De “O Agente Secreto” a “Wicked: For Good”, Caio Pimenta traz a segunda parte das previsões iniciais para o Oscar 2026 de Melhor Filme.
CHANCES MÉDIAS
Começo falando da turma com chances médias de chegar na categoria máxima do Oscar 2026. O primeiro deles pode se juntar a uma turma seleta.
Apenas “O Poderoso Chefão” e “O Senhor dos Anéis” tiveram todas as três primeiras partes indicadas a Melhor Filme. James Cameron busca se juntar a Francis Ford Coppola e Peter Jackson com “Avatar Fogo e Cinzas”. Desta vez, a aventura apresenta um clã com o domínio do fogo e, consequentemente, de armas poderosas.
A 20th Century Studios sabe que não precisa lançar “Avatar Fogo e Cinzas” nos festivais do segundo semestre, bastando o possível sucesso nas bilheterias para que a produção se credencia para a festa da Academia. Este apelo popular e o lançamento ser no fim do ano, próximo às votações da temporada, somado à força do James Cameron são os principais ativos do blockbuster.
Por outro lado, o fato de ser o terceiro filme de uma série que está prevista de ir, pelo menos, até a quinta parte pode criar uma sensação de que se pode abrir espaço para outros filmes em vez de colocar “Avatar” mais uma vez entre os finalistas. Corre risco de ficar fora desta vez.
A Amazon MGM jogava todas as fichas em “Depois da Caçada” tanto por conta do Luca Guadagnino como do elenco. A passagem por Veneza, entretanto, foi decepcionante com falas de apoio do diretor a Woody Allen, hoje, persona non grata em Hollywood, e uma trama acusada de ser contraproducente ao feminismo como questionar a credibilidade de denúncias de vítimas de abuso.
Foi tanta polêmica alimentada ainda por uma coletiva de imprensa bastante controversa que não apenas o filme perdeu força como também o Guadagnino, a Julia Roberts em Melhor Atriz e a Ayo Edebiri em Atriz Coadjuvante. Por todas estas situações, considero bem difícil uma possibilidade de reversão.
Lançado no Festival de Toronto, “Nuremberg” recebeu críticas mistas. O longa protagonizado por Russell Crowe e Rami Malek, dois ganhadores de Melhor Ator, volta a colocar holofotes nos casos judiciais envolvendo nazistas após a Segunda Guerra: na edição de 1962, “Julgamento em Nuremberg” foi indicado a 11 categorias, incluindo, Melhor Filme. Venceu 2 com Roteiro Adaptado e Melhor Ator com Maximilian Schell.
“Nuremberg”, entretanto, passou longe de convencer a crítica com o drama de tribunal do James Vanderbilt sendo considerado bastante convencional. No máximo, o Russell Crowe foi citado como destaque. Tendência é que seja esquecido ao longo da temporada.
“The Testament of Ann Lee” obteve boas críticas no Festival de Veneza, mas, passou longe de obter a mesma aclamação de “O Brutalista”, último filme da dupla Mona Fastvold e Brady Corbet. De todo o filme, a Amanda Seyfried foi a mais elogiada. Uma possível indicação dela a Melhor Atriz pode puxar a produção.
Hoje, o maior problema em relação ao Oscar é que o projeto ainda não tem distribuidora nos EUA. Estar nesta situação nesta altura do campeonato atrasa toda campanha. Por outro lado, espera-se que seja adquirido por um estúdio disposto a investir para levar ao Oscar. Para Melhor Filme, “The Testament of Ann Lee” ainda terá que desafiar outros musicais mais bem colocados na corrida, especialmente, “Wicked: For Good”.
Paul Greengrass e Matthew McConaughey unem forças para chegar com “The Lost Bus”. A produção é a principal aposta da Apple para a temporada. A história de heroísmo real de um motorista de ônibus responsável por salvar crianças de um devastador incêndio florestal em Los Angeles de 2018 encontra força especialmente após a mesma tragédia ambiental ter ocorrido ano passado.
As avaliações em Toronto foram positivas, mas, sempre denotando um desgaste do cinema de ação do Paul Greengrass. Ainda assim, não dá para negar a qualidade técnica dos filmes do britânico, capazes de conseguirem muitas indicações nas áreas técnicas. Neste momento, está estagnado, mas, pode crescer.
“Família de Aluguel” já esteve em posição melhor na temporada, mas, a passagem por Toronto precisava de mais para conseguir chegar mais forte. Ser um drama bonito e inspirador ajuda, especialmente, contando com a força de Brendan Fraser em momento importante da carreira após a vitória com “A Baleia”.
Hoje, a Searchlight Pictures, porém, está deixando o filme em segundo plano para dar preferência a “Is This Thing On?”, do Bradley Cooper. Precisa dar uma improvável reviravolta para chegar forte ao Oscar 2026.
Oficialmente candidato do Brasil para o Oscar 2026, “O Agente Secreto” aparece com chances medianas para repetir o feito de “Ainda Estou Aqui”. As duas vitórias em Cannes somada a passagem bastante elogiada em Telluride e Toronto, além da presença confirmada em Nova York e sessões especiais em Los Angeles, criaram uma visibilidade internacional ao suspense do Kleber Mendonça Filho que o drama do Walter Salles não tinha no mesmo momento da temporada. Com Wagner Moura forte em Melhor Ator e possibilidades de Roteiro Original e Direção, há um caminho aberto para sonhar com a categoria máxima.
Será interessante como a Neon vai determinar a segunda prioridade para a categoria, afinal, “Valor Sentimental” é o carro-chefe do estúdio. “O Agente Secreto” estará na luta e a mobilização da torcida brasileira pode ser decisiva para a imprensa norte-americana colocar o longa em evidência tal qual ocorreu em 2025.
GRANDES CHANCES
De agora em diante, passamos aos candidatos com grandes chances de indicações a Melhor Filme. Acredito que, pelo menos, três deles estejam entre os finalistas.
“Coração de Lutador” é um candidato que será ame-o ou deixe-o na temporada. Em Veneza, saiu premiado com o Benny Safdie, enquanto Toronto não mostrou muito entusiasmo. Ter o combo Dwayne Johnson buscando a chancela da Academia a partir de uma transformação visual e Emily Blunt lutando para ganhar o primeiro Oscar ajuda bastante.
O universo do UFC, entretanto, não me parece contar com tanta simpatia da Academia e ainda há a batalha dentro da A24 entre “Coração de Lutador” e “Marty Supreme”, a qual vejo ligeira vantagem para o longa estrelado pelo Timothée Chalamet.
“Bohemian Rhapsody“, “Elvis”, “Maestro” e “Um Completo Desconhecido“… Dramas sobre grandes nomes da música são uma constante em Melhor Filme. Logo, não dá para desconfiar da força de “Springsteen”, especialmente, se o Jeremy Allen White chegar forte a Melhor Ator.
“Springsteen” deve ser a grande aposta da temporada da 20th Century Studios – as outras opções são “Avatar Fogo e Cinzas” e “Imperfeitamente Perfeita”. Chegará bem forte para a temporada.
“The Voice of Hind Rajab” pode levar a Tunísia pela primeira vez ao Oscar máximo. O drama da Kaouther Ben Hania traz a urgência da temática – o genocídio palestino na Faixa de Gaza pelo exército israelense – a partir do caso real de uma garotinha de 6 anos morta ao lado da família.
A passagem em Veneza foi consagradora com até uma sensação de que ele foi injustiçado na briga pelo Leão de Ouro. Certamente terá o apoio de alas mais progressistas da Academia nos EUA e de parte significativa da comunidade internacional. O time de produtores inclui Alfonso Cuarón, Jonathan Glazer, Rooney Mara, Joaquin Phoenix e Brad Pitt.
A questão é saber como será a reação da ala mais ligada a Israel e à comunidade judaica da indústria do cinema. Da mesma forma que contará com muito apoio, “The Voice of Hind Rajab” também terá muita rejeição. A produção ainda não tem distribuição nos EUA, o que chama a atenção após os elogios todos que obteve em Veneza. Por fim, Hollywood e Academia estarão tão dispostas a encarar a polêmica do tema em meio a um EUA tão turbulento?
Acredito que tenha boas chances de indicações, mas, não será nada fácil.
“It Was Just An Accident” é outro candidato internacional muito forte para a vaga de Melhor Filme. Chega credenciado pela Palma de Ouro em Cannes, bom sinal para o Oscar vide as indicações de “Parasita”, “O Triângulo da Tristeza”, “Anatomia de uma Queda” e “Anora”. Jafar Panahi também traz o prestígio de ter vencido os prêmios máximos de Veneza, Berlim e Cannes, logo, falta a Academia neste hall.
Diferente de “The Voice of Hind Rajab”, as polêmicas políticas são menores aqui. Primeiro porque a luta do Panahi contra o regime iraniano é antiga, logo, não vão poder associá-lo a Israel na guerra travada no Oriente Médio. O diretor representa mais a luta pela liberdade artística contra a tirania de líderes políticos, algo que pode encontrar ecos nos EUA com Trump no poder. “It Was Just An Accident” ainda se apoia na tradição francesa como candidato do país e a força da Neon.
Acho que a produção do Panahi é o candidato mais forte a ser o segundo internacional em Melhor Filme.
“Casa de Dinamite” será uma das grandes apostas da Netflix na temporada. A produção chega com a possibilidade de ser o retorno da Kathryn Bigelow a Melhor Filme; a última indicação dela foi com “A Hora Mais Escura” em 2013. Considerado um eletrizante thriller sobre a tensão nuclear, o filme possui grandes chances de emplacar muitas categorias nas áreas técnicas.
Caso consiga espaço nas categorias principais, especialmente, direção de casting, roteiro original e direção. Pode pesar, entretanto, a disputa interna na Netflix: “Casa de Dinamite” está ao lado de “Frankenstein” e “Jay Kelly”. Improvável termos três filmes do streaming na categoria máxima. Corre o risco da Bigelow ficar pelo caminho.
O Bradley Cooper não desiste e, desta vez, tentará a sorte com “Is This Thing On?”. Perto de “Nasce uma Estrela” e “Maestro”, o projeto da Searchlight Pictures é o menor do diretor e traz uma história universal sobre separação com o meio artístico de pano de fundo. O Will Arnett é um nome querido dentro da indústria e a Laura Dern sempre está no radar da Academia.
“Is This Thing On?” será o filme de encerramento do Festival de Nova York. Acho um candidato com potencial para crescer mesmo com um ponto de partida tardio. Com o desempenho tímido de “Família de Aluguel”, o Bradley Cooper está na dianteira na preferência dentro da Searchlight Pictures.
O ponto positivo é também o ponto fraco de “Bugonia”: Yorgos Lanthimos e Emma Stone fazem uma das duplas mais interessantes do cinema na atualidade. E a Academia reconheceu isso com “A Favorita” e “Pobres Criaturas”. Logo, farão mais uma vez nesta temporada? Ou haverá um sentimento de desgaste?
A situação se complica ainda mais porque “Hamnet” também está na Focus Features. Logo, o estúdio pode jogar grande parte das fichas no drama da Chloé Zhao, deixando “Bugonia” em segundo plano. Não à toa a dramédia do Lanthimos perdeu força nas últimas semanas junto a imprensa especializada norte-americana. Ainda assim, vejo possibilidade de duas indicações para a Focus em Melhor Filme.
Por fim, tem “Wicked – For Good”: o musical do Jon M. Chu encerra a história da adaptação do clássico da Broadway. O filme terá todo o investimento de campanha da Universal Pictures e há um nítido carinho por ele na Academia como ficou provado na edição do Oscar deste ano.
Precisa acontecer uma hecatombe para “Wicked – For Good” não ser um dos representantes dos blockbusters em Melhor Filme, aquela ponte com o grande público que a Academia sempre busca. Ainda que “Avatar” e James Cameron sejam tentadores, seria incoerente para o Oscar indicar o primeiro filme e não fazer com o segundo caso este mantenha a mesma qualidade.

























