Caio Pimenta apresenta as chances de cada uma das 16 produções brasileiras na disputa pela vaga do Oscar de Melhor Filme Internacional. 

FAVORITO: O AGENTE SECRETO

É chover no molhado dizer que “O Agente Secreto” é mais do que favorito para esta vaga. E tem motivos de sobra para chegar com este status.  

Afinal, a passagem consagradora no Festival de Cannes ao ser premiado com Melhor Direção para o Kleber Mendonça Filho e Ator com o Wagner Moura colocou um enorme holofote sobre o projeto. A Neon, distribuidora de “Parasita” e “Anora”, adquiriu o filme para distribuição nos EUA, dando uma visibilidade certa para “O Agente Secreto”. 

Os elogios da imprensa internacional, incluindo, a norte-americana demonstram como o longa tem a capacidade de agradar aos mais diversos públicos em cheio. Não à toa que os principais veículos especializados em temporada de premiações apontam “O Agente Secreto” garantido em Filme Internacional, Wagner Moura com grandes chances de indicação em Melhor Ator e o Kleber com possibilidades de chegar a Melhor Direção. 

Neste segundo semestre, “O Agente Secreto” já está confirmado como atração no Festival de Toronto, fundamental para se firmar na temporada. O filme já tem estreia confirmada em 94 países, algo que “Ainda Estou Aqui” nem passou perto de ter na mesma altura do campeonato.  

Logo, a tendência é que “O Agente Secreto” seja o escolhido brasileiro, porém, não dá para contar com os ovos antes da galinha. O filme do Kleber Mendonça Filho pode até ser favorito, mas, não significa que não possa ser surpreendido .

 SEM CHANCES

Dos 16 filmes na corrida brasileira, seis deles sabem que não tem a menor chance. 

 “Milton Bituca Nascimento” precisa repetir o que fez “Babenco”, até hoje o único documentário a ser escolhido como representante do Brasil.

Diferente do filme da Bárbara Paz, o longa sobre o genial cantor mineiro não conta com um prêmio em Veneza para impulsioná-lo.  

 

Apesar dos elogios, “Um Lobo entre os Cisnes”, “Kasa Branca”, “Retrato de um Certo Oriente” e “A Praia do Fim do Mundo” tiveram passagens discretas nos cinemas brasileiros e não fizeram carreiras tão fortes nos principais festivais internacionais para chegarem com força.

Já “Os Enforcados” passou longe de convencer como o Fernando Coimbra fizera com “O Lobo Atrás da Porta”.  Nem mesmo a experiência internacional do diretor deve levar o suspense muito longe.

AZARÕES

A próxima turma chega como azarã: são filmes prestigiados pela crítica e pelos pares, mas, que ou circularam pouco comparado com os favoritos nos festivais internacionais ou ficaram mais no circuito nacional. 

“Homem com H” bateu a marca de 600 mil espectadores nos cinemas do país, sendo um dos maiores do cinema nacional no primeiro semestre, além de colocar Ney Matogrosso no holofote para um público mais jovem.

Apesar da boa audiência na Netflix, a cinebiografia do Esmir Filho praticamente não circulou nos festivais mundiais. 

 

“Oeste Outra Vez” também sofre do mesmo problema ainda que seja um queridinho da crítica e FilmTwitter.

Pode até fechar na pré-lista brasileira como forma de reconhecimento, mas, duvido muito que seja o escolhido.

As três vitórias no Prêmio Grande Otelo em uma cerimônia dominada por “Ainda Estou Aqui” deixaram claro como “Malu” é um filme querido pela Academia Brasileira de Cinema.

Talvez se a carreira internacional tivesse sido mais forte pudesse ter uma chance maior. 

“Baby” sofre com o fato de que chega como um candidato tardio, afinal, a carreira internacional dele aconteceu em 2024, inclusive, com premiação no Festival de Cannes.

Hoje, já disponível no streaming, a sensação é de que o tempo passou para ele em relação à vaga.  

Por fim, “A Melhor Mãe do Mundo” traz o prestígio da Anna Muylaert ao lado do Seu Jorge, conhecido mundialmente, em um filme exibido no Festival de Berlim e premiado no Cine PE.

A temática que remete a “Que Horas Ela Volta?”, filme que representou o Brasil no Oscar 2016, pode fazer com que a comissão opte por outro caminho. 

PODEM SURPREENDER

Agora, a coisa começa a esquentar um pouco mais: os próximos três filmes até não chegam como favoritos, mas, podem sim surpreender. 

É o caso, por exemplo, de “O Filho de Mil Homens”. Se você não conhece este projeto, tudo bem: ele ainda não estreou nos cinemas e nem o deve fazer.

Isso porque é um projeto da Netflix dirigido pelo Daniel Rezende, montador de “Cidade de Deus” e diretor de “Bingo”. O Rodrigo Santoro interpreta um pescador que deseja ser pai, mas, acha que o tempo para isso passou até encontrar um grupo de pessoas que vai mudar a vida dele. O longa é uma adaptação do best-seller escrito pelo Valter Hugo Mãe.  

Para tirar a vaga de “O Agente Secreto”, “O Filho de Mil Homens” precisa ser uma obra-prima, aquele tesouro que ninguém imaginava. Há a vantagem de ter a distribuição da Netflix para campanha na temporada, contar com um rosto conhecido do mercado mundial como o Santoro e, caso se torne um grande hit mundial na plataforma, compensaria não ter ido para festivais.  

Ainda assim seria uma escolha que causaria bastante controvérsia tanto pelo desconhecimento como pela questão política do próprio mercado audiovisual do Brasil. Afinal, estamos no meio de uma discussão sobre a regulamentação do streaming em que plataformas como Netflix lutam contra a medida. Escolher “O Filho de Mil Homens” dentro deste contexto tem tudo para dar treta. 

 

“Manas” faz uma carreira consistente no mercado internacional. Ao lado da Nicole Kidman, a diretora Marianna Brennand recebeu o prêmio Women in Motion no Festival de Cannes deste ano.

O longa passou bastante elogiado pelos festivais de Palm Springs, Seattle e Veneza. 

A temática sempre relevante do abuso de menores ganha ainda mais força inserida no meio do Amazônia. Para completar, o filme ainda possui Walter Salles e os irmãos Dardenne como produtores associados.  

São credenciais que colocam “Manas” no páreo ainda que eu sinta que, igual “Baby”, a trajetória do filme pareça hoje mais de conclusão com o fim da passagem no circuito comercial brasileiro.

Precisaria de um novo levante rumo ao Oscar 2026. 

“Vitória” também não pode ser descartado: grande sucesso de bilheteria no início do ano, o drama traz os paralelos com “Ainda Estou Aqui” seus pontos fortes.

A distribuição nos EUA está garantida com a Sony Pictures Classic, há a Fernanda Montenegro, indicada ao Oscar por “Central do Brasil” e presente no primeiro filme do país ganhador do Oscar, além da ambientação da trama no Rio de Janeiro sobre um drama conhecido da cidade e do país.  

Se a escolha brasileira tivesse ocorrido no início do ano quando “Vitória” estava forte nas bilheterias nacionais a ponto de tirar o último “Capitão América” do topo, o drama da Globo Filmes teria mais chances.

A Academia Brasileira de Cinema, porém, pode embarcar nesta narrativa de paralelos com “Ainda Estou Aqui”. Serei surpreendido se não ficar, pelo menos, na pré-seleção. 

BOAS CHANCES

Nenhum outro filme ameaça mais “O Agente Secreto” do que “O Último Azul” na disputa da vaga brasileira. A produção ambientada no Amazonas traz o maior prêmio conquistado por todos os concorrentes: o Urso de Prata do Festival de Berlim deste ano. A recepção elogiosa da crítica foi unânime e a produção vem emplacando um festival internacional atrás do outro – aliás, estará também em Toronto, porta de entrada importante para a temporada de premiações. 

Se contar com o Rodrigo Santoro e a própria Amazônia abre portas no mercado internacional, a comissão brasileira pode ainda se sensibilizar pelo fato do Gabriel Mascaro nunca ter sido o representante do Brasil no Oscar contra o que poderia ser a terceira vez do Kleber Mendonça Filho.  

Este fator pode pesar demais a favor de “O Último Azul”. Aqui, a Academia Brasileira pode optar por um caminho que a França tomou com “Anatomia de uma Queda”: ali, o drama da Justine Triet, também adquirido pela Neon, foi preterido por “O Sabor da Vida” na categoria de Filme Internacional. Isso não impediu “Anatomia” de concorrer aos prêmios principais, entre eles, Filme, Direção, Atriz e Roteiro Original. 

A comissão brasileira pode olhar para a força de “O Agente Secreto” com possibilidades de campanha forte para Melhor Filme, Direção, Ator e Roteiro Original e abrir o espaço em Filme Internacional para prestigiar “O Último Azul”. O longa do Mascaro teria sim mais dificuldades de emplacar a indicação, mas, não seria tão absurdo vê-lo em uma shortlist. 

Admito, porém, que é um cenário improvável até por conta da pressão que existe agora em torno da comissão após a vitória de “Ainda Estou Aqui”. Não ficar com “O Agente Secreto” seria correr o risco de trocar uma indicação certa por uma possibilidade de sequer ficar na shortlist. Para piorar, “O Último Azul” ainda não tem distribuição nos EUA, muito diferente do longa do Kleber ao lado da todo-poderosa Neon. 

Improvável, mas, não impossível.