Matthias e Maxime é uma história de descoberta de amor contada com singeleza e sinceridade, e é também provavelmente a melhor coisa que o jovem cineasta franco-canadense Xavier Dolan poderia fazer a esta altura de sua carreira. Dolan é um nome muito badalado – mesmo com todo o hype em torno dele, numa nota pessoal acho que Dolan realmente fez alguns ótimos filmes, como Eu Matei Minha Mãe (2009), Laurence Anyways (2012) e Mommy (2014). Mas então o hype aparentemente lhe subiu à cabeça, ele fez a bomba É Apenas o Fim do Mundo (2016) – e depois brigou com os críticos que chamaram seu filme de ruim, porque era – e então lançou The Death and Life of John F. Donovan (2018), que passou em brancas nuvens. Seus filmes começaram a ser exibidos em Cannes, ele começou a trabalhar com grandes estrelas como Marion Cotillard e Natalie Portman, e sua carreira ameaçou desandar. Matthias e Maxime é, felizmente, uma correção de curso.

Os dois personagens do título são amigos de infância que estão chegando a um momento importante de suas vidas. Matthias (vivido por Gabriel d’Almeida Freitas) tem uma vida estável profissionalmente, uma namorada e é um cara certinho. Já Maxime (interpretado pelo próprio Dolan) é um sujeito meio perdido na vida, tem uma relação conturbada com a mãe (Anne Dorval, voltando a trabalhar com o diretor/ator) e está prestes a viajar para a Austrália sem ter muita noção sobre como vai viver por lá. Numa noite, durante uma festa, os dois aceitam, mediante uma aposta, participar da filmagem do curta estudantil de uma amiga. Na cena, eles precisam se beijar, e se beijam. A partir daí, os dois rapazes começam a se sentir sacudidos emocionalmente, descobrindo um sentimento entre eles que vai além da mera amizade.

Dolan filma essa história de maneira focada e investindo no naturalismo. Embora ele às vezes até caia nuns exageros estilísticos, Matthias e Maxime é um filme bem sóbrio e dominado pelo naturalismo, tanto nas atuações quanto na estética. Alguns momentos mais dramáticos são filmados com a câmera na mão, mas de modo geral é um filme bastante delicado – um gesto envolvendo a mancha no rosto de Maxime numa cena importante é bem efetivo, justamente por ser pequeno, por não ser exagerado.

RETORNO À ZONA DE CONFORTO

De fato, Dolan investe na introspecção dos seus personagens. Como, por exemplo, quando filma Matthias nadando num lago e se perdendo, ou quando vemos Maxime observando um outdoor com a enorme foto de uma família tradicional. As cenas de confraternização entre os jovens realmente transmitem uma sensação de autenticidade, com a câmera do filme se comportando como uma mosquinha na parede, a espera de um momento de desconforto ou de um conflito fervilhando sob a superfície. Dolan nem mostra o beijo dos personagens no curta-metragem e deixa esse momento-chave da história para a imaginação do espectador.

Embora o cineasta se mostre mais contido, ainda há um floreio ou momento meio exagerado aqui e ali, como uma cena em que Maxime quebra um espelho, mas continuamos vendo seu “reflexo”, ou nas brigas do personagem com a mãe, que no fim das contas não acrescentam muito à narrativa. Mesmo assim, são momentos pontuais numa obra que prima pela singeleza.

Matthias e Maxime é um filme de jovens irrequietos que são surpreendidos e acabam tendo que dar uma parada. De certa forma, o mesmo parece ter ocorrido com o realizador, que entrega aqui sua obra mais madura até agora. É um filme de um jovem maduro, sobre outros jovens, descobrindo algo sobre a vida, e por isso acaba se tornando cativante. É aquele típico filme pequeno que cineastas de vez em quando fazem após alguns grandes projetos, para recarregar as baterias. Pode-se até argumentar, tendo em vista seus primeiros filmes, que para Xavier Dolan, Matthias e Maxime representa um retorno a uma zona de conforto. Mas zonas de conforto não são algo necessariamente ruim, depende de como elas são usadas. Neste filme, Dolan dá um passo para trás, para enxergar mais longe.

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Autor

  • Ivanildo Pereira

    Jornalista, professor de cinema em cursos pelo Cine Set e crítico associado à Abraccine. Começou a escrever sobre cinema após fazer o curso Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, do crítico Pablo Villaça. Literatura, música e cinema são seus maiores interesses.

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