Elton John definiu gerações com suas músicas. Conhecido mundialmente por seu talento, canções pessoais e divertidas, figurinos extravagantes, o cantor inglês parecia ter uma vida perfeita. Mas, claro que esse não era o caso, como sempre ocorre com artistas inseridos na indústria de entretenimento. É a partir destes problemas, ao mesmo tempo, em que explora a fama do artista, que “Rocketman” constrói a narrativa.

Dirigida pelo inglês Dexter Fletcher, esta é mais uma obra que busca recontar a vida de um grande artista do século passado nas telas do cinema, sendo a mais recente “Bohemian Rhapsody”, sobre o vocalista do Queen, Freddie Mercury. E onde o ganhador de quatro Oscars errou e causou polêmicas, “Rocketman” traz, ao menos, uma estrutura narrativa melhor assim como mais honestidade pelo tratamento dado a vida de Elton John.

Se uma das principais razões para as pessoas verem este tipo de filme é escutar, em alto e bom som, as músicas com a voz original, “Rocketman” adota a arriscada escolha de deixar o elenco fazer as próprias interpretações das canções. A decisão se mostra mais do que acertada, pois, permite, a Matthew Illesley e Kit Connor (respectivamente, as versões criança e adolescente do cantor) assim como Taron Egerton na maior parte do longa construam com maior vivacidade, diferente de um lip sync ou montagens enfatizando algum momento com a voz de Elton.

ESPETÁCULO VISUAL

Apostando bastante no uso dos cenários e da fotografia, “Rocketman” se desenvolve na tela remetendo bastante a um espetáculo da Broadway. Os números musicais do filme são alguns dos momentos mais interessantes, já que conseguem embalar as canções com coreografias e jogos de câmera que colocam o espectador no êxtase daquilo que está sendo mostrado.

Em “Crocodile Rock”, por exemplo, Elton John salta no espaço e a plateia também começa a levitar, demonstrando a magia que suas canções exerciam nas pessoas que escutavam. Já na execução de “Pinball Wizard”, o músico aparece tocando em um piano enquanto gira sobre um palco especial e são apresentados diferentes “Elton’s” com roupas diferentes, salientando o ritmo exaustivo de shows.

Para criar alguns desses momentos, “Rocketman” utiliza efeitos especiais que, à primeira vista, não são bons. Porém, casam bem com o estilo do filme combinando com as roupas cafonas que o cantor utilizava em seus shows e seu gosto pelo exagero.

E a montagem do filme também salta aos olhos nos momentos em que Elton sai de um ambiente e vai para outro, seja a partir de cortes ou de planos sequência, e o filme consegue indicar a sensação de “perda de sentido temporal” do cantor, devido ao seu abuso de drogas, bebidas e sua agenda frenética.

ENTRE HONESTIDADE E FALTA DE APROFUNDAMENTO

O primor técnico de “Rocketman” compensa o roteiro sem muita inspiração de Lee Hall (“Victoria e Abdul” e “Cavalo de Guerra”). Enquanto busca apresentar os primeiros passos no caminho da música de Elton, a fórmula é a mesma já vista em diferentes outros projetos, seja eles ficcionais ou não.

Além disso, os próprios personagens pintados como vilões ou heróis, não conseguem receber o aprofundamento necessário para que suas ações tenham algum peso no espectador para que se importe com eles. O agente John Reed (Richard Madden, de “Segurança em Jogo” e “Game of Thrones”), por exemplo, surge apenas para gerar um conflito na vida do cantor, afinal, não há qualquer busca por um desenvolvimento mais humano do personagem.

O sumiço sem explicações de Bernie Taupin (Jamie Bell) e a pressa com que todo relacionamento envolvendo Renate Blauel (Celinde Schoenmaker) são outras pontas soltas difíceis de deixar passar de “Rocketman”. Por outro lado, é notável a honestidade que o filme trabalha assuntos delicados da vida de Elton John.

Óbvio que muita coisa não foi dita, mas a partir do que foi revelado, “Rocketman” consegue criar um retrato bastante interessante sobre um dos artistas mais influentes do século passado. Essa preocupação em buscar algo não muito falseado, investindo nas cenas com álcool, sexo e a própria questão sexual do cantor, dão ao filme um ótimo bônus por não tentar esconder quem ele era para agradar algum super-fã ou executivo de estúdio com medo de que as pessoas boicotassem o filme.

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