Academia dificilmente irá virar as costas para as superproduções e os filmes populares. Opções, aliás, sobram para escolher. 

A presença de A Odisseia no Oscar 2027 é mais do que certa. O épico de Christopher Nolan chega com potencial tanto de bater o recorde no número de indicações de Pecadores como também deve levar uma série de estatuetas para casa, especialmente, nas categorias técnicas.  

Apesar da vitória recente com Oppenheimer, a soma de desafios tecnológicos, ambição narrativa para transpor uma das maiores histórias da humanidade para os cinemas e orquestrar todo aquele elenco de estrelas coloca Christopher Nolan como candidato natural para vencer Melhor Filme e Direção.  

Devoradores de Estrelas também está forte no páreo. A ficção científica de Phil Lord e Christopher Miller foi uma das grandes surpresas do primeiro semestre, trazendo a irreverência, marca da dupla, ao lado de uma história mais emotiva. Tudo isso com mais uma grande atuação de Ryan Gosling, efeitos visuais e design de produção criativos e belíssimos.  

O grande problema para o filme da Amazon MGM é ficar esquecido em meio a tantas superproduções e à própria corrida da temporada. Não vejo Devoradores de Estrelas chegando com o mesmo hype de Pecadores, ainda que também haja como não o fazer ser esquecido. 

Duna 3 precisa ser uma bomba para não aparecer no Oscar 2027 em posição de destaque. Denis Villeneuve caminha para repetir o feito de Francis Ford Coppola com O Poderoso Chefão e Peter Jackson com O Senhor dos Anéis e ter toda a trilogia indicada a Melhor Filme. Diferente da dupla, porém, será improvável vencer. 

A despedida da franquia protagonizada por Timothée Chalamet ainda deve ganhar um impulso forte pelo lançamento em conjunto com o novo Vingadores. A possibilidade de uma repetição de um Barbenheimer é imensa, ainda que o público base dos dois filmes seja parecido. Com isso, Duna 3 terá um hype para avançar a categorias como Melhor Direção para render a indicação do Denis Villeneuve e talvez ainda buscar algo em atuações. 

Michael aposta na tradição das cinebiografias, tão queridas da Academia, e na nostalgia do Rei do Pop para superar quaisquer resistências pelas omissões do roteiro à história real do cantor. 

Por fim, tem Obsessão: o terror da Focus Features foi uma das sensações do cinema mundial em 2026. As redes sociais devem fazer barulho para a indicação de Inde Navarrette em Melhor Atriz, o que pode ajudar a puxar a produção para Roteiro Original e até Filme. 

Um cenário ideal para a Academia buscar uma audiência e atenção popular para a festa que não vem há muito tempo. 

O SUPER CANDIDATO INTERNACIONAL

O Oscar 2027 traz a maior chance de um filme internacional vencer Melhor Filme desde Parasita. 

A Bola Negra chega com uma força rara para uma produção de língua não-inglesa. Sair de Cannes sem a Palma de Ouro nada afetou o longa espanhol. A aclamação do musical com mais de 20 minutos de aplausos no festival francês apontava que ele era o fenômeno daquela edição, o que levou a Netflix a correr para fechar com o projeto. 

O musical dos Los Javis será a grande aposta do streaming na temporada à frente de Ink, do Danny Boyle, e Saturn Return, do Greg Kwedar. Pode, inclusive, ser uma possibilidade da Academia não concentrar os prêmios em A Odisseia e evitar uma segunda estatueta em tão pequeno intervalo para o Christopher Nolan. 

Vejo A Bola Negra com imensas possibilidades em Melhor Filme, Direção, Ator, Atriz Coadjuvante com Penélope Cruz chegando com chances de vitória, Ator Coadjuvante, Roteiro Adaptado e áreas técnicas. É aquela produção que traz a grandiosidade que Hollywood gosta com uma autoralidade, personalidade e rebeldia rara de serem vistas no cinema americano e ainda uma temática forte da atualidade. Combo perfeito para arrasar na Academia. 

RETORNO DE ESTRELAS E ACERTOS DE CONTAS

As categorias de atuação serão marcadas pelo acerto de contas entre os homens e veteranas de volta na corrida das mulheres. 

Anne Hathaway e Julianne Moore estão no caminho para um retorno triunfal ao Oscar. Ambas estão fora da festa desde quando venceram na década passada, respectivamente, por Os Miseráveis e Para Sempre Alice. 

Se a estrela de The Debut surge como favorita para ganhar em Melhor Atriz, o destaque de A Odisseia tem um dilema: brigar para vencer como coadjuvante ou lutar pela vaga na categoria principal. Tudo aponta para a primeira opção. 

Em Melhor Ator e Ator Coadjuvante, o Oscar pode encontrar espaço para prestigiar estrelas que ou nunca venceram ou jamais foram indicadas.

John Malkovich está longe da premiação desde 1994 quando concorreu por Na Linha de Fogo. A esperança é que chegue na categoria principal masculina por Wild Horse Nine até com possibilidade de vitória. 

Steve Buscemi, sempre esnobado pela Academia, tenta a primeira indicação também pelo longa de Martin McDonagh. 

Paul Giamatti parou no trator Oppenheimer em 2024 quando estava excelente em Os Rejeitados.

Desta vez, ele mira Ator Coadjuvante com The Debut. A imprensa norte-americana o aponta como um dos favoritos para ganhar a estatueta.  

Já A Odisseia pode fazer a Academia resolver três problemas em uma tacada só.

Com um histórico de serviços prestados à indústria desde a década de 1980, John Leguizamo tem tudo para finalmente aparecer no Oscar, enquanto Robert Pattinson mira não apenas coadjuvante como também ator principal com Primetime.

Tudo leva a crer que o incômodo fato nunca ter sido indicado termina nesta temporada.  

Matt Damon até possui uma estatueta como roteirista por Gênio Indomável, mas ainda não conseguiu o mesmo como ator. Foram três indicações sem maiores chances de vitória.

Ser o protagonista do possível grande candidato da temporada, um personagem difícil e conhecido ao longo de séculos junto com este histórico pode fazer o jogo virar a favor dele. 

No meio do caminho, porém, há Tom Cruise: desde que Digger foi anunciado em uma parceria com Alejandro González Iñarritu, duas vezes vencedor de Melhor Direção, enxerga-se a possibilidade de vir o primeiro Oscar da carreira para além do prêmio honorário recebido em 2025. 

Com direito a transformação visual completa e liderar um elenco de gigantes, é possível acreditar em uma vitória do maior nome de Hollywood dos últimos 50 anos. 

E Digger ainda traz o John Goodman: inacreditável pensar que ele nunca foi indicado ao Oscar. Se não vier agora, desiste, amigo. 

CANDIDATOS À DECEPÇÃO

O pior de tudo é que isso pode acontecer. Temporada de premiações sempre tem suas decepções e, se tivesse que apostar, considero duas bem encaminhadas para a vaga. 

A primeira delas é justamente Digger. Se em junho/julho, a imprensa americana colocava a sátira do Tom Cruise como uma candidata certa ao Oscar, o panorama mudou em agosto. A Awards Watch, um dos principais sites do setor, despencou a projeção em relação ao filme. O mesmo aconteceu com o Next Best Picture. 

O Iñarritu já não vive a mesma lua de mel com a Academia da década passada. Bardo, por exemplo, conseguiu apenas uma indicação a Direção de Fotografia, sendo esnobado, inclusive de Filme Internacional. 

Além disso, Digger traz um orçamento na casa dos US$ 125 milhões, logo, se não arrecadar tudo o que se espera após pular o circuito de festivais, pode criar uma imagem negativa em torno dele.  

Claro que sempre há Tom Cruise para salvar, mas vejo um risco de ficar pelo caminho. 

Igual Digger, O Outro Lado das Redes pulou o circuito de festivais para chegar direto aos cinemas. Ser a continuação de um clássico que antecipou o que viria ser a sociedade é um desafio imenso. Material não falta para abordar sobre o tema, mas conseguirá ter a mesma relevância? 

Fora que o Aaron Sorkin pode até ser um roteirista de primeira, um dos melhores do cinema norte-americano, mas como diretor, considero extremamente burocrático. 

Os Sete de Chicago, Apresentando os Ricardos e A Grande Jogada provam isso. O Outro Lado das Redes não aparecer com força na lista dos principais sites dos EUA que acompanham o Oscar dão um indicativo forte de que o suspense não seja tudo isso, símbolo de uma grande desconfiança sobre o filme. 

Tanto para Digger quanto para O Outro Lado das Redes torço para que esteja errado. 

BRASIL COADJUVANTE

Por fim, o Brasil, desta vez, não terá uma presença de destaque no Oscar. Depois de duas temporadas históricas com Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, o nosso cinema terá dificuldades para retornar a Melhor Filme Internacional. 

Neste momento, Feito Pipa, do Allan Deberton, premiado no Festival de Berlim, e Vicentina Pede Desculpas, do Gabriel Martins, surgem como as maiores possibilidades.

O drama da Filme de Plástico tem a possibilidade de já ir direto para Melhor Filme Internacional se vencer Toronto. Com isso, chegaria forte para uma indicação, o que já é um grande feito.

Vencer, por outro lado, não há a menor possibilidade pelo amplo favoritismo de A Bola Negra. 

Ainda assim, a tendência até o momento é o Brasil ficar fora do Oscar 2027.