Caio Pimenta aponta fatores que tornam “Valor Sentimental” um adversário mais difícil para “O Agente Secreto” do que foi “Emília Pérez” para “Ainda Estou Aqui” no Oscar.

AS SEMELHANÇAS DOS DOIS CASOS 

 

O panorama das duas corridas de Melhor Filme Internacional é bastante semelhante em uma briga entre um sul-americano e um europeu. 

“Emilia Pérez” e “Valor Sentimental” conseguiram mais indicações e tiveram maior presença nas categorias principais do que os brasileiros. Jacques Audiard e Joachim Trier conseguiram aparecer tanto em Direção quanto em roteiro, igual não alcançado pelos longas do Walter Salles e Kleber Mendonça Filho.  

Nas atuações, enquanto apenas Fernanda Torres e Wagner Moura vingaram, respectivamente, em Melhor Atriz e Ator, os longas francês e norueguês emplacaram mais nomes; neste ano, são quatro indicações em três categorias diferentes. 

Vale lembrar que o musical da Netflix obteve mais indicações aparecendo em 13 categorias contra apenas três de “Ainda Estou Aqui”. Neste ano, a distância é menor com “Valor Sentimental” com nove aparições contra quatro de “O Agente Secreto”. 

DIFICULDADE 1: GÊNERO COM MENOR RESISTêNCIA

O panorama, entretanto, deve ser bem pesado para que o Brasil volte a conquistar a estatueta dourada neste ano.  

O primeiro fator é que “Emilia Pérez” era um musical, gênero que causa o famoso ame-o ou deixe-o. Da mesma forma que há aqueles que abraçam obras do tipo, outros votantes não conseguem ser convencidos da cantoria e da dança, criando uma rejeição quase automática. Já “Valor Sentimental” é um drama clássico familiar com o cinema de pano de fundo, combinação praticamente irresistível para ser prestigiada pela Academia.  

Ainda na comparação de filmes, “Ainda Estou Aqui” traz uma narrativa clássica, também com uma família no pilar central da trama, passando por quatro décadas dentro de um tema conhecido da Academia em relação à América do Sul – o longa do Walter Salles recorda bastante o primeiro Oscar da Argentina com “A História Oficial”. Logo, é uma obra mais palatável com menor resistência para o votante médio da Academia.  

Já “O Agente Secreto” é mais ousado narrativamente com o Kleber Mendonça Filho trazendo pequenas e ricas digressões ao longo da história central, algo que pode tanto conquistar votantes como afastar uma parte. Para completar, é um filme de quase três horas de duração, o que sempre causa restrições em certos públicos.  

 DIFICULDADE 2: RISCOS MENORES DE POLÊMICA temática

Se “Valor Sentimental” consegue trazer uma universalidade sobre a difícil relação de pais e filhos, os traumas que uma família carrega e o cinema como uma ponte de conexão, temas mais do que explorados em diversos filmes, “Emilia Pérez” apostava em temas delicados como a questão trans e dos cartéis mexicanos.  

Com este risco assumido, Jacques Audiard fracassou ao simplificar a complexidade de ambos os assuntos em saídas fáceis e estereotipadas. Causou revolta junto à comunidade LGBTQIAPN+ e ainda mais nos mexicanos.  

 DIFICULDADE 3: CHANCE MÍNIMA DE CASO GASCÓN

Estas polêmicas ganharam um fator ainda mais explosivo com o despreparo de Karla Sofía Gascón para lidar com a pressão antes e depois das indicações ao Oscar. As acusações infundadas contra Fernanda Torres e os tweets preconceituosos criaram um clima insustentável que prejudicaram “Emilia Pérez”.  

Neste sentido, o time de “Valor Sentimental” me parece mais bem vacinado. Renate Reinsve, Stellan Skarsgard e Elle Fanning são estrelas de Hollywood com experiência de sobra para sair de bolas divididas. Joachim Trier mostra-se bastante habilidoso nas entrevistas ao ser só elogios para os seus adversários, inclusive, “O Agente Secreto”. Será simplesmente surpreendente se acontecer um ato falho por parte do time do candidato norueguês passível de macular a imagem do longa. 

 DIFICULDADE 4: momento de auge ainda por vir

“Emilia Pérez” teve seus grandes momentos no Festival de Cannes quando venceu o prêmio de Melhor Atriz com o quarteto feminino de protagonista e no Globo de Ouro ao levar Melhor Filme de Comédia/Musical. Após este momento, o musical caiu e praticamente não se recuperou no ano passado.  

“Valor Sentimental” também teve um grande desempenho em Cannes ao vencer o Grand Prix, o segundo prêmio mais importante do evento. Na temporada, começou lento, parecia em baixa, mas, as nove indicações ao Oscar, empatado com “Frankenstein” e “Marty Supreme” e superando “Hamnet”, simbolizaram um novo momento. A boa presença no Bafta onde concorre a oito prêmios mostra como os europeus abraçaram o longa e que o melhor momento na corrida possa estar por vir. 

DIFICULDADE 5: ENGAJAMENTO E VITÓRIA BRASILEIRA NÃO SÃO MAIS NOVIDADes

Tão importante para dar uma visibilidade enorme para “Ainda Estou Aqui”, o engajamento brasileiro não chega a ser mais novidade. Claro que ainda rende bastante likes e audiência para os veículos e jornalistas norte-americanos, mas, não acredito que o barulho seja capaz de criar a mesma onda que impressionou Hollywood.  

Para completar, o peso do Brasil ter vencido o Oscar ano passado pode fazer a Academia buscar outro país para consagrar. A última vez que uma mesma nação venceu Melhor Filme Internacional por dois anos consecutivos foi nos anos 1980 com a Dinamarca.   

Complica ainda mais o fato da Noruega jamais conquistado o prêmio e do Joachim Trier tendo batido na trave há quatro anos com “A Pior Pessoa do Mundo”. Logo, “Valor Sentimental” pode ser a aposta ideal para compensar o país nórdico.