Caio Pimenta analisa os caminhos de Wagner Moura para chegar ao Oscar 2026 de Melhor Ator por “O Agente Secreto”.

Cannes nem sempre impulsiona ao Oscar

Wagner Moura já começou o caminho rumo ao Oscar com uma conquista para lá de importante: venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes 2026. A honraria é grandiosa por si só, mas nem sempre influencia diretamente o resultado da Academia.

Neste século, poucos premiados em Cannes chegaram ao Oscar. Javier Bardem, por “Biutiful”, Bruce Dern, por “Nebraska”, e Antonio Banderas, por “Dor e Glória” foram exceções notáveis. Jean Dujardin, de “O Artista“, e Christoph Waltz, de “Bastardos Inglórios“, venceram em ambos. Vale lembrar que Waltz ganhou como Ator Principal em Cannes e Coadjuvante no Oscar.

Nos últimos três anos, a Academia até cogitou indicar ganhadores de Cannes, mas optou por outros caminhos na reta final. Song Kang-ho vinha no embalo de “Parasita” e era um nome forte com “Broker”, distribuído nos EUA pela Neon, mas acabou ficando de fora. O mesmo vale para Koji Yakusho, aclamado por “Perfect Days”, cujo filme foi indicado em Filme Internacional, mas sem a nomeação para Ator.

Jesse Plemons, vencedor em 2025 por “Tipos de Gentileza”, até recebeu indicação ao Globo de Ouro, mas o fato do filme ser menor na filmografia de Yorgos Lanthimos e o sucesso avassalador de “Pobres Criaturas” o prejudicaram na corrida.

Dificuldades históricas na categoria de Melhor Ator

O histórico de baixa adesão do Oscar aos ganhadores de Cannes em Melhor Ator não é o único obstáculo para Wagner Moura. Ao contrário da categoria de Melhor Atriz, em que há maior abertura para atuações em idiomas estrangeiros, Melhor Ator ainda demonstra resistência.

Antonio Banderas, em 2020, foi o último indicado com atuação em outro idioma. No caso de latinos-americanos, a última indicação foi de Demián Bichir por “Uma Vida Melhor”, mas ele falava majoritariamente em inglês no filme.

Na categoria feminina, a presença de atrizes latinas tem sido mais frequente, com nomes como Fernanda Montenegro, Catalina Sandino Moreno, Yalitza Aparicio e Fernanda Torres. Um contraste que destaca o desafio que Moura terá pela frente.

“O Agente Secreto” pode gerar divisões na Academia

Será um desafio enorme para Wagner Moura quebrar essa barreira, ainda mais com um filme que tende a enfrentar resistências dentro da Academia. “O Agente Secreto” tem 2h40 de duração — algo que já foi obstáculo até mesmo para produções norte-americanas, como “O Irlandês” e “O Brutalista”.

Essa resistência se intensifica quando o filme é falado em outro idioma. Casos como “Drive My Car” são exceções. Além disso, o longa aposta em uma linguagem mais arriscada, capaz de conquistar o público artístico, mas também de afastar os setores mais conservadores da indústria.

As paixões e os ódios ao filme terão impacto direto nas chances de Moura na temporada.

Wagner Moura: uma carreira internacional consistente

Entre os atores brasileiros em Hollywood, Wagner Moura possui a carreira mais bem planejada. Em vez de entrar em blockbusters genéricos, ele buscou construir uma base sólida no Brasil e América Latina — como comprovam os dois “Tropa de Elite” e a série “Narcos”.

Embora “Trash”, “Wasp Network” e “Sérgio” não tenham alavancado sua carreira internacional, séries mais prestigiadas como “Iluminadas”, “Sr. e Sra. Smith” e “Ladrões de Drogas” o colocaram no radar das premiações. No cinema, mesmo que “O Agente Oculto” tenha passado despercebido, Moura foi elogiado como o Lobo de “Gato de Botas 2” e teve destaque em “Guerra Civil”.

Pode não ser a carreira estelar que tinha no Brasil, mas é sólida e em ascensão. Ao contrário de outros nomes latinos como Rodrigo Santoro e Gael García Bernal, Moura tem conseguido escapar dos estereótipos e diversificar seus papéis em Hollywood.

Wagner Moura tem buscado diversidade nos projetos, dentro das limitações que a indústria impõe. Trabalhou com diretores como Alex Garland e Olivier Assayas, e contracenou com Penélope Cruz, Javier Bardem, Elisabeth Moss, Ryan Gosling e Bryan Tyree Henry.

Esse respeito na indústria é construído com o tempo — e às vezes, basta o projeto certo para a consagração definitiva. “O Agente Secreto” pode ser esse filme.

Cotações positivas na imprensa americana E A FORÇA BRASILEIRA NAS REDES

Wagner Moura já figura nas listas de apostas para Melhor Ator nas principais publicações dos EUA. Variety, Next Best Picture, IndieWire e Awards Watch colocam o ator baiano entre os principais nomes, frequentemente dentro do top 5.

Para comparar, Fernanda Torres só alcançou tal marca na semana das indicações ao Oscar — e não foi unanimidade como Moura começa a ser agora.

Grande parte dessa visibilidade também vem do engajamento dos brasileiros. A campanha por “Ainda Estou Aqui” foi barulhenta nas redes sociais, como uma final de Copa do Mundo. Isso atraiu a atenção da imprensa americana, que entrou na onda em busca de engajamento.

Com a temporada de 2026 se aproximando, o cenário deve se repetir. A distribuidora Neon certamente levará isso em consideração para montar a campanha de divulgação.

Concorrência interna e externa favorece Moura

Na Neon, Wagner Moura pode se beneficiar da falta de concorrência direta. Seu único “rival” interno seria Tom Hiddleston, de “A Vida de Chuck”, que fracassou nas bilheterias e parece ter perdido o timing de premiação. Stellan Skarsgård, por sua vez, deverá concorrer em Ator Coadjuvante.

Isso evita uma disputa interna como a de Fernanda Torres contra Tilda Swinton na Sony Classics, permitindo que a campanha de Moura seja trabalhada com mais foco desde o início.

Corrida de Melhor Ator ainda está aberta

Diferente da feroz disputa por Melhor Atriz no último ano, com grandes estrelas ficando de fora, a corrida por Melhor Ator em 2026 parece mais aberta.

Leonardo DiCaprio (“Uma Batalha Após a Outra”), Dwayne Johnson (“Coração de Lutador”), Oscar Isaac (“Frankenstein”) e Jesse Plemons (“Bugonia”) ainda geram dúvidas. Daniel Day-Lewis (“Anemone”), Matthew McConaughey (“The Lost Bus”) e Colin Farrell (“The Ballad of a Small Player”) correm por fora.

Por enquanto, apenas dois nomes parecem seguros na disputa: Timothée Chalamet (“Marty Supreme”) e Jeremy Allen White (“Springsteen”). Nenhum deles, porém, é favorito absoluto. Isso abre espaço para Wagner Moura figurar entre os indicados.