O que é estar no limbo? Em um primeiro momento, podemos pensar que estar no limbo é estar em completo abandono, ostracismo, esquecido, no fundo do poço e sem esperança. A mais recente produção do diretor britânico Ben Sharrock (“Pikadero”) trata desta questão de uma forma bastante peculiar e usando do humor ácido para contar a história de como é ser e estar em um país desconhecido sendo refugiado.

Limbo conta a história de Omar (Amir El-Masry), jovem sírio que se vê obrigado a fugir de sua pátria por conta dos conflitos sociais e políticos. Juntamente com outros refugiados, ele finca morada em uma remota gélida ilha ao sul da Escócia. Seus pais também se refugiam não muito longe da Síria e seu irmão resolve ficar e lutar.

Uma vez instalado em uma espécie de vila, ele divide a casa e tem somente as companhias de Fahard (Vikash Bhai), também vindo da Síria, e os irmãos Wasef (Ola Orebiyi) e Abedi (Kwabena Ansah), africanos. Há ainda dois simpáticos professores que lhes ensinam a compreender e se adaptar à cultura local, Helga e Boris (Sidse Babett-Knudsen e Kenneth Collard, respectivamente).

ABANDONADOS À PRÓPRIA SORTE

A história por si tem um peso muito grande, pois a situação dos refugiados é uma questão de urgência mundial, como estamos vendo no caos do Afeganistão. E há diversas produções que narram toda essa dor, sofrimento e humilhação em sair de sua terra natal, do seu lugar, de suas referências para o desconhecido e perder toda a essência que se tem de si e do seu lar.

Em vez de apostar em um drama, Sharrock faz o inverso: usa do humor ácido e de situação para contar esse lado obscuro de abandono. Há muitas subjetividades em sua narrativa que sofisticam mais ainda o roteiro e “Limbo” como um todo.

Primeiramente a questão de estarem afastados do seio social em uma ilha remota, muito, muito longe da cidade. Nenhum refugiado pode trabalhar, todos ganham um pequeno auxílio somente para alimentação e ainda tem que lidar com a brutalidade dos nativos da região. Para piorar, a resposta do asilo do governo é uma romaria. Demora. Há quem espere por mais de dois anos.

Neste sentido, estar no limbo é ser esquecido, sem importância alguma para aqueles que poderiam auxiliar na ressocialização destes indivíduos na busca de asilo, um novo lar e uma nova perspectiva de vida. Eles realmente se importam?

A MORTE EM VIDA

Os sonhos, entretanto, estes nunca morrem. É o que os mantém vivos. Aqui, não foge à regra. Cada um tem um desejo. Wasef quer ser jogador de futebol, enquanto seu irmão só quer uma vida pacata em um emprego normal para sobreviver. Fahard é um fã de Freddie Mercury e a sua busca é ser ele mesmo, coisa que não aconteceria de forma alguma na Síria. E Omar, bem, ele é uma incógnita que vai se despindo ao longo da película. Ele é um mistério.

Falando em Omar, para todo lugar que vai leva consigo um pesado Alaúde (violão turco). Na Síria, ele era um músico em ascensão como fica claro nas diversas vezes em que vê os vídeos no celular para matar a saudade da sua família. Esse instrumento tem uma grande importância, pois, é com ele que se conecta com seu lugar, sua família, sua cultura e consigo mesmo. Ainda que não consiga mais tocar, o Alaúde faz parte desse homem tão amedrontado, esperançoso, inquieto e solitário. O Alaúde é ele, ambos se completam e só tem um ao outro naqueles dias frios.

Em uma das ligações para seus familiares, o seu pai lhe pergunta se ele está tocando, Omar responde que não. Então ele lhe diz: “um músico que não toca está morto por dentro”. Será que ele realmente estava vivo? Pois não há alegria e entusiasmo em Omar e compreendemos a sua condição.

SURPRESA BEM-VINDA

A riqueza da fotografia fria e a ambientação contemplativa são fundamentais na construção dessa narrativa e da compreensão de quem assiste. Toda aquela dimensão, imensidão representam os sentimentos de solidão, de perda, da espera, do desconhecido. Os enquadramentos enchem os olhos e cada frame é uma obra de arte. A sequência final é de uma beleza ímpar e poética.

Limbo certamente é um dos melhores filmes lançados ano passado, certamente um dos melhores filmes que assisti até agora em 2021. Uma grata surpresa. E a surpresa é sempre bem-vinda quando há um trabalho de qualidade e acima da média como de Ben Sharrock.

Em meio ao caos, a turbulência, a impotência e o desespero de deixar tudo para trás, de perder tudo, não há sensação pior de que uma outra nação não o receba e o deixe quase que entregue à própria sorte. Limbo, sobretudo, é uma metáfora muito bem elaborada sobre a negligência e exclusão que essas pessoas sofrem e a solidão e desespero em busca de sua dignidade perdida.

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Autor

  • Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Viciado em cultura e divas pop. Apaixonado por audiovisual (e isso inclui os novelões). Produtor de cinco curtas-metragens, entre eles "Manaus Hot City" e "Meus Pais, Meus Atores Prefiros". Jurado na 5° Edição Olhar do Norte 2023 e Curador do Ecossistema do Audiovisual no Festival Aceita 2024. E contando...!

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