Hora do ponto final dos rankings de ganhadores do Oscar nos anos 2020. Desta vez, eu falo das categorias de Melhor Direção e Melhor Filme.

MELHOR DIREÇÃO

O Oscar de Melhor Direção teve um bom nível de vencedores, com grandes nomes premiados. Na maioria das vezes, não por seus melhores trabalhos, mas ainda assim por filmes acima da média.

7. CHLOÉ ZHAO, DE NOMADLAND

A pior ganhadora da categoria foi a Chloé Zhao. A cineasta chinesa consegue captar bem o desalento da crise econômica dos EUA, enquanto o apoio da comunidade acaba sendo o alento nesse cenário em “Nomadland”. Ainda assim, tudo soa tão frio e distante que não permite que criemos o mínimo de empatia por aqueles personagens.

Dos filmes recentes da Zhao, “Nomadland” é inferior a “Hamnet” e léguas atrás de “Domando o Destino”. Curiosamente, não vejo trabalho melhor indicado à Direção no Oscar da pandemia. Por mais que goste de “Bela Vingança”, considero a vitória em Roteiro Original suficiente para Emerald Fennell.

6. PAUL THOMAS ANDERSON, DE ‘UMA BATALHA APÓS A OUTRA’

Paul Thomas Anderson aparece em sexto lugar no ranking. “Uma Batalha Após a Outra” também está longe de ser o melhor trabalho do diretor, o que não o impede de dar uma aula de condução de um filme de ação. A produção não perde o ritmo em momento algum, passa por duas décadas de trama de forma absolutamente natural, traz um elenco bastante coeso e em alto nível, além de criar sequências memoráveis.

Um Oscar pelo conjunto da obra em uma temporada bem interessante, com Ryan Coogler, de “Pecadores”, e Joachim Trier, de “Valor Sentimental”, como outros excelentes trabalhos.

5. DANIELS, DE “TUDO EM TODO LUGAR AO MESMO TEMPO”

Ganhar o Oscar com uma ficção científica que gigantes do gênero, como Ridley Scott, Steven Spielberg e as irmãs Wachowski, passaram longe de conseguir. Só por isso o mérito dos Daniels em “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” é enorme, mas apenas por isso: a dupla consegue organizar o caos dos multiversos para direcionar o foco na história de uma família tentando se reerguer.

Pode não ser perfeito, com exageros na montagem, mas aqui coloco como principal virtude ser uma vitória incomum, totalmente fora da caixinha do que a Academia costuma premiar. Em 2023, porém, meu favorito era Steven Spielberg por “Os Fabelmans”.

4. CHRISTOPHER NOLAN, DE “OPPENHEIMER”

Em “Oppenheimer”, Christopher Nolan entrou no modo de que era agora ou nunca para vencer o Oscar. Com isso, foi o maestro de uma excelência técnica em tantos setores, a ponto de dominar a temporada de 2024, ainda que pareça incerto sobre qual posicionamento político deveria assumir.

O modo trator com o qual Nolan foi colecionando prêmios acabou deixando em segundo plano dois trabalhos absolutamente brilhantes, indicados ao Oscar: Martin Scorsese e seu exame detalhista e triste das violências cometidas contra os indígenas dos EUA em “Assassino da Lua das Flores”, e Justine Triet ao abordar a construção da verdade na opinião pública em “Anatomia de uma Queda”.

3. JANE CAMPION, DE “ATAQUE DOS CÃES”

Demorou, mas Jane Campion finalmente conseguiu seu Oscar com “Ataque dos Cães”. Dentro do western, gênero marcado pela valentia dos cowboys, a neozelandesa trabalha a masculinidade tóxica e repressora dos próprios sentimentos a partir do personagem de Benedict Cumberbatch. A cineasta cria um jogo de tensão constante entre personagens ambíguos e imprevisíveis em um de seus melhores trabalhos.

Campion poderia ter vencido lá nos anos 1990 com “O Piano”, mas deu azar de encarar “A Lista de Schindler” e toda a narrativa a favor de Spielberg. É uma conquista impossível de ser contestada, mas, como vocês sabem, tudo o que envolve “Drive My Car” me deixa rendido. Logo, meu voto seria de Ryusuke Hamaguchi.

2. SEAN BAKER, DE “ANORA”

Sean Baker também fez strike na temporada de 2025. Aqui, não tinha mesmo para ninguém: conseguir trazer tantas variações de tons dentro de um mesmo filme com tamanha excelência é para poucos. O diretor de “Anora” ainda mostra firmeza para não se perder em momentos caóticos, como a invasão da casa, sendo sempre capaz de adicionar novos contextos para tudo aquilo que está na tela.

Ser o montador e roteirista favorece esse controle absoluto de Sean Baker. Fazer tudo isso sem perder a complexidade, a partir de uma história nada óbvia pelos caminhos que percorre, é a cereja do bolo. No Oscar 2025, ele sobrou demais na categoria.

1. BONG JOON-HO, DE “PARASITA”

A maior vitória em Melhor Direção não podia ser outra que Bong Joon-ho. Se o roteiro já era brilhante por si só, pela ironia na abordagem das desigualdades sociais, a direção transforma isso em imagens da forma mais perfeita possível. Através de contrastes entre as duas casas ou pelas divisões no mesmo ambiente, o sul-coreano cria esses mundos que convivem pela conveniência ou se chocam de forma fatal.

Igual a Baker, o controle narrativo de Bong Joon-ho, especialmente na reta final — em que tudo poderia desandar — faz de “Parasita” esse assombro que pegou o mundo de surpresa. No Oscar 2020, a Academia ainda tinha outras duas excelentes alternativas: Martin Scorsese, de volta à máfia com “O Irlandês”, e Quentin Tarantino com sua melhor direção em “Era Uma Vez em Hollywood”.

MELHOR FILME

Chegamos, então, à categoria máxima do Oscar: Melhor Filme traz dois clássicos recentes, um ganhador excelente, outros dois que passam de ano, uma produção mais ou menos e outra mais fraca.

7. NOMADLAND

“Nomadland” é o pior vencedor do Oscar nos anos 2020. O drama de Chloé Zhao parece sempre distante do público, incapaz de nos envolver com a história da protagonista e daqueles com quem ela dialoga. Acaba sendo um contrassenso com o próprio discurso de união como suporte para superar e apoiar pessoas em vulnerabilidade.

Ironia do destino é que “Nomadland” venceu o Oscar da pandemia, temporada estranha em que não havia muito clima para campanha e festa. Em um ano normal, talvez Chloé Zhao perdesse força por não ser uma obra capaz de comover e conquistar os votantes tão intensamente. Naquelas condições, porém, ganhou por inércia.

6. CODA

Era a melhor opção? Longe disso, mas “Coda – No Ritmo do Coração” passa longe de ser um desastre como filme. É uma história simples, bem contada, de personagens simpáticos e ainda trazendo o contexto da inclusão social. Aquela dramédia capaz de agradar a gregos e troianos, mesmo que ninguém saia da sessão considerando ter visto um clássico.

Este é um caso que me chama muita atenção: ao premiar filmes como “Coda”, “Green Book”, “A Forma da Água”, “Argo”, “O Discurso do Rei”, “Uma Mente Brilhante” e tantos outros longas médios, a Academia dá um holofote acima do que essas obras merecem. Daí, faz-se uma imagem mais negativa delas do que realmente são — afinal, você cria uma antipatia ao compará-las com produções melhores indicadas. Uma bola de neve interminável.

5. TUDO EM TODO LUGAR AO MESMO TEMPO

Subindo um pouco o nível, “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” é a vitória mais ousada de Melhor Filme na década. Se o ponto de partida da trama é o tradicional drama familiar, o multiverso oferece uma bem-vinda dose de loucura para a caretice que reina na Academia.

Pensar que um filme com personagens sendo pedras ou com mãos de salsicha um dia venceria o Oscar máximo era algo praticamente impossível. Sinto que os muitos excessos do filme são inevitáveis, até pelo escopo do próprio longa, que permite tantas maluquices. Torcer para que “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” abra mais caminhos para o cinema de gênero.

4. UMA BATALHA APÓS A OUTRA

Falando nele, aliás, “Uma Batalha Após a Outra” levou o cinema de ação ao Oscar de Melhor Filme. A conquista, claro, veio pela narrativa a favor de Paul Thomas Anderson, um dos maiores cineastas das últimas décadas ainda sem prêmios. Passa longe de ser o melhor do diretor, o que não impede de ser uma obra de alto nível, com um elenco grandioso.

Se não tivesse sido “Uma Batalha Após a Outra”, o cinema de gênero ainda teria conquistado o Oscar 2026 com “Pecadores”. Um terror dirigido por um cineasta negro ganhar Melhor Filme seria realmente algo histórico.

3. OPPENHEIMER

“Oppenheimer” é uma locomotiva acelerando ao máximo do início ao fim. Nolan confere um ritmo de filme de ação a um drama político sobre a construção da primeira bomba nuclear. Com um elenco de grandes estrelas, a obra brilha mais pela sua excelência técnica — vista na montagem, trilha sonora e direção de fotografia primorosas — do que pelo debate político tímido.

Apesar de achar “Oppenheimer” um ótimo filme — ainda que longe de brilhante —, o Oscar 2024 tinha dois outros longas mais merecedores da estatueta: “Assassino da Lua das Flores” e “Anatomia de uma Queda”, ambas obras-primas. Caso uma delas tivesse vencido, mudaria o primeiro colocado deste ranking.

2. PARASITA

Primeiro vencedor de língua não inglesa do Oscar de Melhor Filme, “Parasita” fica com a medalha de prata. Raros longas são tão assertivos em suas analogias com um tema quanto a produção sul-coreana. A universalidade das desigualdades sociais, a partir daquelas famílias, somada às reviravoltas impressionantes, consegue derrubar qualquer resistência de quem nunca assistiu a um filme do país ou não gosta de ver obras legendadas.

A vitória de “Parasita” ainda aconteceu contra duas obras-primas: “O Irlandês” e “Era Uma Vez em Hollywood”. Seria incrível também se Scorsese e Tarantino tivessem vencido, mas, por tudo o que representou, é simplesmente impossível não ficar satisfeito com a conquista.

1. ANORA

“Anora” é o meu favorito entre os ganhadores do Oscar de Melhor Filme nos anos 2020. Sean Baker faz quatro filmes em um: a produção começa como comédia, passa para uma comédia romântica, muda tudo para ser uma screwball comedy e termina como um drama nos minutos finais. A fluidez com que tudo acontece se soma a uma obra ácida sobre sonhos de mudança de vida e a triste realidade das humilhações das diferenças de classe.

Isso tudo com um show de Mikey Madison. E é bom demais um filme como “Anora” vencer o Oscar: uma obra que provoca debate, deixa perguntas, levanta amores e ódios. Mil vezes isso do que obras que morrem dois dias após a festa, como seria se “Conclave” ou “O Brutalista” tivessem vencido. Fora que se trata de uma produção muito longe do que a Academia premiaria há 20 ou 30 anos, por ser provocadora, ousada e distante de respostas e conclusões fáceis típicas de temporadas de premiações. Baita acerto da Academia!