Caio Pimenta aponta os principais candidatos e suas chances para o Oscar 2027 da disputada categoria de Melhor Ator.

POUCAS CHANCES

Timothée Chalamet se queimou legal na última temporada pelas bobagens e exageros na campanha de “Marty Supreme“. Somado ao fato de duas indicações consecutivas recentes e a atuação dele não ser o maior destaque da série “Duna“, a tendência é que o astro seja esnobado. 

Parece improvável que o Brad Pitt consiga o feito de chegar a Melhor Ator após vencer coadjuvante como Cliff Booth. A produção do David Fincher aparece muito tímida e não deve ser prioridade na temporada da Netflix. O cenário só muda se o filme for uma grande surpresa. 

Vale lembrar que o Al Pacino conseguiu isso nos anos 1970: vivendo Michael Corleone, ele disputou Ator Coadjuvante no primeiro “O Poderoso Chefão” e Ator principal na continuação.  

Robert Aramayo perdeu o timing da indicação para o Oscar. “ I Swear” não estava elegível para a corrida deste ano. A conquista do Bafta em cima de quatro dos cinco indicados a Melhor Ator mostra como ele poderia ter sido um candidato peso-pesado. Mesmo que a Sony Pictures Classic faça uma campanha forte, não soa provável que o britânico supere candidatos de produções deste ano. O máximo que deve alcançar é o Globo de Ouro de Melhor Ator de Drama. 

De todo o elenco principal de “O Convite“, Seth Rogen é aquele que mais parece distante do Oscar. Não que ele esteja mal, muito pelo contrário, mas a sensação de que é apenas uma variação do tipo de personagem que ele sempre faz joga contra. Por outro lado, a comédia da Olivia Wilde cresceu tanto e Rogen é tão querido na indústria que pode beneficiá-lo. Há uma chance de ser surpresa, especialmente levando em consideração o Actors Awards e a possibilidade do longa da A24 ganhar Melhor Elenco. 

“A Terra do Meu Pai” precisa ser muito abraçado pela Academia para ir além de Sandra Huller. Não acredito em uma indicação do Hanns Zischler em Melhor Ator. Já em coadjuvante, há uma possibilidade. 

Com potencial de ser uma das decepções da temporada, “O Outro Lado das Redes” dificilmente deve ajudar o Jeremy Allen White. Será o segundo fracasso consecutivo dele na categoria após ter ficado pelo caminho com “Springsteen“. 

O Mahershala Ali fecha o time dos candidatos a Melhor Ator com poucas chances. Apesar da boa passagem por Toronto, “Your Mother Your Mother Your Mother” chega eclipsado dentro da Amazon MGM Studios por “Devoradores de Estrelas” e “I Play Rocky“. Ainda que o astro traga o prestígio de já possuir duas estatuetas de coadjuvante, será necessário remar bastante para crescer ao longo da temporada. Pode acontecer, mas, parece algo distante no momento. 

CHANCES MÉDIAS

A próxima turma está com chances médias de indicação ao Oscar de Melhor Ator. O primeiro deles está em um dos maiores sucessos de 2026. 

O timbre de voz e a aparência física fazem de Jafaar Jackson uma escolha perfeita para interpretar o Rei do Pop. Conseguir fugir de virar uma mera caricatura e trazer a aura Peter Pan de Michael Jackson aliado à dança, capaz de recriar momentos icônicos da música dos anos 1980, e o apelo popular da cinebiografia fortalecem as chances dele.  

“Michael“, porém, chega mais fraco para a temporada do que filmes recentes do gênero que brilharam na Academia em edições recentes. O fato de ser apenas a primeira parte da história acaba influindo nesta recepção ainda morna para o Oscar 2027.  

Indicado a Melhor Ator por viver Donald Trump em “O Aprendiz“, Sebastian Stan busca retornar à categoria com mais uma figura controversa. Em “Fjord“, ele interpreta o pai de uma família ultraconservadora e acusado de maus tratos aos filhos. Seria uma atuação com grandes possibilidades de indicação, mas a forma divisiva como o ganhador da Palma de Ouro está sendo recebido na América do Norte e a dubiedade com os personagens são trabalhados dificultam a vida do eterno Soldado Invernal. 

Inquietante, transformadora, magnética, provocadora. Estes foram alguns adjetivos para definir a atuação de Andrew Garfield como Sam Altman, CEO da Open AI, em “Artificial“. A passagem elogiada do ator pelo Festival de Nova York o coloca na corrida de Melhor Ator com chances de acontecer a terceira indicação. Se o longa do Luca Guadagnino subir mais na temporada, o astro pode surpreender. 

Falando de surpresa, Jordan Firstman quer ser a principal delas em “Club Kid“. Muito querida por onde passa, a dramédia da A24 pode ganhar espaço ao longo da temporada como aquele tesouro de baixo orçamento a ser descoberto. A grande questão aqui é se o filme terá fôlego para tanto. 

Na minha visão, considero que Firstman tenha mais chance de aparecer em Roteiro Original do que em Melhor Ator. 

GRANDES CHANCES

Chegamos à turma com grandes chances de indicações. Acredito, aliás, que dois deles estarão na lista final do Oscar 2027. 

“I Play Rocky” se credencia como um dos candidatos mais sólidos da temporada pelo carinho do público em revisitar e descobrir os segredos dos bastidores de um clássico do cinema americano. Desta forma, acreditar em Anthony Ippolito em Melhor Ator é mais do que natural. A semelhança física chama a atenção assim como o jeito de falar e os trejeitos físicos de Stallone são impressionantes. Típica atuação que a Academia ama abraçar. 

Com três indicações ao Oscar, Ryan Gosling pode retornar a Melhor Ator após 10 anos. Em “Devoradores de Estrelas“, ele traz o desafio de segurar a ficção científica praticamente sozinho e emocionando o público ao contracenar com uma pedra.  

Apesar de “Devoradores de Estrelas” ser praticamente certo em Melhor Filme, sinto o longa mais enfraquecido nas demais categorias principais. Mesmo sendo um ator querido da Academia e reconhecidamente versátil, Gosling depende mais de uma inconsistência dos seus concorrentes do que das próprias forças para ficar entre os finalistas. 

Robert Pattinson já esteve em um cenário melhor na temporada de premiações: a perspectiva era que ele fosse nome certo na categoria com “Primetime“. A passagem por Veneza, entretanto, diminuiu bastante o hype do suspense e, consequentemente, do astro. 

Por outro lado, Pattinson teve um ano tão forte que a Academia pode evitar passar mais uma temporada sem indicá-lo. O problema para “Primetime” é que o astro possui “A Odisseia” e a chance real de ser aparecer em coadjuvante. Neste momento, o considero em uma curva descendente em Melhor Ator. 

John Turturro aparece na contramão. Nunca indicado ao Oscar até hoje, o veterano encontra a grande chance em décadas de chegar ao prêmio da Academia com “O Último Batedor de Carteiras“. Permanecer forte desde o Festival de Berlim mostra como há um hype em torno do novaiorquino para finalmente ser reconhecido pelos seus pares. 

Indicações de veteranos pela primeira vez ao Oscar já em Melhor Ator são comuns. Basta lembrar os casos de Bill Nighy por “Viver“, Colman Domingo com “Rustin“, Jeffrey Wright em “Ficção Americana” e Antonio Banderas por “Dor e Glória“. Turturro tem grandes chances de se juntar a esta turma. 

Pedro Pascal está na mira do Oscar com “Behemoth“. Se o drama do Tony Gilroy não chegou a ser tão aclamado como se imaginava, o chileno arrancou elogios naquela que a considerada a melhor atuação dele nos cinemas. Para além do carinho da indústria, Pascal ainda traz o combo de ter aprendido a tocar violoncelo, desafio e entrega sempre valorizados pelos seus pares em premiações. 

Nenhum caso nesta temporada de Melhor Ator é mais interessante do que Tom Cruise. O anúncio da parceria dele com Alejandro González Iñarritu gritava por Oscar. Sair da zona de conforto dos filmes de ação, topar fazer uma comédia e se transformar fisicamente para longe da imagem do galã era entregar a estatueta antecipadamente para ele. 

A estreia de “Digger” nos cinemas fez tudo ruir. Críticas negativas e baixa bilheteria tornaram o sonho em pesadelo. Não apenas o Oscar não viria como Tom Cruise, maior astro de Hollywood das últimas décadas, amargava um fracasso épico. 

Mas quando a pessoa tem estrela, tudo pode mudar. Nas últimas semanas, grandes nomes do cinema mundial resolveram abraçar “Digger“. Tudo aquilo que foi criticado passou a ser exaltado como símbolo da coragem que hoje falta em Hollywood. A comédia dramática da Warner Bros se tornou o filme incompreendido da temporada e Tom Cruise novamente se viu exaltado. 

A grande questão do momento é até onde “Digger” consegue ser resgatado. Se esta onda de apoio crescer, Tom Cruise, pelo menos, fica próximo da indicação. Agora, se ele aparecer no Oscar 27 anos após a presença em Ator Coadjuvante por “Magnólia“, por que não aproveitar em consagrá-lo? Por outro lado, se toda esta narrativa não emplacar, o astro corre sério risco de ser esnobado novamente. 

VAGA GARANTIDA

Os próximos três candidatos estão com as vagas garantidas em Melhor Ator. O primeiro deles tem tudo para ser indicado, mas precisa de uma zebra para vencer. 

Matt Damon é um dos maiores astros de Hollywood deste século, mas a única vitória no Oscar foi como roteirista em 1998 com “Gênio Indomável“. Como ator, apenas três indicações, sendo a última delas em 2016 com “Perdido em Marte“. 

“A Odisseia” deve marcar este retorno a partir de um dos personagens mais clássicos da literatura ocidental. Somente este desafio de dar vida a Ulisses e toda a complexidade de um guerreiro em crise com todo seu passado sangrento já são mais do que merecedores da indicação. O pacote fica completo com a entrega física do astro de 56 anos de idade. 

Para sonhar em vencer Melhor Ator, Damon precisa que “A Odisseia” tenha um domínio amplo na temporada semelhante a “Oppenheimer“. Com “A Bola Negra” e “Cavalo Selvagem Nove” dispostos a não entregar o Oscar 2027 tão facilmente, acredito que a situação fica mais complicada. Não será impossível, mas neste momento, acredito ser improvável. 

FAVORITOS

Os festivais de Telluride, Toronto e Londres se renderam a Andrew Scott. Interpretando Ian Charleson e a luta para fazer a adaptação de “Hamlet” no Teatro Nacional de Londres enquanto lidava com o agravamento da Aids, o astro de “Elsinore” traz uma atuação comovente de entrega física e dosando drama e humor. 

“Elsinore” marca uma mudança do Andrew Scott de patamar dentro do cinema mundial, tal qual ocorreu com Michael B. Jordan nesta temporada por “Pecadores”. Homenagear uma figura importante da cultura pop é um filão que a Academia costuma prestigiar: basta lembrar de Rami Malek com “Bohemian Rhapsody” e Jamie Foxx em “Ray”.  

Por fim, a Focus Features pode trabalhar a narrativa de uma vitória do britânico seria a primeira de um intérprete assumidamente homossexual em Melhor Ator, um marco importante para a história da premiação e da diversidade na indústria do cinema. 

Ganhador do Festival de Veneza, John Malkovich mira a inédita conquista. Mesmo sendo um dos maiores atores do cinema mundial da última década, o ator soma apenas duas indicações ao Oscar: em 1985 com “Um Lugar no Coração” e em 1994 com “Na Linha de Fogo“. Ambas em coadjuvante. “Cavalo Selvagem Nove” pode resolver dois problemas em uma tacada só: indicá-lo a Melhor Ator e premiá-lo pela primeira vez.   

Diferente do personagem do Scott, feito para você gostar, torcer e se emocionar pelo protagonista de “Elsinore“, o agente da CIA do John Malkovich é um sujeito com atitudes preconceituosas e em crise existencial após um passado ligado a golpes de Estados em países com regimes democráticos. Este perfil pode ser um entrave para a conquista do astro de “Cavalo Selvagem Nove“. 

Olhando em retrospecto dos anos 2010 para cá, consigo ver um paralelo no máximo com a vitória de Joaquin Phoenix em “Coringa“. Igual em “Cavalo Selvagem Nove“, temos um protagonista de ações condenáveis, mas que chega a nos conquistar por suas falhas e fragilidades. De resto, nada parecido. 

Para quebrar resistências, há John Malkovich e a maior oportunidade de ganhar o Oscar. Não duvido também que o temor de não haver possibilidade melhor no futuro de premiá-lo possa contribuir para jogar a favor dele. 

PREVISÃO INICIAL DOS INDICADOS

  • John Malkovich, por “Cavalo Selvagem Nove” 
  • Andrew Scott, por “Elsinore” 
  • Matt Damon, por “A Odisseia” 
  • John Turturro, por “O Último Batedor de Carteiras” 
  • Anthony Ippolito, por “I Play Rocky