De Denis Villeneuve a Los Javis, Caio Pimenta traz as previsões iniciais para o Oscar 2027 de Melhor Direção.
POUCAS CHANCES
Gigantes do cinema mundial aparecem com poucas chances de indicações para o Oscar de Melhor Direção em 2027.
Três vezes indicado ao Oscar, David Fincher está bem distante com “The Further Mis-Adventures of Cliff Booth“. Pode ser que cresça a partir do lançamento, mas o pouco entusiasmo da Netflix para com o filme na temporada deixa a impressão de que não é bom criar expectativas mirando o Oscar.
Ganhador do Oscar por “Quem quer Ser um Milionário?“, Danny Boyle chamou a atenção em Veneza com “Ink“. A passagem desanimada pelos festivais da América do Norte, porém, esfriou bastante o longa.
A despedida de Mike Leigh dos cinemas é o ponto mais forte de “Tender Loving Care” para conseguir esta indicação. Homenagear um dos maiores cineastas britânicos das últimas décadas, porém, parece se encaixar mais para o Bafta do que para o Oscar neste momento.
E o Luca Guadagnino? Depois de apostar nele com “Rivais” e “Depois da Caçada“, eu serei mais conservador e o vejo corre bem por fora. “Artificial” recebeu bastante elogios pelo ritmo intenso e o tom sombrio para abordar o mundo da tecnologia, enquanto o tom satírico foi bem questionado. Pode crescer, mas, neste momento, vejo com poucas chances.
Se em “Coda”, ganhador do Oscar 2022 de Melhor Filme, a Siân Heder não foi indicada em Direção, considero improvável que o resultado seja diferente com “A Arte de Ser Heumann“. Nas últimas temporadas, a Academia vem preferindo apostas mais autorais e ousadas na categoria, raramente abrindo espaço para cineastas de estilo tradicional. Isso vale para Tony Gilroy, o qual tenta retornar à categoria com “Behemoth!” após aparecer em “Conduta de Risco” no distante 2008.
Duas das revelações do ano buscam surpreender para crescerem na disputa de Melhor Direção.
Jordan Firstman, de “Club Kid“, e Curry Barker, de “Obsessão“, estão em situações parecidas: a maior possibilidade de ambos reside em indicações para Melhor Roteiro Original. Para Direção, apenas se conseguirem se impor diante dos favoritos da categoria e ainda driblarem os candidatos internacionais. Parece improvável.
CHANCES MÉDIAS
Partindo para os candidatos com chances médias de indicação, há um pelotão formado por candidatos de filmes de língua não-inglesa.
Bong Joon-Ho, Ruben Östlund, Justine Trier e Sean Baker ganharam a Palma de Ouro nesta década e, logo depois, foram indicados ao Oscar. O romeno Cristian Mungiu busca se juntar ao grupo com “Fjord“. A grande questão para o cineasta é conseguir convencer os votantes da Academia embarcarem um drama que se coloca no meio do debate sem procurar abraçar um lado ou outro. Em um mundo polarizado como o nosso, soa para lá de desafiador – para não dizer utópico.
Nunca duvide de Paweł Pawlikowski: o polonês obteve uma inesperada indicação a Melhor Direção com “Guerra Fria”, produção que sequer foi indicada a Melhor Filme. Com “A Terra do Meu Pai”, ele chega prestigiado pela vitória na mesma categoria em Cannes. Desta vez, porém, considero a repetição do feito mais difícil até por conta da concorrência mais pesada e do estilo do diretor já ser mais conhecido.
Teria o Oscar coragem de indicar Andrey Zvyagintsev, por “Minotauro”? O cineasta russo é um dos mais ferrenhos críticos ao regime de Vladimir Putin e, nesta temporada, representa a França na corrida de Melhor Filme Internacional. Seria uma ousadia da Academia entrar de cabeça em um vespeiro com potencial de causar desavenças diplomáticas.
O sul-coreano Lee Chang-dong também aparece com chances medianas por “Amor Possível“. O maior desafio dele é superar a concorrência interna na Netflix devido aos Los Javis, de “A Bola Negra”.
De toda esta turma internacional, Ryusuke Hamaguchi é aquele que mais aposto que pode crescer. O japonês já obteve uma inesperada indicação na categoria por “Drive my Car“. Não seria surpresa aparecer com “O Sentido da Vida”, drama mais emocionante que o longa anterior e capaz de atrair um público maior.
Acredito realmente que “O Sentido da Vida” irá crescer demais ao longo da temporada e, com isso, Hamaguchi vai junto.
Agora, se a Academia quiser ser mais quadrada, ficando apenas no circuito dos EUA, Peter Farrelly seria uma escolha ideal. Afinal, ele dirige “Eu Sou Rocky“, um filme voltado para homenagear um clássico de Hollywood e os bastidores do cinema. Seria uma indicação à la James Mangold, por “Um Completo Desconhecido“, e Kenneth Branagh, de “Belfast“, ou seja, uma opção nada empolgante, mas que agrada o gosto médio.
Fosse o Oscar realizado no fim do primeiro semestre, Phil Lord e Christopher Miller não apenas seriam indicados como teriam chances de vencer. Em uma Hollywood cada vez mais dependente de inteligência artificial e de sequências, a dupla aposta tudo em uma história original feita em grande parte em cenários físicos, longe dos fundos verdes.
“Devoradores de Estrelas” injetou uma energia empolgante de que superproduções podem ser mais ousadas do que vemos todos os dias. Por outro lado, como venho sempre ressaltando, a ficção científica está em um momento de estagnação com vagas garantidas em Melhor Filme e Roteiro Adaptado nas categorias principais. Mais do que isso com a atual campanha, fica difícil de acreditar.
O Alejandro González Iñarritu fecha o time dos candidatos com chances medianas. O fracasso de “Digger” nas bilheterias e uma recepção pouco entusiasmada da crítica seria o suficiente para tirá-lo do jogo. Astros de Hollywood, entretanto, abraçaram o longa e estão resgatando a produção da Warner.
Ser um cineasta mexicano que sempre se posicionou de forma contundente dentro dos EUA pode animar setores mais militantes da indústria, especialmente em uma obra anárquica e crítica ao atual governo Donald Trump e aos mega milionários. A coragem de realizar “Digger” mesmo sabendo dos riscos de não se pagar é algo raro de se ver em Hollywood.
Nem mesmo as duas estatuetas da categoria, conquistadas na década passada com “Birdman” e “O Regresso“, dificultam um retorno de Iñarritu. Dos candidatos dos filmes americanos, o mexicano é aquele que mais pode crescer.
GRANDES CHANCES
Hora de passar para a turma com grandes chances de indicação. Três deles serão indicados.
Olivia Wilde e Jesse Eisenberg jogam com uma tradição da Academia: prestigiar atores que passaram para direção. Casos na história do Oscar não faltam: de Laurence Olivier a Woody Allen, passando por Kevin Costner, Clint Eastwood, Mel Gibson até Greta Gerwig.
A diretora de “O Convite” traz a condução perfeita de uma comédia ambientada em um único espaço, desenvolvendo muito cada personagem de forma inteligente, o que permite a seu elenco brilhar. Já em “A Grande Estreia”, Jesse Eisenberg aprimora aquilo que mostrara em “A Verdadeira Dor” em um duelo de dois protagonistas fascinantes extraindo o melhor de seus atores.
A minha grande dúvida é se a Academia indica os dois juntos. Já aconteceu em 1995 com Mel Gibson, por “Coração Valente”, e Tim Robbins de “Os Últimos Passos de um Homem“. Nesta temporada, acredito, porém, que a Academia, se vier a indicar, será apenas um deles e sinto que Olivia Wilde esteja na frente nesta corrida pela força maior de “O Convite” em relação “A Grande Estreia” nesta temporada.
Nathan Fielder e Lance Oppenheim estão subindo na temporada com “Tudo Pode ser Visto“. O documentário/ficção é um feito impressionante ao conseguir tanto por conseguir registrar Elizabeth Holmes no mês anterior à prisão dela como também por expandir os experimentos de Fielder a um patamar totalmente surreal.
A abertura de US$ 19,5 milhões nas bilheterias dos EUA na semana de estreia e ainda os elogios unânimes da crítica mostram como “Tudo Pode ser Visto” rompeu a bolha dos documentários. Virou um fenômeno capaz de furar a bolha da categoria e ir mais longe. Como idealizadores do filme, Oppenheim e, principalmente Fielder, hoje um dos nomes mais criativos da indústria dos EUA e mundial, podem ser reconhecidos pela ousadia.
Já o Martin McDonagh é um queridinho da Academia: o britânico soma sete indicações ao Oscar. Emplacou duas produções em Melhor Filme com “Três Anúncios para um Crime” e “Os Banshees de Inisherin“. Em Direção, apareceu uma vez em 2023. Vitória apenas uma vez em curta de ficção com “O Revólver de Seis Tiros“.
“Cavalo Selvagem Nove” chega com a expectativa de recolocar o McDonagh na corrida e, agora, até com chances de vitória. Sinceramente, tenho dúvidas de que será para tanto: a produção é a mais fraca dele desde “Sete Psicopatas e um Shih Tzu”. Se por “Três Anúncios para um Crime”, o britânico ficou de fora, mesmo com tudo apontando para a indicação, acredito que a história possa se repetir. Ainda mais em um ano tão concorrido.
Será que agora vai? Esta é a pergunta que paira sobre Denis Villeneuve. O canadense foi esquecido no rolê nos primeiros “Duna“. Isso mesmo com a saga somando 15 indicações e 8 vitórias. Por isso, há uma expectativa de que o desfecho da trilogia seja a hora de finalmente reconhecê-lo, pelo menos, com uma indicação.
Caso “Duna 3” confirme as expectativas e seja um desfecho à altura, considero bastante improvável que Villeneuve fique de fora. Até porque esta é uma temporada que deve exaltar muitas produções de sucesso e grandiosas. Faz sentido que ele esteja na lista final.
Quanto a vencer, considero improvável. A não ser que “Duna 3” seja um clássico do cinema, reconhecido para além da bolha nerd, aclamado por críticos e pela indústria, eu sinto que é uma série que não possui a mesma unanimidade ou clamor que teve, por exemplo, “O Senhor dos Anéis“. Para aquela vitória arrebatadora em 2004 de “O Retorno do Rei“, houve uma construção gradativa, incluindo a indicação a Melhor Direção do Peter Jackson por “A Sociedade do Anel“. É bem diferente do que acontece agora.
FAVORITOS
Chegamos então aos dois favoritos da temporada em Melhor Direção.
Javier Calvo e Javier Ambrossi são os fenômenos do cinema mundial em 2026. “A Bola Negra” é um salto dado pela dupla espanhola que ninguém que viu os trabalhos anteriores deles imaginava ser capaz. Para além de uma história desafiadora ambientada em três momentos, o ex-casal cria uma identidade visual hipnotizante em um filme para lá de emocionante. Não à toa foi a produção mais bem-recebida do Festival de Cannes, onde, inclusive, ganharam a categoria ao lado de Paweł Pawlikowski.
Los Javis trazem a vitalidade e ousadia que Hollywood espera do cinema internacional aliando o senso de espetáculo que os americanos gostam. Além disso, há a questão da diversidade LGBTQIAPN+ em cena, uma temática muito forte.
Serão seis edições separando da conquista histórica de Bong Joon-Ho por “Parasita“. Com o apoio milionário da Netflix na campanha, acredito que a dupla chega com um grande potencial para levar a estatueta.
O maior desafiante atende por Christopher Nolan. Adaptar “A Odisseia“, um dos maiores romances da literatura moderna, era um desafio daqueles para fazer qualquer diretor tropeçar feito. O britânico, entretanto, mostrou que vive uma grande fase ao trazer novamente uma maestria na condução técnica aliada a uma história conduzida com ousadia e dominada pela ação do início ao fim.
Para além disso, Nolan traz sempre a defesa da ida ao cinema. Com isso, gerou uma corrida desenfreada aos cinemas, fazendo do filme um programa obrigatório. Se “Avatar” popularizou o 3D, é possível dizer que “A Odisseia” fez semelhante para o IMAX, um formato antes visto com desconfiança ou apenas um luxo dispensável.
Todos estes fatores favorecem para que Nolan vença o Oscar de Melhor Direção três anos após conquistá-lo por “Oppenheimer“. Repetiria o feito de Steven Spielberg que ganhou a categoria em curto período por duas vezes com “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan“.
Será uma briga imprevisível pela estatueta.
FINALISTAS – PREVISÃO INICIAL
Na minha visão, ais finalistas de Melhor Direção serão:
- Christopher Nolan, por “A Odisseia”
- Javier Calvo e Javier Ambrossi, por “A Bola Negra”
- Olivia Wilde, por “O Convite”
- Denis Villeneuve, por “Duna 3”
- Nathan Fielder e Lance Oppenheim, por “Tudo o que Você Pode Ver”
































