De Selton Mello a “Rivais”, Caio Pimenta traz os filmes e atuações que indicaria ao Oscar 2025.
Antes de mais nada, é importante dizer que estou colocando aqui apenas produções que tiveram uma mísera possibilidade de aparecer em alguma categoria do Oscar. Poderia citar “O Mal não Existe” em roteiro, André Novais Oliveira em Direção, Amandyra em Melhor Atriz e por aí vai. Mas isso, infelizmente, jamais aconteceria nos moldes como a Academia é hoje.
ROTEIROS
Dito isso, vamos para as categorias de roteiro: nos originais, eu até deixaria os principais favoritos, mas, nos adaptados, as mudanças seriam mais sentidas.
Em Roteiro Original, não dá para fugir de “Anora”, em que Sean Baker consegue expandir a ideia de conto de fadas e comédia romântica para uma história sobre luta de classes, sem concessões, e de “A Substância”, em que Coralie Fargeat segue por caminhos conhecidos no discurso sobre a pressão estética, mas, ao investir em um ponto de partida doentio e na loucura das possibilidades mil da trama, faz uma obra que te prende do início ao fim.
“Jurado Número 2” também faria parte da lista: um drama de tribunal sobre a complexidade do que é fazer justiça e o que é a justiça diante de todos os conflitos morais. Faria também “A Semente do Fruto Sagrado”, outra produção sobre justiça e moral, trazida para o centro de uma família diante de um país sufocado por um regime opressor. “Rivais” fecha a minha lista com uma história em que desejo, paixão, ambição e ressentimentos constroem três personagens fascinantes.
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
- Anora
- A Substância
- Jurado Número 2
- A Semente do Fruto Sagrado
- Rivais
A categoria de adaptados é mais difícil de preencher com as cinco vagas. Dos finalistas do Oscar, o meu TOP 5 teria apenas “Nickel Boys”, um drama difícil de ser levado às telas, mas que consegue uma abordagem muito interessante e sofisticada ao trazer tudo sob o prisma subjetivo.
“Queer” é outra adaptação complicada que eu colocaria no Oscar 2025. Diferente da Academia, eu colocaria “Wicked”: uma história que vai direto ao ponto, capaz de transportar muito bem, com personalidade própria, personagens históricas dos palcos e do cinema para o filme e ainda inserir um subtexto que se conecta bem aos tempos atuais.
Já o roteiro de “Assassino por Acaso” vai por outro caminho ao expandir o material base — um artigo original publicado pela revista Texas Monthly — e criar uma história deliciosa que joga com o fascínio das pessoas sobre cinema; isso sem falar nos diálogos, que são dos melhores de 2024. Por fim, tem “Ainda Estou Aqui”, uma sublime adaptação da biografia de Marcelo Rubens Paiva, que apresenta com sensibilidade a destruição de uma família pelo infame regime militar brasileiro.
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
- Queer
- Nickel Boys
- Assassino por Acaso
- Ainda Estou Aqui
- Wicked
ATOR E ATRIZ COADJUVANTE
Passando para Melhor Atriz Coadjuvante, da lista do Oscar, eu manteria as duas favoritas: Ariana Grande como Glinda, que joga naquele tipo de personagem extravagante e caricata que rouba a cena — lembra, por exemplo, indicações como as de Johnny Depp como Jack Sparrow e Ryan Gosling como Ken.
Também deixo a Zoe Saldaña: é possível criticar tudo e mais um pouco de “Emilia Pérez” e, ainda assim, reconhecer o ótimo trabalho dela. O cansaço da personagem com o estado de coisas do México e, ainda assim, a resiliência de seguir acreditando para tentar o melhor fazem com que o musical de Jacques Audiard traga uma fagulha do que poderia ser, não fossem tantas falhas.
Se Demi Moore brilha em “A Substância”, é porque ali também está Margaret Qualley. A empolgação misturada com a inconsequência da personagem dela cria os ingredientes perfeitos para o caos que se anuncia.
Eu ainda corrigiria o erro da Academia de não ter lembrado de Renate Reinsve, que foi esnobada em “A Pior Pessoa do Mundo” com “Um Homem Diferente”. A atriz norueguesa explora muito bem a dubiedade da personagem, uma mulher que enxerga o protagonista e parece estender a mão, mas que hesita, mostrando preconceito, e, depois, ao usar a história do vizinho para passar uma mensagem ao mundo, revela-se alguém capaz de descartar o próximo sem peso na consciência.
Fecho a lista com Toni Collette: em mais um grande desempenho, ela personifica os conflitos do sistema judicial. De uma mulher tão confiante e certa, ela gradualmente passa a carregar uma dúvida e questionamentos que a atormentarão. A cena final seria suficiente para ganhar o Oscar.
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
- Zoe Saldaña, por “Emilia Pérez”
- Ariana Grande, por “Wicked”
- Renate Reinsve, por “Um Homem Diferente”
- Toni Collette, por “Jurado Número 2”
- Margaret Qualley, por “A Substância”
Ator Coadjuvante seria outra categoria em que eu colocaria apenas dois dos indicados ao Oscar: Yura Borisov está excelente como um dos capangas de “Anora”. Ele representa o público naquele show de absurdos de como os ricos tratam os mais pobres. Se ‘o silêncio vale mais do que mil palavras’, aqui, é o olhar dele que faz esse papel.
Manteria também Jeremy Strong: Roy Cohn era um sujeito asqueroso, confesso — não à toa influenciou Trump — e o astro de “O Aprendiz” decide ir fundo neste aspecto. A tour de force que ele apresenta impressiona com os altos e baixos muito claros. É uma das grandes atuações da temporada.
Mark Eydelshteyn seria outro nome de “Anora” em ator coadjuvante: Ivan é um cretino? Com certeza. Dá vontade de bater nele? Oh, se dá! E, se sentimos tudo isso, é porque há ali um ator que vai fundo nesta porralouquice de uma figura inconsequente. Difícil escolher apenas um da dupla de “Rivais”, mas fico com Josh O’Connor.
Selton Mello completaria a lista: o Rubens Paiva dele representava o sol, a felicidade de uma casa e de uma família. A primeira parte de “Ainda Estou Aqui” possui essa força acolhedora até mais por ele do que pela Eunice Paiva de Fernanda Torres. E, mesmo quando vai embora, o personagem ainda está ali, gravitando como uma força que nunca será apagada.
Fora que é ótimo ver Selton sem o Selton, como aconteceu demais nos últimos anos.
MELHOR ATOR COADJUVANTE
- Yura Borisov, por “Anora”
- Jeremy Strong, por “O Aprendiz”
- Selton Mello, por “Ainda Estou Aqui”
- Mark Eydelshteyn, por “Anora”
- Josh O´Connor, por “Rivais”
melhor ator
Em Melhor Ator, mexeria bem na lista do Oscar.
Sebastian Stan até entraria, mas seria com “Um Homem Diferente”. O covarde e atormentado personagem de Nicholas Hoult ficar fora da lista de indicados ao Oscar 2025 é simplesmente inacreditável. Glen Powell e as várias facetas que assume em “Assassino por Acaso” o tornam o trabalho masculino mais interessante e rico da temporada.
Da lista atual da Academia, ficaria apenas com Ralph Fiennes e seu cardeal Lawrence, dividido entre a tentação pelo poder, a proteção da Igreja e o cuidado para ser o mais isento possível no comando do Conclave, e Colman Domingo, exalando generosidade em “Sing Sing”.
MELHOR ATOR
- Ralph Fiennes, por “Conclave”
- Colman Domingo, por “Sing Sing”
- Sebastian Stan, por “Um Homem Diferente”
- Nicholas Hoult, por “Jurado Número 2”
- Glen Powell, por “Assassino por Acaso”
MELHOR ATRIZ
Fernanda Torres, Demi Moore e Mikey Madison são unanimidades em Melhor Atriz. Pensar na categoria nesta temporada sem citá-las chega a ser sacrilégio; por isso, não dá para levar tão a sério as listas do Bafta e do SAG.
Tiraria, sem muito pesar no coração, Karla Sofia Gascón e Cynthia Erivo para colocar Zendaya, excelente em “Rivais”, e ainda Jodie Comer, em uma atuação pouco comentada, mas grandiosa em “Clube dos Vândalos”.
MELHOR DIREÇÃO
Não bastasse ter feito “Queer”, um filme que certamente será redescoberto pela cinefilia em breve, Luca Guadagnino ainda realizou “Rivais”, uma obra cheia de tesão, com sequências frenéticas e soluções visuais criativas para uma história que prende o público do início ao fim. Ele seria o primeiro da lista de Melhor Direção sem dificuldades.
O estilo clássico de Clint Eastwood em “Jurado Número 2”, um dos melhores e mais complexos filmes da carreira dele, também se faria presente no Oscar. Toda a experiência de uma vida está ali para criar uma obra que joga com “12 Homens e uma Sentença” ao trazer mais questionamentos morais sobre o que é justiça e a responsabilidade pelo peso dos nossos atos. A orquestração disso e a maneira como isso é apresentado é linda demais.
Impossível deixar de fora Mohammad Rasoulof. A indicação seria tanto pela direção em si, afinal, realizar um filme tão bom e tenso nas condições em que se deu, quanto pela resistência e luta dele contra o regime iraniano. Simbólico demais.
Quanto aos indicados pelo Oscar, eu ficaria com Coralie Fargeat pela inteligência de ter captado de forma tão exata um sentimento aprisionador como a pressão do padrão estético, o que quebrou as barreiras que “A Substância” teria naturalmente pelo gore, e Sean Baker, que consegue dar coesão a toda a maluquice e possibilidades de “Anora”.
MELHOR DIREÇÃO
- Sean Baker, por “Anora”
- Coralie Fargeat, por “A Substância”
- Mohammad Rasoulof, por “A Semente do Fruto Sagrado”
- Clint Eastwood, por “Jurado Número 2”
- Luca Guadagnino, por “Rivais”
MELHOR FILME
Para fechar, senhoras e senhores, o meu TOP 10 de Melhor Filme do Oscar 2025.
Da lista da Academia, eu seguiria com “Ainda Estou Aqui”, “Anora”, “A Substância” e “Wicked”.
Em vez de “Emilia Pérez”, o meu segundo internacional ficaria com o alemão/iraniano “A Semente do Fruto Sagrado”.
“Jurado Número 2”, “Rivais” e “Assassino por Acaso” também seriam nomes certos.
“Duna 2” sairia da cota dos blockbusters para a entrada de “Furiosa”, também da Warner Bros.
E para fechar, o excelente documentário “Trilha Sonora para um Golpe de Estado” com um impecável trabalho de montagem e uma história fundamental para entender a geopolítica de ontem e hoje.
MELHOR FILME
- “Anora”
- “A Substância”
- “A Semente do Fruto Sagrado”
- “Jurado Número 2”
- “Rivais”
- “Furiosa”
- “Trilha Sonora para um Golpe de Estado”
- “Ainda Estou Aqui”
- “Wicked”
- “Assassino por Acaso”






















